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Bactéria GFAJ-1

Legado incômodo

A história da bactéria GFAJ-1 contaminou a Nasa e a revista Science

Bactéria encontrada no lago Mono

Bactéria encontrada no lago Mono

Embora o pico de popularidade deste assunto já tenha passado, o caso traz lições importantes sobre o relacionamento entre as instituições científicas e o grande público.

Em 2 de dezembro de 2010 a Nasa organizou uma conferência de imprensa para apresentar  “uma descoberta astrobiológica que vai impactar a procura de vida fora da Terra”.  Havia três dias, circulavam na internet especulações frenéticas de que a agência espacial americana teria descoberto algum tipo de vida em Reia, lua gelada de Saturno onde tinha encontrado recentemente uma finíssima atmosfera de oxigênio e dióxido de carbono. Cercado de sigilo, o anúncio oficial atraiu a atenção mundial, mas seu ponto central não se referiu ao satélite do planeta gasoso.  O foco da notícia estava ligado à revista Science que acabara de colocar em seu site o paper (artigo científico) “Uma bactéria que cresce usando arsênio no lugar do fósforo“, assinado por Felisa Wolfe-Simon e outros colaboradores da Nasa.

Na conferência de imprensa pouco foi discutido sobre o resultado em si do estudo, que nada tinha a ver com a possibilidade de vida fora da Terra, até porque a abundância cósmica do arsênio é mil vezes menor que a do fósforo. A bactéria GFAJ-1 não constitui um tipo diferente de vida, como alardeado no press release da Nasa. Ela é apenas um exemplar de extremófilo, da família das Halomonadaceae, que pode ser encontrada no Mono Lake, na Califórnia.  Ao colocar a bactéria numa cultura em laboratório, os cientistas da Nasa foram reduzindo a concentração de fósforo em relação à do arsênio até níveis “bastante baixos”, sem especificar um valor para isso. A GFAJ-1 continuou a se reproduzir, embora mais lentamente, e morreu quando a concentração de arsênio e fósforo foi zerada.

A reação do público diante do estrondoso anúncio ficou dividida. Houve quem considerasse que qualquer avanço da ciência para entender os limites da vida valia a pena e quem se decepcionou com a falta de ligação inteligível entre o resultado divulgado e a astrobiologia.  A reação mais forte, entretanto, veio da parte de pesquisadores da área de DNA e microbiologia. Alguns desses estudiosos haviam escrito em 2007 um report para a Academia de Ciências dos Estados Unidos sobre pesquisa de vida extraterrestre, incluindo a questão da biologia baseada em arsênio. As críticas desses cientistas, quase unânimes, apontavam descuidos primários no manuseio do DNA, feito por uma equipe da Nasa que, na verdade, é de geofísicos. A única coisa certa do trabalho é que se descobriu uma bactéria que pode viver em baixas concentrações de fósforo, o que é interessante, mas não é novidade. O paper na Science deveria informar qual o valor da concentração de fósforo, dado que no mar de Sargaços vivem diversos microrganismos em concentrações de fósforo 300 vezes menores que nas culturas de laboratório.

“Esse paper nunca deveria ter sido publicado”, diz Shelley Copley, da Universidade do Colorado. “Ao que parece, o arsênio que eles estão vendo é uma contaminação do meio de cultura”, diz Rosie Redfield da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. Segundo ela, a descontaminação poderia ter sido feita de modo simples: “Com um pequeno kit que custa US$ 2, em 10 minutos você obtém DNA puro. É como se eles quisessem tanto encontrar arsênio que não fizeram muito esforço para estarem certos de que não o teriam encontrado por erro”. Essa é uma lição de casa que um simples estudante de doutorado deve fazer: procurar dados não só que corroborem suas expectativas, mas também elaborar testes que teriam a capacidade de refutá-las. “Eu suspeito que a Nasa estava tão desesperada para uma reportagem positiva que nem pediu conselho sério a pesquisadores das áreas de DNA e microbiologia”, diz John-Roth, da Universidade da Califórnia em Davis. Se essas e diversas outras criticas estiverem corretas, o assunto deve ser resolvido em pouco tempo, quando outros laboratórios tiverem repetido o experimento.

A história da bactéria GFAJ-1 guarda diferenças e semelhanças com o pretenso “fóssil” microscópico, encontrado num meteorito vindo de Marte (ALH 84001), que a Nasa apresentou ao público em 1996. Naquele caso, o numero de fósseis na rocha, uma possível evidência de que houve vida bacteriana em Marte, era muito pequeno e eles só podiam ser estudados por umas poucas de técnicas.  O caso dos microfósseis marcianos nunca ficou devidamente esclarecido, pois se acredita que essas estruturas também podem ser produzidas na rocha por caminhos abióticos, que não dependem da vida. A exemplo do episódio com a bactéria do arsênio, a “descoberta” do fóssil marciano também não havia passado por um crivo rigoroso e foi apresentada em grande estilo, por nada menos que o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. Naquele evento, parece que o anúncio facilitou a aprovação do orçamento da Nasa. Agora perguntei a dois colaboradores meus da agência espacial americana se, no caso atual, também teria havido uma pressão da agência por verbas. Eles acreditam que não, embora o telescópio James Webb, que vai substituir o Hubble, esteja com problemas orçamentários. A lição para os comunicadores da ciência é que o foco da divulgação científica deve ser o resultado da descoberta em si e não as especulações de suas possíveis consequências para outras áreas ou a necessidade de visibilidade das instituições de pesquisa. Tanto no caso antigo como no atual, a credibilidade da Nasa perante parte do público ficou arranhada.

O episódio com a bactéria GFAJ-1 colocou a nu outro ponto fraco dos procedimentos científicos. A aceitação de um paper por uma revista passa pela revisão por pares, ou seja, um cientista da mesma área (normalmente um concorrente forte) tenta demolir os resultados apresentados. O que ficar de pé pode seguir para publicação. A revisão técnica do artigo pela Science falhou, aparentemente seguiu um caminho simplificado, possivelmente com um parecer de alguém um pouco fora da área específica. A Science promete se explicar em detalhes. Não é que isso não aconteça com alguma frequência em revistas científicas. É até compreensível que, dado o enorme volume de papers, a revista tenha dificuldades para encontrar o melhor parecerista para cada um. É compreensível que falhas de revisão técnica possam acontecer com resultados de menor relevância, que o tempo se encarrega de jogar no lixo. Mas isso jamais deveria ocorrer com um resultado de impacto, com potencial de criar tendências nas áreas de pesquisa. Como dizia Carl Sagan: “Uma descoberta extraordinária requer provas extraordinárias”. A prática centenária de revisão dos artigos científicos por pares não pode ser abandonada nem flexibilizada. Mas a tendência atual parece ser o contrário: resultados com maior potencial de repercussão passam por uma revisão mais leniente.

Quem perdeu muito com o caso foi a astrobiologia.  Esse campo de atividades planeja encontrar fatos que permitam fundar uma nova ciência experimental. Isso é, por si só, uma tarefa hercúlea. Casos como o da bactéria da Nasa e outras especulações são um retrocesso e arriscam a credibilidade de uma área que, nos últimos anos, vem crescendo baseada em pesquisas bem fundamentadas.

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