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Resenhas

A exuberância da barbárie

Natureza e cultura no Brasil (1870-1922) | Luciana Murari | Alameda Editorial, 474 páginas, R$ 50,00

Estudo recupera pensamentos sobre a natureza brasileira

As discussões mais ou menos recentes acerca da teoria da história, especialmente em sua vertente anglo-americana, têm nos acostumado a um certo estado de impasse, como se não fosse mais possível conceber produtos de pesquisas que venham a nos mobilizar no exame de supostas evidências, dos preconceitos que se estabelecem no entorno de determinados conceitos e, enfim, no encetamento das suspeitas acerca das linearidades que vêm a compor a historiografia e a literatura.

A esse respeito, o livro Natureza e cultura no Brasil (1870-1922), de Luciana Murari, traz contribuições para que percebamos os riscos da aderência irrefletida às últimas vagas de pensamento num mundo que se deseja globalizado. Tendo como suporte uma rica oferta de fontes, que variam “da prosa de ficção e não ficção, a crítica literária, a historiografia e o ensaísmo político e social”, a pesquisadora terminou por nuançar a utensilagem mental do campo intelectual brasileiro quando remetido às diferentes concepções acerca da natureza.

A opção pelo recorte cronológico, como a autora aponta, também cumpriu a função de checagem quanto ao tipo de produção escrita que se fazia num momento ofuscado pelo aparato modernista – de produção e recepção – que se estabeleceu a partir das alusões ao ano de 1922. Assim, destoando de um coro que parece somente se mobilizar pelos marcos associados às vanguardas modernas e que, quando muito, faz concessões às obras de Machado de Assis, Joaquim Nabuco ou Euclides da Cunha, por entender que nelas já se encontra uma espécie de protomodernismo, Luciana Murari nos brindou com citações de autores abandonados pela rendição inconteste às linhas do tempo histórico ou literário.

É assim que podemos tomar contato com os escritos de Mateus de Albuquerque, Rodolfo Teófilo, Alberto Rangel, Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, Fábio Luz e Júlia Lopes de Almeida, dentre outros. Percebemos então que o conceito de natureza não se ancora em nenhuma baliza mais segura. A partir dos marcos cronológicos situados pela historiadora, observa-se que a natureza brasileira, de um ponto de vista mais tributário das concepções deterministas, já foi vista como fornecedora de um perfil diferenciado, o que demarcaria um certo caráter nacional. Outro tipo de sentimento é aquele em que a exuberância natural brasileira se coloca como um obstáculo quase que intransponível. Assim, Alfredo d’Escragnole Taunay, na Retirada de Laguna, parecia apontar que o nosso principal inimigo não eram os paraguaios liderados por Solano López, mas sim toda espécie de intempéries interpostas pela fauna e flora selvagens do Brasil. Percepção diferenciada, especialmente mais sofisticada e sutil, é a que perfizeram autores enfeixados no terceiro capítulo, que possui como subtítulo o sentimento de sertão na alma brasileira. Trata-se de reminiscências, no mais das vezes regionais, que buscavam recompor as qualidades existentes no modo de vida sertanejo. Finalmente, Alberto Torres, Monteiro Lobato e Júlia Lopes de Almeida oferecem exemplos quanto às projeções para o futuro. Ou seja, assimilaram as dificuldades consideradas inerentes à natureza brasileira, mas se colocaram como proponentes quanto ao que poderia ser feito para colocá-la a favor do progresso do país.

A obra de Murari recupera um repertório necessário para que adentremos os complexos sentimentos embutidos no conceito de natureza, bem como lança luz à tensão ainda presente entre civilização e barbárie. A pesquisa fornece subsídios para que reflitamos sobre a permanência de orientações, que parecem se configurar na percepção de que temos um compromisso adiado com o futuro e que dependemos de opções corretas para que consigamos cumprir aquilo que nos parece predestinado. A quebra de continuidade para com as chaves históricas e literárias mais consagradas abre espaço para que recuperemos nossa identidade para com dilemas percebidos na virada para o século XX.

Fernando Amed é doutor em história pela FFLCH da USP, professor da FAAP e do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e autor de As cartas de Capistrano de Abreu: sociabilidade e vida literária na belle époque carioca.

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