{"id":461012,"date":"2023-04-12T19:28:50","date_gmt":"2023-04-12T22:28:50","guid":{"rendered":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/?p=461012"},"modified":"2023-04-12T19:28:50","modified_gmt":"2023-04-12T22:28:50","slug":"la-conducta-de-los-hinchas-y-su-rol-social-impulsan-investigaciones-sobre-el-futbol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/la-conducta-de-los-hinchas-y-su-rol-social-impulsan-investigaciones-sobre-el-futbol\/","title":{"rendered":"La conducta de los hinchas y su rol social impulsan investigaciones sobre el f\u00fatbol"},"content":{"rendered":"<p>No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980, quando Helo\u00edsa Reis iniciava sua carreira de jogadora de futebol nas categorias de<br \/>\nbase do Guarani Futebol Clube, em Campinas, um fato recorrente ati\u00e7ou sua curiosidade. A cada semana, um<br \/>\np\u00fablico majoritariamente masculino sa\u00eda de casa para acompanhar as partidas, mas, em vez de torcer e incentivar<br \/>\nas jogadoras que defendiam as cores de seu time, dedicava seu tempo a lan\u00e7ar improp\u00e9rios e insultos contra as atletas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de insultada, ela se sentia intrigada: o que \u00e9 esse impulso que leva pessoas \u00e0 arquibancada no domingo, n\u00e3o pela alegria do esporte, mas para agredir? Hoje professora titular de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica na Universidade Estadual<br \/>\nde Campinas (Unicamp), a ex-jogadora relata que a pergunta est\u00e1 na base de muitas pesquisas que realizou na carreira acad\u00eamica. \u201cCom as entrevistas que fiz para o doutorado, comecei a entender melhor a viol\u00eancia que<br \/>\nmarcou a minha vida, e que impediu tantas meninas de seguirem jogando.\u201d<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Reis ilustra como, na na\u00e7\u00e3o que j\u00e1 foi chamada de \u201cpa\u00eds do futebol\u201d e \u201cp\u00e1tria de chuteiras\u201d, o esporte bret\u00e3o \u00e9 um campo de pesquisa privilegiado das rela\u00e7\u00f5es sociais. Praticado por profissionais e<br \/>\namadores em todo o pa\u00eds, em est\u00e1dios para dezenas de milhares de espectadores ou campos improvisados na chamada \u201cv\u00e1rzea\u201d, capaz de mobilizar multid\u00f5es em festas coloridas ou confrontos violentos, transmitido ao vivo<br \/>\npela televis\u00e3o e a internet, o futebol est\u00e1 por toda parte.<\/p>\n<p>\u201cA quest\u00e3o de base \u00e9 se o futebol deve ser visto como espelho ou como vetor da sociedade\u201d, resume o historiador Bernardo Buarque de Hollanda, do Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea do Brasil, da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (CPDOC-FGV). \u201cA diferen\u00e7a \u00e9 que o espelho apenas reflete, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica. O futebol tamb\u00e9m \u00e9 algo que engendra a sociedade, \u00e9 produtor de rela\u00e7\u00f5es sociais, e deve ser examinado por esse prisma.\u201d<\/p>\n<p>Apesar de entranhado na cultura brasileira, o futebol s\u00f3 passou a ser estudado com regularidade nas ci\u00eancias humanas a partir do final da d\u00e9cada de 1970, conforme apontam Se\u0301rgio Settani Giglio, coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Esporte e Humanidades (GEPEH) da Unicamp, e o economista Marcelo Weishaupt Proni, da mesma universidade, na introdu\u00e7\u00e3o do livro (2020, Editora Unicamp). At\u00e9 ent\u00e3o, o esporte favorito dos brasileiros era considerado um tema menor, encontrados sobretudo em ensaios de jornalistas, como M\u00e1rio Filho (1908-1966), autor de (Pongetti, 1947), e estrangeiros, como o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Anatol Rosenfeld (1912-1973), autor dos artigos reunidos em (Perspectiva, 2006).<\/p>\n<div id=\"attachment_474065\" style=\"max-width: 1150px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-474065 size-full\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-estadio-itaquera-2022-12-1140.