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Gestão

Mais tempo dedicado à ciência

Simpósio discute caminhos para reduzir o peso da burocracia no cotidiano dos pesquisadores

Estabelecer práticas para que os pesquisadores possam cuidar apenas de fazer ciência, sem a necessidade de gastar tempo com a administração e a burocracia de um projeto de pesquisa. Esse foi o tema principal do II Simpósio de Gestão de Projetos Aplicada à Pesquisa Científica realizado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, nos dias 8 e 9 de agosto. Cada vez mais, a complexidade e os altos valores de cada projeto dificultam a sua execução. “No Brasil os valores e ambições têm crescido continuamente, o que é ótimo porque a ciência está mais organizada e competitiva. Entretanto, o tamanho das equipes, muitas vezes com pesquisadores de várias entidades, e a complexidade da operação toda exige um apoio institucional decidido ao cientista, como se vê nas melhores universidades estrangeiras com as quais se pretende competir”, disse o professor Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP em sua apresentação no simpósio.

Operar atualmente um projeto exige muitas atividades desde guardar recibos até, se for o caso, gerenciar a propriedade intelectual resultante da pesquisa. “O trabalho do pesquisador é fazer ciência, pesquisar, publicar papers, além de orientar estudantes. Para isso, é preciso que as instituições a que eles estejam vinculados ofereçam uma espécie de escudo contra o tempo desnecessário gasto pelo cientista na burocracia e administração do projeto”, disse Brito. “Hoje não é incomum um pesquisador ter que gerir auxílios com valor em torno de US$ 1 milhão, ou até mais”, diz Brito. “Por isso, há três anos a FAPESP vem solicitando às instituições, principalmente as universidades, esse apoio ao pesquisador, com um análogo do que são os Grants Management Offices das boas universidades estrangeiras”, disse.

Na Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, cada faculdade está criando uma unidade de escritório de apoio ao pesquisador. “Esse tipo de apoio é um desafio dos mais importantes para a competitividade da ciência feita em São Paulo e no Brasil. Na FAPESP estamos justamente fazendo as entrevistas com dirigentes de instituições de projetos CEPID [Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão] que poderão receber até R$ 4 milhões por ano da fundação. Queremos nos certificar de que na instituição haja uma estrutura que proteja o tempo do pesquisador das tarefas burocráticas. Tal apoio é condição essencial para que a FAPESP aprove a concessão do auxílio”, disse Brito.

“Não temos na universidade aprendizado de gestão de projetos de pesquisa”, disse o professor Jorge Kalil, diretor do Instituto Butantan, em sua apresentação no mesmo simpósio. A oportunidade, para o pesquisador, aparece de forma natural principalmente num trabalho de pós-doutorado, quando o pesquisador começa a interagir com as diversas necessidades de organizar o trabalho das pessoas dentro de um projeto ou mesmo de um departamento ou faculdade. “Existe um microscópio ou outro equipamento que precisa ser usado por vários grupos e aí é que entra a gestão dos equipamentos para os pesquisadores. A gestão controla aquilo que é comum entre pesquisadores, achar que o seu projeto é o melhor do mundo”, disse Kalil. Para o professor Brito, a gestão de um projeto de pesquisa deve ser feita por pessoas bem formadas capazes de entender a lógica da ciência. Um desafio que deve ocupar também as faculdades de administração na formação de pessoas para administrar projetos científicos.

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