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Carreiras

Transparência acadêmica

Preenchimento de currículo demanda precisão nas informações e atenção à consistência dos dados

Bernardo França

Três entre quatro brasileiros distorcem informações na hora de preencher seus currículos, revelou estudo realizado em 2018 pela consultoria DNA Outplacement, envolvendo 6 mil currículos e 500 empresas baseadas no Brasil, Chile, Peru e Colômbia. De acordo com a pesquisa, 75% dos currículos brasileiros apresentaram inconsistências relacionadas, sobretudo, à fluência em idiomas e ao último salário recebido. Nos últimos meses também ganharam destaque desmentidos de figuras públicas que exibiam em seus históricos acadêmicos informações não confirmadas sobre cursos ou temporadas de pesquisa em instituições de ensino superior, fora do Brasil.

“É uma realidade que se apresenta no mundo todo”, afirma Rosemary Shinkai, professora da Faculdade de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Com experiência na organização de congressos como o Brazilian Meeting on Research Integrity, Science and Publication Ethics (Brispe), Shinkai também foi conselheira, entre 2012 e 2015, do Committee on Publication Ethics (Cope), fórum internacional de editores de revistas científicas que discute temas relacionados à integridade na ciência. Nem sempre, contudo, as inconsistências ocorrem de forma deliberada ou resultam de má-fé, avalia a pesquisadora. “Algumas vezes elas podem estar relacionadas a dúvidas que os pesquisadores têm na hora de descrever suas experiências”, observa. “A Plataforma Lattes, por exemplo, foi gradativamente ampliada, com novos campos de informação que, aparentemente, acabaram gerando incertezas sobre a forma de preenchimento.”

Algumas dicas para não errar no CV
1. Descreva, com a máxima precisão possível, sua formação acadêmica e experiência profissional
2. Não oculte dados, tampouco superestime
3. Seja objetivo
4. Antes de publicar o documento, submeta-o à leitura atenta de outra pessoa
5. Mantenha as informações atualizadas

A experiência de Shinkai indica que muitas das imprecisões aparecem na descrição das atividades de formação complementar. “Há exemplos de pessoas que cursaram especializações, mas acabaram não entregando o trabalho final de conclusão do curso e, por consequência, não obtiveram um certificado. Então, é preciso decidir entre deixar o curso de fora ou indicar que ele está incompleto”, diz. “Existe ainda o caso dos Massive Open Online Courses (Moocs), que permitem que a pessoa faça um curso gratuitamente, mas nem sempre com emissão de certificado”, observa Shinkai. A pesquisadora reforça a necessidade de descrever adequadamente a participação como palestrante em eventos científicos. “Na área da saúde, por exemplo, a apresentação em congressos é bastante valorizada e, por isso, a redação desses dados precisa refletir com precisão o que foi exposto em determinado encontro”, explica.

Após 15 anos analisando os currículos de autores interessados em publicar na Revista Brasileira de Linguística Aplicada, a editora Vera Lúcia Menezes de Oliveira, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), faz avaliação similar, ao observar que seguem sendo comuns alguns erros elementares, como descrever um pós-doutorado como título. “O pós-doc é uma fase de estudos desenvolvida por um pesquisador com título de doutor, mas não configura grau acadêmico. O próprio Lattes não permite a inserção de pós-doc como titulação”, esclarece.

Considerada uma das principais bases de currículos do país, a Plataforma Lattes tem cadastrados mais de 6 milhões de documentos acadêmicos. Declaratórias, as informações ali contidas são de exclusiva responsabilidade dos pesquisadores que, antes de ingressarem no sistema, manifestam concordância com seu termo de adesão e uso, em observância aos artigos 297 e 299 do Código Penal Brasileiro. Segundo nota do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), “em se constatando erros, a pessoa pode ser notificada a corrigir o Lattes. No caso de beneficiamento em alguma concessão do CNPq por conta de informações falsas, pode ser solicitado o ressarcimento dos recursos investidos aos cofres públicos com a devida correção”.

A análise de inconsistências em currículos acadêmicos é um desafio a mais em processos de seleção de pesquisadores de alto nível. No Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), a análise costuma dividir-se entre os nove pesquisadores principais desse que é um dos Centros de Pesquisa, Difusão e Inovação (Cepid), mantidos pela FAPESP. De acordo com o físico Glaucius Oliva, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) e coordenador do CIBFar, um dos aspectos mais importantes diz respeito à inovação.“Esse é um tema de bastante relevância para o Cepid. Também verificamos em profundidade informações envolvendo participação em projetos de pesquisa. Precisamos saber se foram completas, parciais ou intermediárias”, informa. “Como na fase de pós-doutoramento não selecionamos pelo que o pesquisador pode aprender, mas sim pelo que ele já domina, os candidatos precisam efetivamente ter as habilidades descritas em seus currículos.” Para cada vaga de estágio de pós-doutorado anunciada, o centro recebe, em média, 20 candidaturas.

Dentre os pesquisadores estrangeiros que submetem seus currículos ao CIBFar estão principalmente iranianos, indianos e paquistaneses. “Nas chamadas de química, 30% dos currículos vêm de fora”, diz. “Nesse caso a avaliação precisa ser ainda mais rigorosa, pois entre os candidatos estrangeiros há muitos homônimos e não há possibilidade de cruzar as informações com outras plataformas, o que dificulta o processo de verificação.” Cartas de recomendação podem ser úteis para reforçar as competências dos candidatos. E é fundamental descrever corretamente o nível de proficiência em cada uma das línguas estrangeiras indicadas. “Na hora da entrevista, conseguimos verificar com bastante precisão se o candidato de fato domina o idioma exigido”, finaliza.

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