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"814\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-estadio-itaquera-2022-12-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-estadio-itaquera-2022-12-1140-250x179.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-estadio-itaquera-2022-12-1140-700x500.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-estadio-itaquera-2022-12-1140-120x86.jpg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><span class=\"media-credits-inline\">Paulo Fridman\u2009\/\u2009Corbis v\u00eda Getty Images<\/span>Vista del estadio situado en el distrito de Itaquera, en la ciudad de S\u00e3o Paulo, meses antes de acoger el partido inaugural de la Copa Mundial de 2014<span class=\"media-credits\">Paulo Fridman\u2009\/\u2009Corbis v\u00eda Getty Images<\/span><\/p><\/div>\n<p>O estudo pioneiro sobre futebol foi produzido no mesmo per\u00edodo em que Heloisa Reisdisputava suas primeiras partidas amadoras em Campinas. E, apesar de o futebol ser considerado ent\u00e3o um ambiente quase exclusivamente masculino, sua autoria tamb\u00e9m \u00e9 de uma mulher: a antrop\u00f3loga Simoni Lahud Guedes (1950-2019), que defendeu em 1977 a disserta\u00e7\u00e3o \u201cO futebol brasileiro \u2013 institui\u00e7\u00e3o zero\u201d, pelo Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Na esteira<br \/>\nde Guedes, emergiu a primeira gera\u00e7\u00e3o de soci\u00f3logos, antrop\u00f3logos e historiadores que olharam com aten\u00e7\u00e3o para o tema no Brasil. Destacam-se o livro (Brasiliense, 1981), de Joel Rufino dos Santos (1941-2015), a disserta\u00e7\u00e3o \u201cOs g\u00eanios da pelota: Um estudo do futebol como profiss\u00e3o\u201d defendida em 1980 por Ricardo Benzaquen de Ara\u00fajo (1952-2017) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a colet\u00e2nea (Pinakotheke, 1982), organizada pelo antrop\u00f3logo Roberto DaMatta.<\/p>\n<p>\u201cNaquele momento, os estudos passaram a enfatizar a especificidade do futebol como fen\u00f4meno social. O futebol se mostra uma fonte de identidade regional e nacional, como elemento de criatividade\u201d, afirma o fil\u00f3sofo Felipe Tavares Paes Lopes, da Universidade de Sorocaba (Uniso), que desenvolve pesquisa sobre o papel social e pol\u00edtico das torcidas uniformizadas. \u201cNa obra por ele organizada, DaMatta busca entender como o futebol permite ao brasileiro vivenciar uma experi\u00eancia de democracia e justi\u00e7a social, diferente das outras esferas da sociedade, onde valem as rela\u00e7\u00f5es clientelistas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cComparando com essas pessoas que, nos anos 1980, quase tinham de pedir desculpas por querer investigar o tema, hoje estamos em um lugar inimagin\u00e1vel. O livro que organizamos revela o amadurecimento das pesquisas no Brasil\u201d, comenta Giglio. \u201cReunimos cerca de 50 autores que constru\u00edram essa trajet\u00f3ria, constituindo grupos de pesquisa e publicando intensamente. E mesmo assim ficou muita gente de fora\u201d, diz. Giglio \u00e9 um dos criadores do website ludopedio.org.br, de divulga\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em torno do futebol.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1990, em particular, vivenciou uma significativa expans\u00e3o das pesquisas. \u201cV\u00e1rias abordagens te\u00f3ricas foram testadas, metodologias de an\u00e1lise cient\u00edfica foram aplicadas, novas interpreta\u00e7\u00f5es ganharam densidade, congressos abriram espa\u00e7o para novos pesquisadores. Mas a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica era ainda incipiente\u201d, escrevem Giglio e Proni na apresenta\u00e7\u00e3o do livro.<\/p>\n<div id=\"attachment_474073\" style=\"max-width: 1150px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-474073 size-full\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-maracana-fluminense-2022-12-1140.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"760\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-maracana-fluminense-2022-12-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-maracana-fluminense-2022-12-1140-250x167.