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Resenha

Sobre as possibilidades de aprender

O cérebro aprendiz: Neuroplasticidade e educação | Roberto Lent | Atheneu | 148 páginas | R$ 101,70

Interessante é notar como nas construções do campo de conhecimentos sobre educação e processos de aprendizagem atravessamos momentos em que aspectos da condição biológica humana, sobretudo aspectos do funcionamento cerebral, tiveram predominância nos estudos relativos ao tema, passando-se posteriormente a valorizar muito mais os aspectos psicológicos e os sociais, sendo que teorizações nessa direção vêm dominando o cenário educacional. Suas contribuições têm sido importantes e isso tem se revelado em pesquisas e teorizações de variados portes.

Roberto Lent, em O cérebro aprendiz, mostra a importância de compreensões integradas da condição humana. Somos um conjunto de seres aprendentes, em variadas ambiências, em que, plasticamente, nosso sistema neural se modifica, por meio de mecanismos complexos, gerando novas condições de compreensão e ação. Este livro trata da aplicabilidade dos mecanismos da plasticidade neural à vida social, particularmente à educação, e suas contribuições à melhor qualificação dos processos de aprendizagem que podem redundar em melhores condições de vida.

Com linguagem clara e ilustrações que contribuem à compreensão dos processos tratados, é um livro de leitura acessível que não deixa de abordar a relação neuroplasticidade-educação com profundidade e rigor em seus fundamentos científicos. Segundo Lent, seu objetivo é mostrar a importância das pesquisas de caráter translacional, inspirada em sua utilização social.

A trajetória do texto nos permite percorrer desde a discussão do conceito de “ciência para a educação”, na qual o autor situa a neurociência educacional, indo para as raízes biológicas da aprendizagem e do ensino – a neuroplasticidade –, em que memória e consciência são tratadas, avançando para a interatividade dos neurônios e os circuitos aprendizes e como estes aprendem. Isso abre portas para a discussão de redes dinâmicas, ou seja, o conhecimento de como áreas cerebrais atuam como instrumentos em um concerto, tratando então das implicações da linguagem oral, da leitura, e como processos educacionais constroem essas redes.

Cautelosamente, o autor indica alguns limites que se mostram em estudos realizados nesse campo, os quais relata, mas aponta também para novos estudos com metodologias mais complexas, longitudinais, que, juntamente com os demais estudos, vêm permitindo criar mapas sobre tipos de aprendizagens que põem em evidência a capacidade de transformação de nosso cérebro no tempo, a partir de intervenções sociais nas famílias, em ambientes educacionais estruturados ou em outras esferas, o que cria certas imponderabilidades quanto aos resultados, como afirma, seja para o bem ou não.

Isto posto, nos conduz a pensar nas crianças e seu desenvolvimento até a adolescência, chamando a atenção para os períodos sensíveis e críticos da infância – aqueles em que a possibilidade de aprendizagem, de incremento de uma função ou habilidade, apresenta-se de modo mais rápido, mais fácil, caracterizando-se por maior suscetibilidade biológica do cérebro. São momentos em que mecanismos de plasticidade cerebral estão particularmente mais sensíveis para o recebimento de estimulação do ambiente. Destaca, por exemplo, como pelo conhecimento que se tem nessa área se pode contribuir com a educação das crianças em creches, onde não só os cuidados cotidianos dos bebês são necessários, mas também um programa pedagógico que aproveite a oportunidade dos períodos críticos para intervenções educacionais que favoreçam seu desenvolvimento.

Termina enfatizando a mutabilidade do cérebro em suas relações com o meio ambiente, que também é mutável e dinâmico, tanto em seu espectro natural como no social, pontuando que a apropriação dos conhecimentos advindos dessa perspectiva pelos educadores pode ajudá-los a mudar, criar e implementar metodologias educacionais que facilitem a construção de ambiências e processos de aprendizagem mais efetivos e significativos.

Um livro que, sem dúvida, instiga muitas discussões, mas que traz contribuição à compreensão de processos neuroplásticos e sua relevância para fundamentar processos educacionais. Assinale-se sua configuração integradora entre processos biológicos, sociais e psicológicos, na perspectiva da pesquisa translacional.

Bernardete A. Gatti é pesquisadora colaboradora da Fundação Carlos Chagas.

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