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fcw 2011

Ciência: Batalhas contra a rejeição

Jorge Kalil contribuiu para o avanço da imunologia de transplantes e a criação de entidade que organiza a doação de órgãos

léo ramos

Jorge Kalil: formação na França e pesquisa e ensino no Brasilléo ramos

Em uma de suas visitas ao Brasil, o cientista francês Jean Dausset foi recebido pelo amigo Jorge Elias Kalil Filho, de quem tinha sido orientador no doutorado na Universidade Paris VII. Os dois discutiam formas de convencer o governo brasileiro a criar um programa nacional de transplantes quando Dausset, Prêmio Nobel de Medicina de 1980, deu o seguinte conselho: os envolvidos diretamente com transplantes deveriam criar uma sociedade civil e começar o programa por conta própria. Quando o governo percebesse a importância da causa para a saúde, iria atrás e a encamparia. “Foi o que fiz”, diz o imunologista brasileiro. “Convidei os professores Euryclides Zerbini, Adib Jatene, Silvano Raia e Emil Sabbaga, todos famosos e experientes em transplantes, para ajudar a pensar, estruturar e organizar o modo de operação de uma associação.” Em dezembro de 1986 foi fundada a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), cujo primeiro presidente foi Jorge Kalil.

Não foi a primeira vez que um francês foi decisivo na vida desse gaúcho de Porto Alegre. Durante a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), nos anos 1970, Kalil e um grupo de amigos estudavam o idioma à noite quase como um hobby – depois todos saíam para se divertir. No último ano da faculdade, quando era monitor de genética, foi fazer um curso de imunogenética para pós-graduandos no Rio de Janeiro ministrado por pesquisadores do Instituto Pasteur, de Paris. “No primeiro dia de aula os professores concluíram que os alunos não tinham entendido nada”, conta Kalil.

Durante a happy hour ele comentou com os franceses que o problema era a falta de algumas noções básicas de genética humana, um pressuposto do curso. Para remediar a situação, um assistente de Jean Dausset, Marc Fellous, pediu ao estudante ministrar esses conceitos aos pós-graduandos. “Dei uma manhã de aula e o curso deslanchou. Os franceses ficaram impressionados e o Fellous me convidou para trabalhar com eles.” Em março de 1978 Kalil, aos 24 anos, casou com Liana, de 21, e embarcou para Paris.

Ele frequentou o curso de imunologia no Instituto Pasteur antes de começar a trabalhar no Laboratório de Imunogenética do Transplante Humano sob a direção de Marc Fellous, dentro da unidade de responsabilidade de Dausset. Naquela época, iniciava-se no laboratório o desenvolvimento de uma tecnologia nova, recém-desenvolvida pelo argentino César Milstein e pelo alemão Georges Köhler – que também viriam a ganhar um Nobel –, chamada de anticorpos monoclonais (mAbs). Os anticorpos são proteínas do sistema imunológico que identificam e neutralizam corpos estranhos como bactérias, vírus ou células tumorais. Pela nova tecnologia, os mAbs podem ser gerados in vitro e não precisam do soro do animal.

Jorge Kalil percebeu ali uma oportunidade e foi pioneiro em fazer mAbs na França, especificamente para caracterizar a estrutura e função de moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (HLA). O HLA controla a resposta imunitária e é também o alvo molecular da rejeição nos transplantes. A compatibilidade HLA diminui a rejeição e aumenta as chances de longa sobrevida dos transplantes. “Começamos a fazer mAbs contra as moléculas HLA, além de outras moléculas importantes em doenças. Isso teve muita repercussão e alavancou minha carreira”, diz ele.

