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Memória

Hans Staden naturalista

Autor de obra clássica sobre o Brasil foi o primeiro a descrever as abelhas sem ferrão, há 452 anos

MARILDA CORTOPASSI LAURINO/LAB. DE ABELHAS/IBUSP

Viagem ao Brasil, de Hans Staden, foi um dos primeiros livros inteiramente escritos sobre o país. Desde 1557, quando foi publicado na cidade de Marburg, em Hessen, na Alemanha, é um grande sucesso editorial, com mais de 80 edições em várias línguas. E, mesmo sendo uma obra muito lida há centenas de anos, ainda provoca surpresas. Wolf Engels, geneticista e zoólogo alemão da Universidade de Tübingen, por exemplo, teve a atenção despertada pelo capítulo 35 da segunda parte do livro. Em apenas 115 palavras, Engels identificou a primeira descrição de abelhas sem ferrão já registrada no Brasil e publicou neste ano um artigo na edição on-line da Genetics and Molecular Research.

“O livro de Hans Staden é bem conhecido, mas as informações sobre a fauna e particularmente as abelhas-indígenas sem ferrão nunca foram citadas”, diz Engels, que trabalha também no Departamento de Genética da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, e tem projetos binacionais com o Brasil há 40 anos. “Conheço as três espécies muito bem e os detalhes descritos por Staden são precisos”. As abelhas sem ferrão só foram classificadas como um grupo característico, o de meliponíneos, 250 anos depois da publicação de Viagem ao Brasil. O livro trata das duas passagens do artilheiro alemão ao país e conta como foi aprisionado pelos tupinambás, índios antropófagos, mas conseguiu escapar.

O trecho que chamou a atenção do pesquisador alemão é o seguinte: “Três espécies de abelhas há no país. As primeiras são semelhantes às daqui. As segundas são pretas e do tamanho de moscas. As terceiras são pequenas, como mosquitos. Todas essas abelhas fabricam mel no oco das árvores e muitas vezes tirei mel com os selvagens de todas as três espécies. As pequenas têm, em geral, melhor mel que as outras. Também não mordem como as abelhas daqui. Vi, muitas vezes, ao tirarem mel os selvagens, que ficavam cheios de abelhas e que a custo as tiravam à mão do corpo nu. Eu mesmo tirei mel, nu; mas da primeira vez fui coagido pela dor a meter-me na água e tirá-las ali para me livrar delas” (editora Martin Claret, 2008).

As três são, de acordo com Engels, a mandaçaia (Melipona quadrifasciata), a mandaguari (Scaptotrigona postica) e a jataí (Tetragonisca angustula). São abelhas-indígenas com o ferrão atrofiado, nativas do Brasil, onde há mais de 300 espécies do tipo. Embora não piquem, elas defendem seu mel com pequenas mordidas na pele.

Paulo Nogueira-Neto, professor emérito da Universidade de São Paulo, autor de Vida e criação das abelhas-indígenas sem ferrão (editora Nogueirapis), foi um dos primeiros pesquisadores a estudar essas espécies no país, assim como Warwick Estevam Kerr, especialista em genética animal.

Nogueira-Neto lembra que o padre José de Anchieta escreveu uma carta ao seu superior na Companhia de Jesus, padre Diogo Laines, datada de 1560, apenas três anos depois de Staden publicar seu livro. Nela Anchieta faz numerosas observações sobre a fauna e a flora brasileiras e também cita abelhas que “fazem seu mel em troncos de árvores”.

Nogueira-Neto conta que quando esteve à frente da Secretaria Especial do Meio Ambiente (1974-1986) e criou a Estação Ecológica Tupinambás, em Ubatuba, usou Viagem ao Brasil para batizar algumas ilhotas. “Na época havia algumas ilhas oceânicas sem nome”, relata. “Como o Serviço de Patrimônio da União não admite lugar sem nome, usei o livro para chamar as ilhas com denominações indígenas porque foi naquela parte do litoral paulista que Hans Staden ficou prisioneiro dos tupinambás”, diz Nogueira-Neto.

Artigo científico
ENGELS, W. The first record on Brazilian stingless bees published 450 years ago by Hans StadenGenetics and Molecular Research. vol. 8, n. 2. p. 738 – 743. jun. 2009.

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