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Resenhas

O racismo oculto dos governantes

Cidadão do mundo – O Brasil diante do Holocausto e dos judeus refugiados do nazifascismo (1933-1948) | Maria Luiza Tucci Carneiro | Editora Perspectiva / Fapesp, 480 páginas, R$ 75,00

O Estado brasileiro diante dos refugiados do nazismo

O livro Cidadão do mundo – O Brasil diante do Holocausto e dos judeus refugiados do nazifascismo (1933-1948), de Maria Luiza Tucci Carneiro, tem origem em sua tese de livre-docência apresentada na FFLCH da USP em 2001. O trabalho é uma suma das pesquisas da historiadora no campo dos estudos judaicos. Nesse livro, como em outros de seus trabalhos, vemos a marca da pesquisa de arquivo ao lado de um engajamento ético e político, pois ela tem como força de seu trabalho a luta pela justiça, verdade e  memória.

Cidadão do mundo volta-se para o posicionamento do governo brasileiro (de Getúlio e Dutra) diante da enorme questão da necessidade de se receber os refugiados judeus do nazifascismo. Tanto Luis Roniger, na apresentação do livro, como Leonardo Senkman, na orelha, destacam, com razão, a originalidade da pesquisa em questão. Roniger chega a falar em “revelações inquietantes”, referindo-se às circulares secretas que guiavam a ação antissemita de nossos diplomatas.

Pode-se dizer que de certa maneira a obra de detetive (que caracteriza boa parte do trabalho do historiador), de leitura de documentos antes inacessíveis e protegidos com a tarja de “secretos”, está ou em breve estará em crise, na era dos Wikileaks da vida, que hoje, ainda no calor da hora, trazem à luz do dia – ou à correnteza fria da internet – fatos que nossos diplomatas preferiam que nunca se tornassem públicos. Mas sobre a época enfocada ainda carecemos muito do esforço de historiadores do quilate de Maria Luiza.

Além do aspecto humanista, ético e de seu engajamento pela memória, a obra em questão também realiza uma difícil ponte entre a micro-história e a grande história, das nações e políticas de Estado. A autora como que salva do esquecimento famílias que foram massacradas pela máquina assassina do Holocausto, ou recorda os nomes daquelas que conseguiram asilo no Brasil – malgré tout… – na mesma medida em que arrola uma série de cartas, telegramas, notícias e fotos documentando os grandes eventos da Segunda Guerra Mundial e do drama dos refugiados. As fotos, aliás, também servem para costurar essa trama entre os indivíduos e o histórico, entre a memória e a história, meio também de humanizar e dar rosto aos fatos.

Lendo essa obra encontramos detalhes sobre a política de imigração brasileira da era Vargas, calcada em cotas e, mais importante, no modelo eugênico que previa a construção de uma “raça brasileira”. Nesse modelo não havia espaço para os judeus. Vemos como o Estado se tornou o grande gerenciador da população, tentando também forjar seu corpo e sua “raça”. O Estado tinha vários setores responsáveis por essa façanha, como a Diretoria do Serviço de Povoamento (do Ministério da Agricultura), dirigida por Dulphe Pinheiro Machado, que considerava a “população judaica” elemento “parasitário e inassimilável”, bordão repetido em vários dos documentos de Estado citados pela autora. O antissemitismo era um verdadeiro credo de Estado. Também contribuíam para a ideologia eugenista psiquiatras e pensadores como Oliveira Vianna, Roquete Pinto e Miquel Couto. Outro setor ligado à biopolítica da população era, como não poderia deixar de ser, o Conselho Nacional de Imigração, ligado ao Ministério do Trabalho. A autora deixa claros os inúmeros pontos de encontro da biopolítica brasileira com o que acontecia então nos regimes totalitários da Europa. Ela foca sobretudo a “ação sistemática do Ministério das Relações Exteriores contra os judeus”. É dele que emanam as circulares secretas antissemitas a partir de 1937. O governo Vargas, atuando no sentido da “higienização da raça brasileira”, chegou a penalizar diplomatas que se mostraram dispostos a salvar os judeus, como foi o caso do embaixador Luiz Martins de Souza Dantas.

Uma das partes de maior destaque do livro é seu retrato dos bastidores diplomáticos brasileiros durante a Conferência de Evian de 1938, realizada a pedido de Roosevelt. Ela deveria tratar da acolhida dos refugiados judeus da Alemanha e da Áustria. Nosso representante, Hélio Lobo, foi mantido sob rédea curta por Oswaldo Aranha, que não permitiu que o Brasil fizesse concessões com relação à abertura para a recepção dos refugiados.

Márcio Seligmann é professor de teoria literária da Unicamp e coordenou o projeto Escritas da violência (apoio da FAPESP).

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