arquivo familiar

Formatura na UFRGS, em 1977arquivo familiar

De 1978 a 1982 o jovem pesquisador fez mestrado e doutorado e publicou 30 artigos. Naquele período, a sorte, ele diz, o favoreceu. “Sorte é estar no local certo, na hora certa e saber usar isso”, observa. Seu chefe direto, Marc Fellous, saiu para um ano sabático no exterior e o brasileiro se tornou o responsável pelo Laboratório de Anticorpos Monoclonais, dentro da unidade comandada por Dausset. Em 1980, o francês ganhou o Nobel de Medicina, dividido com Barruf Benacerraf e George Snell. “Eu já estava tão integrado à cultura francesa que confiaram a mim a compra do champanhe para comemorarmos, o que não é pouca coisa em se tratando de franceses”, conta, divertido. Naquele momento Dausset acenou com a possibilidade de contratação definitiva, mas o casal decidiu voltar ao Brasil. Nesses cinco anos em Paris nem tudo foi alegria. Seu pai morreu no Rio Grande do Sul e ele só chegou para o enterro.

Em 1983, Kalil estava instalado em Porto Alegre com um cargo de professor assistente na UFRGS e como pesquisador do recém-criado Centro de Biotecnologia do Rio Grande do Sul. Em 1985 foi contatado por Fulvio Pileggi e Adib Jatene, diretores do InCor – e aquele encontro mudou o rumo de sua vida. “Ambos me disseram que iriam relançar o programa de transplantes e precisavam de bons cientistas que conhecessem imunologia. E me convidaram para mudar para o InCor.”

Kalil fez uma proposta ambiciosa que foi aceita imediatamente. “Contratei pelo currículo, que era muito bom. Nós precisávamos de gente no InCor para fazer imunologia de transplante”, conta Pileggi, hoje aposentado. “Aqui ele progrediu muito porque tinha uma base excelente e demos condições para isso.” Como não havia área disponível dentro do InCor, o Laboratório de Imunologia foi instalado na FMUSP. No laboratório, Kalil mostrou como trabalhar com os mAbs e foi pioneiro na implantação de técnicas de biologia molecular no Brasil, além de ter estudado o polimorfismo genético dessas moléculas. Também contribuiu para a pesquisa de moléculas da superfície de células endoteliais envolvidas em rejeição de transplantes e propiciou o desenvolvimento de estudos sobre o reconhecimento imunológico em três modelos humanos: transplante, doença de Chagas e febre reumática. Ele foi um dos cinco brasileiros selecionados por sua contribuição científica e tornou-se international scholar do prestigioso Howard Hughes Medical Institute, nos Estados Unidos.

Foi em 1985 que Jean Dausset, morto em 2009, esteve em São Paulo e aconselhou Kalil a montar a ABTO. Antes da associação havia pouquíssima doação de órgãos no país. Junto com Zerbini, Kalil viajou pelo Brasil para mostrar a importância de doar. “Aos 74 anos, Zerbini era um garoto-propaganda bárbaro”, relata. A associação conseguiu a mudança da lei para facilitar a doação para transplante, cujo relator foi o então deputado e atual governador paulista Geraldo Alckmin.

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No Hospital Saint Louis, em Paris, em 1980, quando Jean Dausset (de paletó escuro, ao lado de Kalil) ganhou o Nobelarquivo familiar

“Hoje o Brasil tem o maior programa público de transplantes do mundo e é o terceiro país que mais faz o procedimento, atrás dos Estados Unidos e da China”, conta Jorge Neumann, diretor do Laboratório de Imunologia de Transplante da Santa Casa de Porto Alegre, que tem o único hospital do hemisfério Sul dedicado inteiramente a transplantes. Neumann se formou na Faculdade de Medicina da UFRGS junto com Kalil, foi seu vice-diretor no Laboratório de Imunologia do InCor por sete anos e um dos fundadores da ABTO. Admirador da capacidade intelectual do amigo, ele diz que a gestão é um de seus pontos mais fortes. “Ele gosta muito de gerir e fazer contatos.”

Em 1991, Kalil passou um ano sabático como professor visitante na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, trabalhando no Laboratório de Tipificação Celular, onde se tornou diretor em exercício. Publicou vários artigos naquele ano e contribuiu para os estudos de ligação entre HLA e narcolepsia. “Me deram o laboratório para tomar conta. No final me convidaram para ficar em definitivo”, diz. A mulher, Liana, gostou da ideia.

