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Carta da editora | 178

A vitória do improvável

O Brasil inteiro mantinha a atenção no segundo turno das eleições presidenciais, enquanto um acordo sur­pre­en­dente para a proteção da diversidade de espécies e dos recursos genéticos de plantas, animais e microrganismos era assinado no dia 29 de outubro, em Nagoya, Japão, pelas delegações de 193 países reunidas na 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, convocada pela ONU. Terá sido em parte por essa coincidência no calendário que pouco repercutiu na mídia nacional a improvável vitória colhida pelo mundo inteiro em Nagoya – e com uma ajuda não desprezível do Brasil, registre-se, que à frente de um grupo de 17 países mega­diversos teve papel importante no desfecho da conferência.

O consenso obtido com essa mãozinha brasileira sobre questões extremamente polêmicas para a diplomacia internacional, como a soberania de cada país em relação aos recursos genéticos de sua biodiversidade ou a necessidade do consentimento explícito de cada um deles para o acesso a essa biodiversidade, já justificava por si a escolha do tema para a capa de Pesquisa FAPESP. E a reforçou o fato de estar prevista uma conferência científica em Bragança Paulista (SP), de 11 a 15 de dezembro, agendada pelo programa Biota-FAPESP, Academia Brasileira de Ciências e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, para discutir, entre outros temas, as metas estabelecidas em Nagoya e os meios de o Brasil alcançá-las. Aliás, debatê-las com vários dos negociadores do acordo no Japão. Assim, a reportagem de capa desta edição, assinada pelo editor de política científica e tecnológica, Fabrício Marques, detalha e explica a partir da página 16 os resultados da Conferência das Partes e mostra como foi possível vencer ali impasses que se arrastavam há quase duas décadas.

Na ciência, quero destacar uma reportagem elaborada por um de nossos colaboradores, o jornalista Francisco Bicudo, sobre um assunto raramente divulgado: a incidência do lúpus eritematoso sistêmico entre adolescentes e os efeitos que essa doença produz na vida, inclusive na sexualidade, dos garotos e garotas que acomete (página 42). Esse grupo representa cerca de 20% dos pacientes com lúpus. Sugiro também leitura atenta, na tecnologia, da reportagem da editora assistente Dinorah Ereno sobre o potencial das algas marinhas na limpeza de áreas contaminadas, em protetores solares e novos fármacos (página 66). Na seção de humanidades vale um destaque para a reportagem do editor, Carlos Haag, sobre pesquisa histórica que mostra como o saber erudito de técnicos e autoridades, além de responsável pelas mudanças urbanas ocorridas em São Paulo entre 1890 e 1950, marcou profundamente a relação entre poder público e interesses do capital privado, determinante na configuração de seu espaço urbano. Gostaria, por fim, de recomendar a entrevista da artista plástica Regina Silveira, um extraordinário mergulho em seus percursos, nas muitas luzes e sombras de seu caminho e de suas pesquisas estéticas, em sua coragem de desmontar códigos tradicionais para inventar novos e entregar-se a curiosidades radicais.

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