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-maracana-fluminense-2022-12-1140-700x467.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-maracana-fluminense-2022-12-1140-120x80.jpg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><span class=\"media-credits-inline\">Tim Clayton\u2009\/\u2009Corbis v\u00eda Getty Images<\/span>El estadio Maracan\u00e3, en 2010: hinchas del Fluminense arrojan talco al recibir al equipo, haciendo referencia al polvo de arroz. El producto cosm\u00e9tico es un s\u00edmbolo del equipo carioca desde 2014, cuando el futbolista Carlos Alberto fue objeto de burlas de la afici\u00f3n contraria por utilizarlo para aclararse la piel<span class=\"media-credits\">Tim Clayton\u2009\/\u2009Corbis v\u00eda Getty Images<\/span><\/p><\/div>\n<p>Na primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo, o financiamento \u00e0s pesquisas sobre o tema ganhou for\u00e7a, sobretudo ap\u00f3s a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 e do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Ol\u00edmpicos de 2016, constituindo oque ficou conhecido como \u201cd\u00e9cada do esporte\u201d. A pr\u00f3pria Copa do Mundo, que suscitou protestos nas ruas e trouxe uma grande decep\u00e7\u00e3o para o torcedor brasileiro, inspirou novas levas de pesquisa.<\/p>\n<p>\u201cA Copa de 2014 talvez tenha provocado uma nova inflexa\u0303o nos estudos sobre o futebol brasileiro em alguns aspectos, mas em outros na\u0303o\u201d, afirmam os organizadores da obra. \u201cMais de 30 anos depois, o futebol voltava a ser debatido frequentemente nas universidades brasileiras, e nenhum integrante da academia ousaria dizer que esse na\u0303o<br \/>\nera um tema de estudo para ser levado a se\u0301rio.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 no Brasil que o futebol demorou a se consolidar como campo de estudos nas ci\u00eancias humanas. A maior refer\u00eancia estrangeira citada pelos estudiosos do tema \u00e9 a chamada Escola de Leicester, que se desenvolveu a partir da d\u00e9cada de 1970, e cujo nome mais importante \u00e9 o soci\u00f3logo brit\u00e2nico Eric Dunning (1936-2019), autor de livros sobre o comportamento dos torcedores e a viol\u00eancia nos est\u00e1dios.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da carreira, Dunning foi supervisionado pelo soci\u00f3logo alem\u00e3o Norbert Elias (1897-1990), que via nos est\u00e1dios um espa\u00e7o prop\u00edcio \u00e0 catarse coletiva, como contraponto ao modo de vida rotineiro e controlado das sociedades desenvolvidas modernas. \u201cEssa catarse explica a viol\u00eancia simb\u00f3lica entre as torcidas, que se insultam durante os jogos. Lendo Elias, reconheci a sensa\u00e7\u00e3o de expurgar as frustra\u00e7\u00f5es que havia nos homens que me ofendiam quando eu jogava\u201d, explica Reis.<\/p>\n<div id=\"attachment_474081\" style=\"max-width: 1150px\" class=\"wp-caption alignright vertical\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-474081 size-full\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-pacaembu-2022-12-1140.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"760\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-pacaembu-2022-12-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-pacaembu-2022-12-1140-250x167.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-pacaembu-2022-12-1140-700x467.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-pacaembu-2022-12-1140-120x80.jpg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><span class=\"media-credits-inline\">RobertoDuque\u2009\/\u2009Folhapress<\/span>Personal policial trata de contener la invasi\u00f3n de los aficionados al campo de juego del estadio Pacaemb\u00fa, durante el partido disputado entre Palmeiras y S\u00e3o Paulo por la Supercopa Junior, en agosto de 1995<span class=\"media-credits\">RobertoDuque\u2009\/\u2009Folhapress<\/span><\/p><\/div>\n<p>Lopes associa o interesse pelo futebol nas ci\u00eancias humanas aos conflitos sociais ocorridos na<br \/>\nEuropa a partir do final da