“Já que não conseguimos ficar na minha terra, pelo menos em Menlo Park, na Califórnia, a qualidade de vida era muito melhor do que em São Paulo”, conta Liana. “O Jorge ia e voltava do laboratório de bicicleta, chegava cedo em casa, produzia muito. Era outra vida.” Mas não foi o que aconteceu. “Voltamos. Eu tinha laboratório, gente contratada e muitos compromissos em São Paulo”, diz o imunologista. O casal tem dois filhos. Emmanuelle, de 28 anos, formada em administração na FGV com pós-graduação na França, trabalha em uma multinacional de cosmé-ticos no Rio de Janeiro. Fernando, de 26 anos, é engenheiro formado pela Poli-USP com duplo diploma na École des Ponts e Chaussées de Paris, mas optou pelo mer-cado financeiro. Liana é psicóloga formada em Paris e hoje não atua mais.

Em 1998 pela primeira vez foi aberto concurso para professor titular de imunologia clínica e alergia da FMUSP. Ele concorreu, ganhou e estendeu seu campo de atuação científica. “Em 2006 Kalil foi presidente do InCor e do Conselho Curador da Fundação Zerbini, quando houve a grande crise por lá e ele se saiu muito bem”, lembra Giovanni Guido Cerri, secretário estadual da Saúde e ex-diretor da FMUSP. A inserção em entidades internacionais também cresceu. Hoje ele é vice-presidente da União Internacional de Sociedades de Imunologia, que congrega as sociedades dessa especialidade de 65 países, e a partir de 2013 será o presidente. “Desde a minha volta para o Brasil sempre fiz política científica”, diz o imunologista, lembrando ter participado dos comitês gestores do PADCT e Pronex.

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Em 1991, com a família em Menlo Park, na Califórniaarquivo familiar

“Na etapa que estou da carreira, gostaria de fazer a tradução da pesquisa para a utilidade clínica”, explica Kalil, de 58 anos, que além dos laboratórios no InCor e na FMUSP coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de imunologia. Atualmente dedica-se com seus colaboradores, entre outros projetos, ao desenvolvimento de duas vacinas: uma contra estreptococo para evitar febre reumática e outra contra HIV. Em 2011 surgiu essa oportunidade no Instituto Butantan, do qual se tornou diretor. “Acho que o Butantan precisa de alguém como ele para reestruturar a fabricação de vacinas e hemoderivados. E, naturalmente, introduzir novas vacinas e produtos”, diz o secretário Cerri, que o convidou para ocupar o cargo. Além disso, Kalil quer ajudar no desenvolvimento de várias moléculas com ação farmacológica descobertas no instituto. “O Brasil tem de aprender a dar esse passo tecnológico.”

As pesquisas dos laboratórios que ele dirige não ficam abaladas por esse mergulho nas funções executivas? “Não, porque ele se cerca de pessoas que o ajudam a pensar. Conheço poucos pesquisadores que aliam tamanha capacidade de pesquisa e de gestão como ele”, responde Edécio Cunha-Neto, professor associado da FMUSP, chefe do Laboratório de Imunologia Clínica da FMUSP e pesquisador do Laboratório de Imunologia do InCor. A cada semana Kalil dedica três horas para os alunos e de duas a quatro aos pesquisadores seniores. “Dessa forma, não perde o contato, acompanha e orienta as pesquisas.”

Para Edécio, a instalação do Laboratório de Imunologia em 1985 foi talvez a ação científica mais importante de Kalil porque ele trouxe para o Brasil um olhar mais molecular para a imunologia. Luiza Guilherme, pesquisadora de primeira hora desse laboratório, concorda. “A maior contribuição foi a implementação do conhecimento na área da imunologia do transplante de órgãos no Brasil e em doenças autoimunes”, diz. Kalil segue publicando. No ano passado foram 22 artigos. Em 2005 ganhou o Prêmio Mundial de Biologia da Academia de Ciências para os Países em Desenvolvimento (TWAS) por sua contribuição em autoimunidade. Ele descreveu os mecanismos celulares e moleculares em que uma doença infecciosa desencadeia uma doença autoimune. A ciência continua sua grande paixão.

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