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Homenagem

Os caminhos de Amélia

Trabalhos da pesquisadora vão da física à educação, da memória à política científica

Lucia mindlin Loeb

Amélia Hamburger em 2009Lucia mindlin Loeb

Amélia Império Hamburger foi uma pesquisadora em física que publicou alguns trabalhos importantes no exterior, quando esteve na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, no final dos anos 1950. Mas foi na intersecção da física com as diversas áreas das ciências humanas que ela obteve mais destaque ao publicar estudos e livros sobre a preservação da memória científica, epistemologia e política de ciência e tecnologia, além de ter organizado arquivos de interesse histórico no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP). “Ela dizia que optou pela física pensando em ajudar o país no futuro”, conta o também físico Ernst Wolfgang Hamburger, que ela conheceu na USP e com quem foi casada por mais de 50 anos. “Ocorre que sua visão não era puramente cientificista. O que mais a interessava era a moldura social da ciência.” Amélia morreu aos 78 anos em 1º de abril em consequência de um câncer.

A pesquisadora formou-se em 1954 na USP e trabalhou com os físicos Philip Smith e Oscar Sala no acelerador de partículas Van der Graaf. Dois anos depois partiu para o mestrado em Pittsburgh. Em 1958 publicou como coautora um artigo no primeiro número da recém-criada revista Physical Review Letters sobre reações nucleares no C14 e C13. Um segundo trabalho, mais completo, foi publicado na Physical Review em 1960, ano em que voltou ao Brasil.

De sua união com Ernst nasceram quatro filhos em cinco anos, entre 1960 e 1964 (o quinto nasceu em 1970): Esther, antropóloga, Sônia, produtora cultural, Vera, diretora de arte, Carlos (Cao), cineasta, e Fernando (Feco), fotógrafo. Amélia foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Física, em 1966, em uma situação singular. “Ela se recuperava de uma hepatite, em casa, e tinha sido indicada por colegas, junto com Oscar Sala e Ross Douglas, para redigir proposta de estatutos da nova sociedade. Os dois foram até lá e sentaram no pé da cama para que ela os ajudasse com o estatuto”, conta Ernst.

Com a situação política ruim em razão do golpe militar, a família foi para Pittsburgh, onde ficou de 1965 a 1967. No período, Amélia fez um pós-doutorado na Universidade Carnegie Mellon com uma peculiaridade: sem ter feito doutorado. “Várias vozes sensatas da USP admitiram que Amélia era uma pesquisadora que, embora não tivesse completado o doutorado em física, tinha conhecimento e experiência suficientes para ser reconhecida como doutora”, relata Ernst. Amélia pesquisou as propriedades de cristais magnéticos a baixas temperaturas. “Mas, depois de algum tempo, ela quis voltar”, diz. A decisão se revelou traumática. O casal terminou preso pelos órgãos de repressão em dezembro de 1970. “Nosso filho mais novo tinha apenas 8 meses e isso deixou Amélia muito preocupada. Ela passou pouco tempo na prisão, mas foi torturada e ficou fora de si.”

Depois do episódio, os dois conseguiram retomar a carreira no Instituto de Física da USP (IFUSP). Amélia envolveu-se com o curso de pós-graduação de ensino de física e escreveu e orientou estudantes a respeito de questões epistemológicas, principalmente relativas a tópicos de física clássica e quântica. “Ela era preocupada com o reforço das nossas instituições acadêmicas e políticas e com todas as questões referentes ao ensino”, diz Sílvio Salinas, professor e pesquisador do IFUSP. “Seus trabalhos em epistemologia e história da ciência foram motivados por interesses no ensino da física e na preservação da memória da ciência no país.”

reprodução lucia mindlin loebA preocupação com a memória científica a levou a organizar o primeiro volume da Obra científica de Mario Schönberg (Edusp, 2009), vencedor do Prêmio Jabuti em 2010 na categoria Ciências Exatas, Tecnologia e Informática. Interessada na política científica, a pesquisadora organizou dois livros sobre a história da FAPESP: FAPESP, uma história de política científica e tecnológica (FAPESP, 1999), com Shozo Motoyama e Marilda Nagamini, e FAPESP 40 anos. Abrindo fronteiras (Edusp/FAPESP, 2004). Foi também uma das organizadoras de A ciência e as relações Brasil-França 1850-1950 (Edusp/FAPESP, 1996) e publicou com Renina Katz o livro Flávio Império (Edusp, 1999) sobre seu irmão, arquiteto, cenógrafo, diretor de teatro e artista plástico.

“Amélia foi uma grande amiga que teve uma vida de incansável atividade em prol da ciência no Brasil”, disse o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz. “Sempre defendeu o valor da pesquisa básica e o progresso da ciência, no sentido mais amplo e não utilitário que esta expressão possa ter. Foi cientista, militante e, ainda por cima, junto com o Ernst, criou uma família de pessoas educadas e inteligentes. Sua ausência será muito sentida.”

O presidente da FAPESP, Celso Lafer, demonstrou igual pesar. “Amélia Hamburger contribuiu de maneira muito importante para a organização e divulgação da memória da FAPESP”, disse. “O historiador francês Pierre Norat fala da importância dos locais de memória que precisam e devem ser preservados. A FAPESP tem sido, no correr dos anos, um importante local da memória da pesquisa e da ciência no estado de São Paulo, com repercussão nacional. O trabalho da professora Amélia contribui para a criação desse local de memória e para manter viva a alma da instituição.”

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