d\u00e9cada de 1960. Epis\u00f3dios traum\u00e1ticos da d\u00e9cada de 1980 refor\u00e7aram a tend\u00eancia. Brigas de torcedores, por l\u00e1 conhecidos como hooligans, suscitaram quest\u00f5es sobre o papel do esporte na sociedade. Em 1989, a trag\u00e9dia de Hillsborough, em que o p\u00fablico de uma partida ficou preso em um est\u00e1dio superlotado, causando a morte de 97 pessoas em Sheffield, na Inglaterra, foi um divisor de \u00e1guas, evidenciando que o futebol deveria ser objeto de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas. Para tanto, o esporte precisava ser estudado cuidadosamente.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo lembra que a trag\u00e9dia de Hillsborough ocorreu no contexto do surgimento da Premier League, o campeonato ingl\u00eas que atualmente \u00e9 o mais valioso do mundo, movimentando \u00a3 7,6 bilh\u00f5es (cerca de R$ 45,2 bilh\u00f5es) por ano, segundo a consultoria Ernst &amp; Young. Uma resposta ao epis\u00f3dio foi a elabora\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio Taylor, no ano seguinte, recomendando, entre outras medidas, que as partidas tivessem apenas espectadores sentados. Na aus\u00eancia de espa\u00e7os para torcedores em p\u00e9, os est\u00e1dios encolheram e os ingressos encareceram.<\/p>\n<p>Essas reformas contribu\u00edram para mudar o perfil das torcidas presentes aos est\u00e1dios, em processo conhecido como gentrifica\u00e7\u00e3o (em que espa\u00e7os inicialmente ocupados por popula\u00e7\u00f5es de renda mais baixa passam a servir a grupos de renda mais alta) e \u201careniza\u00e7\u00e3o\u201d: s\u00e3o chamados de \u201carenas\u201d aqueles est\u00e1dios que oferecem mais conforto, com ingressos de valores elevados. Esse movimento contribuiu para a acelera\u00e7\u00e3o de outro processo iniciado nos anos 1980: a expans\u00e3o do futebol como mercado que movimenta centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Foi naquela d\u00e9cada que as redes de TV passaram a transmitir regularmente as partidas e as equipes come\u00e7aram a estampar as marcas de patrocinadores em suas camisas.<\/p>\n<p>\u201cA preocupa\u00e7\u00e3o com a viol\u00eancia e o impulso de areniza\u00e7\u00e3o est\u00e3o completamente vinculados. S\u00f3 n\u00e3o podemos ter certeza, no caso do Brasil, de qual deles veio primeiro\u201d, afirma Reis, que come\u00e7ou a trabalhar em sua tese doutoral em 1995, ano daquela que ficaria conhecida como a \u201cbatalha campal do Pacaembu\u201d, conflito entre torcedores de Palmeiras e S\u00e3o Paulo que resultou em uma morte e mais de cem feridos. Epis\u00f3dios como esse serviram de incentivo nas universidades para o estudo dos h\u00e1bitos de torcida, buscando modos de evitar que a viol\u00eancia simb\u00f3lica dos insultos gritados nas arquibancadas descambasse para as vias de fato.<\/p>\n<div id=\"attachment_474077\" style=\"max-width: 1150px\" class=\"wp-caption alignnone vertical\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-474077 size-full\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-eurocopa-2022-12-1140.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"756\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-eurocopa-2022-12-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-eurocopa-2022-12-1140-250x166.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-eurocopa-2022-12-1140-700x464.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-torcedor-eurocopa-2022-12-1140-120x80.jpg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><span class=\"media-credits-inline\">Liverpool Echo\u2009\/\u2009Mirrorpix\u2009\/\u2009Getty Images<\/span>Episodios de violencia registrados una d\u00e9cada antes durante el partido entre Juventus y Liverpool por la final de la Eurocopa en el estadio Heysel, en Bruselas, B\u00e9lgica<span class=\"media-credits\">Liverpool Echo\u2009\/\u2009Mirrorpix\u2009\/\u2009Getty Images<\/span><\/p><\/div>\n<p>A professora da Unicamp argumenta que a viol\u00eancia no futebol \u00e9 um problema com m\u00faltiplas dimens\u00f5es. Para ela, h\u00e1 no Brasil uma identifica\u00e7\u00e3o equivocada entre os chamados hooligans e as torcidas organizadas. \u201cMas esses grupos de homens que buscam briga porque sentem prazer quando se colocam em situa\u00e7\u00e3o de perigo, est\u00e3o tanto dentro quanto fora das torcidas\u201d, explica.