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Nelson de Oliveira

Na fila do correio

A fila das agências do correio é tão longa e arrastada que, para as pessoas não se irritarem ainda mais, há cartazes espalhados por toda parte pedindo aos usuários que evitem os temas polêmicos. O aviso é muito claro: não discutam política. Não comentem a última partida da seleção brasileira. Não falem sobre o capítulo final da novela das oito, tampouco sobre a conjectura de Poincaré ou a propriedade ferromagnética da nanoespuma de carbono. De preferência, não abram a boca, que é para não ficarem ainda mais irritados. Essa é a mensagem dos cartazes. É pena que ninguém dê a menor bola a eles.

Não se sabe exatamente como o tumulto começou. Parece que a garota de jaqueta vermelha, com dezenas de envelopes azuis, era secretária do matemático cuja equipe comprovara, havia poucas horas, a teoria das cordas. A senhora de vestido cáqui e brincos helicoidais sentiu-se ultrajada. Ela não aceitava o resultado de muitas das equações da tal comprovação. Quando soube que a garota era secretária do matemático, começou a resmungar baixinho. Depois mais alto. Então passou a ofendê-la. Em seguida a agredi-la. A garota teve que sair do correio às pressas.

O velhote de cavanhaque, meias roxas e colete cinza deu força à senhora de vestido cáqui e brincos helicoidais:

— Esses cientistas nunca se decidem. Ora dizem que o mundo é assim, ora dizem que é assado.

— Fazem gato-sapato das nossas crenças mais queridas, sem a menor cerimônia. Sacripantas! — a senhora de vestido cáqui e brincos helicoidais esbravejava. — A matéria do Universo, por exemplo. Cristo Rei! Primeiro Tales disse que o ingrediente básico do Universo era a água. Depois Anaxímenes disse que era o ar. Então Heráclito disse que era o fogo. Aí vieram os atomistas dizendo que a matéria do Universo era formada da combinação mecânica e fortuita de átomos… Diabos, decidam-se!

— Depois Thomson descobriu o elétron e desmentiu a idéia do átomo indivisível — a magricela de tatuagem no ombro direito meteu a colher.

— Depois Rutherford concebeu o modelo planetário do átomo: pequenos pontos distribuídos no imenso espaço vazio. É, pequenos pontos girando em torno do núcleo. Como no sistema solar — o velhote disse, antes de entregar os envelopes ao atendente.

— Depois Planck, Einstein e Bohr incorporaram ao modelo de Rutherford a hipótese dos quanta. Isso pôs fim à idéia de que o átomo seria o constituinte último da matéria — o enfermeiro de colar de madrepérola disse, assoando o nariz num lenço de papel.

A senhora de vestido cáqui e brincos helicoidais estava possessa:

— Se dependesse deles, dado o imenso intervalo vazio entre os elétrons e o núcleo atômico, a gente passaria a vida acreditando que o átomo é constituído basicamente de nada… É ou não é? Tô errada? O mundo feito de nada?!

— Lembram quando o tempo ainda era tido como uma das intuições a priori dos sentidos? Lembram? — ergueu o dedo raivoso a professora de balé com manchas nas bochechas. — Para Newton e Kant o tempo sempre existiu. Mas para os físicos de hoje, ah, não, para essa corja o tempo é uma dimensão que passou a existir a partir de determinado momento da formação do Cosmo! Outro exemplo? Essa teoria das cordas. Até há poucas horas as leis que regiam o microcosmo não faziam sentido no macrocosmo e vice-versa.

E a senhora de vestido cáqui e brincos helicoidais:

— É, cada lei na sua praia. Cada qual contava a sua versão da história.

— Agora essa maldita teoria das cordas! — atalhou o enfermeiro de colar de madrepérola.

— Mamãe, que teoria é essa? — quis saber o menino fantasiado de Homem-Aranha.

— Fala baixo, Horácio. Vem cá que eu te explico. Sabe a teoria geral da relatividade?

— Sei.

— Sabe a mecânica quântica?

— Ô, mãe! É claro!

— Então. Na procura do modelo capaz de unificar as leis do macrocosmo com as do microcosmo, a última caixinha encontrada é essa aí da teoria das cordas. Segundo essa teoria a partícula fundamental do Universo não se parece com um ponto, mas sim com uma linha. Ainda segundo esse modelo, as dimensões da realidade não são apenas quatro: comprimento, largura, altura e tempo. São dez! Sendo que as outras seis são pequeníssimas, imperceptíveis aos nossos sentidos.

— Ah… Entendi.

— Teorias. Teorias. Teorias — a senhora de vestido cáqui e brincos helicoidais não conseguia se controlar.
O tumulto foi ganhando proporções assustadoras. A chamada eletrônica soava, os atendentes faziam sinal, porém ninguém mais se dirigia aos guichês. Ninguém queria mais saber de cartas, cartões-postais ou encomendas.

— Cara, tô farto desse troca-troca! — alguém no meio do amontoado gritou. — No começo a Terra era plana. Na época de Pitágoras ela se tornou esférica e foi parar no centro do Universo. Durante treze séculos o modelo cosmológico que prevaleceu foi o geocêntrico, aperfeiçoado por Ptolomeu. Mas é claro que a alegria durou pouco. É claro que Copérnico tinha que jogar água fria na rapaziada.

— Jogou água fria? Então, pra esquentar as idéias, devia ter sido atirado na fogueira, o gajo. Que nem fizeram com Giordano Bruno.

— Bem-feito pra esse Giordano. Quem mandou mexer com o que estava quieto?

— Com Copérnico a gente deixou de figurar no centro do Universo. Mas a crença de que o Sol localizava-se no centro da galáxia durou mais um tempinho.

— Ah, era tão bom quando a gente estava no centro. Não entendo essa necessidade de estar fora do centro de tudo, de descentrar-se a qualquer custo.

— É a sensação de vazio. Os jovens de hoje adoram a sensação de vazio. Principalmente os matemáticos. Eles adoram!

O ilustrador de livros infantis:

— Tudo culpa dos pré-socráticos. Foram eles, não é? Os primeiros sujeitos a explicarem a origem do Universo e do homem, e a realidade sensível, sem lançar mão de mitos e deuses? Não adianta tentarem me enganar. Foram eles os primeiros cientistas, sim! Foram eles que deram a deixa para Ptolomeu, Galileu, Newton, Einstein e toda a corja.

A costureira com problemas respiratórios:

— Para o inferno os pré-socráticos!

O entregador de pizza vesgo e meio coxo:

— Para o inferno a causalidade! Para o inferno as ciências exatas! Para o inferno o pensamento lógico!

As cenas que se seguiram jamais deveriam ter sido mostradas na tevê. A turba saiu em passeata e se misturou às pessoas preocupadas apenas com abobrinha, banana e tangerina, na feira montada em frente ao correio. O quebra-quebra começou quando, ofendido com as declarações sem pé nem cabeça da senhora de vestido cáqui e brincos helicoidais, o dono da barraca de ovos atirou doze deles na velha e nos seus partidários (para ele a teoria das cordas era de inestimável valor).

Se as pessoas respeitassem mais os cartazes afixados nos correios, a taxa de violência nas nossas cidades nunca atingiria níveis tão insuportáveis.

Nelson de Oliveira é um dos escritores mais importantes da literatura brasileira hoje. Organizador de diversas antologias, como Geração 90 e Geração zero zero, é também autor de Cicatrizes indizíveis, Naquela época tínhamos um gato e Subsolo infinito, entre vários outros romances, livros de poemas e de contos.

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