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Resenha

A voz coletiva em Antonio Candido

Antonio Candido 100 anos | Maria Augusta Fonseca e Roberto Schwarz (orgs.) | Editora 34 | 496 páginas | R$ 82,00

A passagem do centenário de nascimento de Antonio Candido, em 2018, tem pelo menos duas peculiaridades que vale assinalar. A primeira é que seu caráter festivo foi nublado pela perda recente que representou a morte do crítico, em 2017. A segunda é o momento por que passa o país.

É nesse contexto que se publica esta que é a mais abrangente coletânea de estudos sobre a obra de Antonio Candido – lembre-se que já havia volumes bastante ambiciosos organizados por ocasião de outras homenagens. Essa abrangência não decorre do volume de textos em si, mas da trajetória que sua organização propõe ao leitor e da variedade de elementos que são postos sob análise por um conjunto também variado de autores.

Tal trajetória se desenha já na nota introdutória assinada por Roberto Schwarz, que, em poucos parágrafos, esboça aquilo que o livro todo vai construir lentamente: a figura de um intelectual de carne e osso e de suas ideias. É o homem de carne e osso que se evoca logo na segunda seção, que traz a reprodução de dedicatórias ao crítico em livros de Manuel Bandeira (1886-1968), Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954) e Graciliano Ramos (1892-1953). Na terceira seção, o poeta Francisco Alvim dá um curto-circuito que energizará todo o livro ao nos conduzir a um outro poeta, Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), lido pelos olhos do crítico que leva em conta o que sofreu o homem-poeta de carne e osso.

Nas cinco seções seguintes, avançamos no percurso que sai do mais pessoal, uma série de depoimentos de alunos, para dirigir-se à militância política, ao vasto interesse pela América Latina e à cultura de forma ampla, para chegar, na oitava e mais volumosa seção, à crítica literária, campo preferencial do homenageado. Servindo de coda, é a voz do crítico que, lembrando de sua experiência pessoal como leitor desde a infância, fecha o livro.

É evidente que nada é assim tão estanque, e o crítico é evocado desde o princípio, bem como o homem de carne e osso, professor e militante, apresenta-se a todo instante. Nesse movimento, alguns elementos surgem renovados e ganham corpo dentro da vasta obra de Antonio Candido, ao lado dos trabalhos sempre lembrados. É o caso de Teresina etc., objeto específico dos textos de Michael Lowy e Vilma Arêas, mas evocado em vários outros artigos. Ou do artigo Direito à literatura, estudado por Irenísia Torres Oliveira e igualmente convocado em diversas outras reflexões. Ou do último livro do homenageado, O albatroz e o chinês, abordado por Celso Lafer e, mais uma vez, referido com frequência. Ou, ainda, os textos da juventude, muito lembrados e objeto de um estudo do maior interesse de Edu Teruki Otsuka, que localiza nos primeiros artigos de Candido o conceito de romance que se mobilizará na Formação.

Num outro plano, algumas novas interrogações se fazem à obra do crítico, o que termina por ampliá-la em direções até hoje pouco exploradas, como sua posição diante das literaturas africanas, tema de Rita Chaves, do universo feminino, por Maria Augusta Fonseca, da escravidão (ou sua ausência) na Formação, por Luiz Felipe de Alencastro, ou ainda de sua antecipação a elaborações influentes de intelectuais postados no centro, como Fredric Jameson, a partir de um lugar periférico e de um objeto igualmente periférico, a literatura brasileira, tal como descortina o artigo de Silvia L. Lopez.

Esses são uns poucos exemplos que dão ideia, em curto espaço, da contribuição que o volume traz para um balanço e uma nova compreensão da obra do autor de Na sala de aula. O que se deve ressaltar, no entanto, é o quanto o conjunto apresenta uma forma de pensar que ainda tem muito a dizer e que é possível sintetizar a partir de um dos mais fortes textos da coletânea, o de Ana Paula Pacheco. Mobilizando um grande número de escritos de Candido, ela contrasta o tempo de formação do crítico e o nosso, o radicalismo do crítico e o conformismo que domina hoje, quando “a classe média ‘cansou’”.

Abdicar do exercício de esperança da igualdade, ensina Antonio Candido, é abdicar do mais importante. E isso a voz coletiva que soa em Antonio Candido 100 anos nos lembra o tempo todo.

Luís Bueno é professor do Departamento de Literatura e Linguística da Universidade Federal do Paraná (Dellin-UFPR).

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