<\/p>\n<p>Por isso, em sua avalia\u00e7\u00e3o, solu\u00e7\u00f5es como o uso de c\u00e2meras nos est\u00e1dios s\u00e3o insuficientes, porque os grupos se encontram, por exemplo, nos trajetos dos jogos. Reis considera que cabe ao Estado implantar uma pol\u00edtica que envolva o monitoramento dos grupos violentos e policiamento preventivo, n\u00e3o repressivo. \u201cA pol\u00edtica p\u00fablica deve vigi\u00e1-los e dificultar sua a\u00e7\u00e3o. E se a vigil\u00e2ncia n\u00e3o for suficiente, a pol\u00edcia deve ser capaz de intervir r\u00e1pido\u201d, resume.<\/p>\n<p>Reis foi uma das pesquisadoras \u00e0 frente da cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional de Preven\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia para a Seguran\u00e7a dos Espet\u00e1culos Esportivos, instalada pelo governo federal em 2004 e conhecida como \u201cComiss\u00e3o Paz no Esporte\u201d. Em 2006, a comiss\u00e3o, coordenada por Marco Aur\u00e9lio Klein, professor de marketing esportivo da FGV-SP, publicou o relat\u00f3rio \u201cPreservar o espet\u00e1culo, garantindo a seguran\u00e7a e o direito \u00e0 cidadania\u201d, que prop\u00f4s medidas para evitar confrontos durante partidas de futebol.<\/p>\n<p>Naquele mesmo ano, Reis promoveu reuni\u00f5es entre integrantes do Minist\u00e9rio dos Esportes e representantes de torcidas organizadas. Um resultado do processo foi a cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Torcidas Organizadas (Anatorg). \u201cDesde ent\u00e3o, a Anatorg tem desempenhado um papel fundamental na pacifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia ligada ao futebol no Brasil\u201d, afirma Reis.<\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o mais recente de pesquisadores incorporou o entendimento de que o futebol \u00e9 um vetor da vida social brasileira, diz Hollanda. Esse entendimento produziu uma onda de estudos sobre as din\u00e2micas sociais que se manifestam em jogos, sobretudo entre as torcidas. \u201cMesmo depois que passou a d\u00e9cada do esporte, o interesse por estud\u00e1-lo continuou se expandindo. Hoje, orientamos muitas pesquisas sobre g\u00eanero, ra\u00e7a, sexualidade e temas semelhantes no futebol\u201d, afirma o pesquisador da FGV.<\/p>\n<div id=\"attachment_474069\" style=\"max-width: 1150px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-474069 size-full\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-jogadora-marta-2022-12-1140.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"681\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-jogadora-marta-2022-12-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-jogadora-marta-2022-12-1140-250x149.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-jogadora-marta-2022-12-1140-700x418.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/RPF-futebol-jogadora-marta-2022-12-1140-120x72.jpg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><span class=\"media-credits-inline\">Alex Menendez\u2009\/\u2009Getty Images<\/span>La due\u00f1a de la camiseta n\u00famero 10 de la selecci\u00f3n femenina, Marta, d\u00e1ndoles instrucciones a sus compa\u00f1eras durante el partido contra Argentina, en el estadio Exploria, de Orlando, Florida (EE. UU.), en 2021<span class=\"media-credits\">Alex Menendez\u2009\/\u2009Getty Images<\/span><\/p><\/div>\n<p>Os clubes tamb\u00e9m passaram a reconhecer seu papel social e adotaram pol\u00edticas para reinterpretar sua hist\u00f3ria. Hollanda cita iniciativas como a do Esporte Clube Bahia, que associa suas tr\u00eas cores (azul, vermelho e branco) ao arco-\u00edris da diversidade sexual, a da Associa\u00e7\u00e3o Atl\u00e9tica Ponte Preta, que busca ser reconhecida como primeira agremia\u00e7\u00e3o a incluir atletas negros, e a do Fluminense Futebol Clube, que visa reverter sua imagem de clube elitista por meio de uma web s\u00e9rie a partir de um torcedor pioneiro, o capoeirista Chico Guanabara, que era negro.<\/p>\n<p>Essas iniciativas se beneficiam de investiga\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, como as do soci\u00f3logo Jos\u00e9 Jairo Vieira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor do livro (Mauad, 2018), pesquisador de fen\u00f4menos racistas que por d\u00e9cadas permaneceram invis\u00edveis ou ignorados. Em 2014, com a Copa do Mundo e em rea\u00e7\u00e3o \u00e0 recorr\u00eancia de casos de inj\u00faria racial contra jogadores como Tinga, Arouca, Aranha e M\u00e1rcio Chagas, o administrador ga\u00facho Marcelo Carvalho criou o Observat\u00f3rio da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial no Futebol, que produz relat\u00f3rios anuais sobre a realidade observada nos est\u00e1dios brasileiros. Em 2021, foram registrados 158 casos de racismo.<\/p>\n<p>Os clubes tamb\u00e9m est\u00e3o tendo que se adaptar \u00e0 mudan\u00e7a de cultura e de legisla\u00e7\u00e3o para promover a expans\u00e3o do futebol feminino, proibido no Brasil entre 1941 e 1979. A participa\u00e7\u00e3o no Programa de Moderniza\u00e7\u00e3o da Gest\u00e3o e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro exige, desde 2015, que as agremia\u00e7\u00f5es invistam em equipes femininas, o que levou ao fortalecimento de torneios regionais e nacionais. Campeonatos como a Copa Libertadores da Am\u00e9rica t\u00eam transmiss\u00e3o pela televis\u00e3o, e a sele\u00e7\u00e3o nacional j\u00e1 produziu \u00eddolos populares como Marta e Formiga.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia simb\u00f3lica que Reis enfrentou quando jogava pelo Guarani n\u00e3o desapareceu. O espa\u00e7o das mulheres no futebol continua limitado, alerta a professora da Unicamp. Nas torcidas organizadas, elas ainda s\u00e3o minoria e, embora tenha havido uma expans\u00e3o na \u00faltima d\u00e9cada, as atividades atribu\u00eddas a mulheres seguem subalternas. A legisla\u00e7\u00e3o que visa promover a profissionaliza\u00e7\u00e3o das jogadoras, como a lei n\u00b0 12.395\/2011, atualiza\u00e7\u00e3o da Lei Pel\u00e9 que obrigou os clubes a registrar atletas acima dos 20 anos, \u00e9 sistematicamente violada, lamenta.<\/p>\n<p>Ainda assim, a pesquisadora e ex-jogadora afirma que a condi\u00e7\u00e3o das mulheres melhorou substancialmente tanto dentro de campo quanto nas arquibancadas, apesar de ocasionais retrocessos e a persist\u00eancia do registro de viol\u00eancia de g\u00eanero nos est\u00e1dios. \u201cMoro perto do mar e me emociono muito vendo tantas meninas pequenas praticando futebol na areia, \u00e0s vezes com o pai e a m\u00e3e. Para mim, jogar era um desafio e uma luta. Para elas, \u00e9 um h\u00e1bito perfeitamente normal\u201d, comenta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"En medio siglo, los estudios sobre este deporte en las ciencias humanas pasaron de constituir un \u00e1rea menor a organizarse como un campo estructurado y multidisciplinario","protected":false},"author":613,"featured_media":474085,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[187],"tags":[],"coauthors":[1619],"class_list":["post-461012","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humanidades-es"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/461012","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/613"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=461012"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/461012\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":474110,"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/461012\/revisions\/474110"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/474085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=461012"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=461012"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=461012"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=461012"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}