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Ficção

O escavador do futuro

Diário de bordo de um trombonista (1977-2042)

São Paulo, 15 de março de 2041 – O Homem mal pisou em Marte. A cantora ia além dos quartos de tom e os auto-afinadores em milésimos de segundo já faziam daqueles uivos dós ou dós sustenidos: não há mais constrangimento; assim será a missa de meu enterro? Ando por aí: Jedai aposentado empunhando espectros de som, ouvindo minha consciência como um estudo de trombone. No tronco, ainda um formigueiro: vou carregando minhas células: umas vivas, outras mortas. Valerão alguma coisa? Já se dispensa o sêmen em pó, meus netos são coisas do passado: instantâneos. Miles Davis finalmente foi clonado, mas parece que já não se fazem mais ouvidos como antigamente, o menino permanece chorando diante das câmeras. O Homem mal dormiu na Lua e os cientistas da Terra anunciam que os ratos do Ibirapuera aprenderam a imitar sabiás.

São Paulo, 20 de março de 2041 – Encontrada uma gruta no morro do Cantagalo, Rio de Janeiro, na qual é possível escutar sambas inéditos do início do século 20. As vozes daquele povo que habitava as encostas desbarrancadas na eternidade ricocheteiam. Acústica: a orquestra mais fenomenal que habita o cérebro de um surdo. Tudo aquilo que Alguém deixou de me dizer. Essas coisas que ficam ressoando. Essas coisas que tiram o sono. São duas da manhã e a luz do sol já me chega assim queimando pelas fibras ópticas. A tarde caindo sobre o Japão. Jogo o jato de luz sobre a antena do vizinho ao lado: são uns olhos que brilham: uma coruja saberá amanhecer?

Itaim, 23 de março de 2041 – Compus um quinteto de sopros sobre um velho tema: um choro azul que batizei de Celacanto. Fizemos sua estréia naquele velho supermercado. Num determinado momento a polícia apareceu: está proibido o consumo do peixe abissal. Motivo: alergia nos andróides superiores.

São Paulo, 24 de março de 2041 – Mais uma peça: agora um duo de violino e trombone, Nosferatu me pareceu o nome mais apropriado. Acho que perdi o senso, peguei o jeito: viver nessa penumbra em ininterrupto alumbramento: para nunca mais fazer distinção: entre um enterro e um nascimento, entre um segundo e um milênio: entre o gás carbônico e o oxigênio.

São Paulo, 25 de março de 2041 – Este novo diafragma que me arrumaram está de vento em popa. Me sinto um elefante africano, sol acima da quarta linha suplementar da clave de sol. E todo ele feito a partir de mim, eu e minha célula-tronco: nós estamos realmente destinados à originalidade: cresceu durante três meses no aquário à base de hormônios e um ou outro mosquito que caía na superfície.

São Paulo, 28 de março de 2041 – Este rosto: cada vinco é um vínculo desfeito. Este rosto, este espelho. Este espelho, este vínculo. Este rosto, este vinco. Esses cacos. Hoje meu filho me matriculou num curso de como refazer poemas. Recomendaram-me nanocápsulas de farinha de pulmão bovino, fingi que engoli e guardei no bolso.

São Paulo, 29 de março de 2041 – Esta tarde desfizeram o último poema. Agora só falta domesticarem os espelhos.

São Paulo, 31 de março de 2041 – A mais antiga serpente: estavam à cata de seu fóssil. Um grande valor em prêmio para quem encontrasse. Um homem chegou carregando a coluna vertebral de uma mulher.

São Paulo, 32 de março de 2041 – Os “anjos” apareceram pela primeira vez naquela manhã de agosto. Deus já havia lhes dado de tudo, mas eles queriam mais; mais bondade, mais inocência, mais gratidão. Então Deus arrancou suas asas e desses buracos foram nascendo essas mãos.

São Paulo, 33 de março de 2041 – Fui renovar minha carteira de identidade e minha impressão digital já tinha mudado novamente. Uns dizem que é por causa de nossa comida, outros, que seria devido à nossa água. Penso que estamos cada vez mais parecidos com nossos pensamentos.

São Paulo, 1º de abril de 2041 – Não percebo mais certos harmônicos da minha voz, mas eles estão lá, eu sei: como tubarões num mar negro, se devorando. Fiz uma peça eletroacústica usando apenas harmônicos que não consigo mais escutar (segundo meu último exame). Uma elegia à Beethoven, uma coleção de cascas de cigarra dos verões rachados. Também não ouço mais aplausos.

Campos Elíseos, 13 de maio de 2042 – “Na dieta destes animais, a ferrugem é indispensável.” Dizia o apresentador da Discovery, enquanto nós em meio aos passantes. Concordei, mas por via das dúvidas saí de férias.

Itatiba, 18 de maio de 2042 – Estradas de terra vermelha: já mastiguei muito tijolo, já senti o gosto do meu sangue. A gente pegando na mão esta terra morna que eles estão trazendo agora do planeta vizinho: parece que foi ontem que eu andava de Vinhedo até Itatiba sem pisar num asfalto, parece que o futuro é como o passado, só que uma oitava abaixo; e bota vibrato nisso.

Vinhedo, 21 de maio de 2042 – Eucaliptos: árvores de aço – postes de osso. Ouço suas folhagens: quando essas árvores pegam a andar de madrugada, vê-se bem que elas não são daqui. Espécies invasoras: olhamos com furiosa saudade das estrelas.

São Paulo, 7 de junho de 2042 – “Depois que o último prédio for demolido, o minhocão se libertará e todos poderão comprovar sua beleza.” Tocamos ontem na posse do prefeito: no repertório, a Re-encarnação da primavera.

São Paulo, 2 julho de 2042 – Um menino, quando envelhece, escreve estas coisas. São as águas de Marte. Chegam assim: em pílulas com gosto de lágrima. Dizem que é bom para as rugas: 150 anos de vida e haja poesia. O trombone ainda vibrando em serpentes de pensamento: memória ou saudade? Consciência ou paciência? Prefiro andar através dos campos gravitacionais.

São Paulo, 4 agosto de 2042 – Minhas escavações aqui no quintal prosseguem: o cóccix de uma preguiça gigante ou o crânio da cachorra Graúna? Uma lasca de machado de sílex ou aquele dente escurecido do Juca? Sigo escavando.

São Paulo, noite de 37 de agosto de 2042 – O furacão não passou por aqui. Mesmo com toda essa parafernália, os metereologistas são uns astrólogos. Que pena, já tinha estendido aquelas roupas que você nunca veio buscar, já tinha me amarrado na antena – uma pena?

São Paulo, 38 de agosto de 2042 – Através dos sonhos, que agora são registrados e podemos revê-los na manhã seguinte nas telas tridimensionais, percebi que você me tinha. Paralisei o sonho num determinado momento em que sorriu dentro de mim e agora se evaporam minhas dúvidas. Por isso te mando aí uma cópia pra que vejas com seus próprios olhos humanos de gente feminina que a terra não agüenta mais comer, que não canso de tanto olhar.

Igreja do Sumaré, tarde de 38 de agosto de 2042 – Uma vela para Heitor, outra para Béla e mais uma para Igor. Estes amavam realmente os trombonistas.

São Paulo, 39 de agosto de 2042 – Doa-se um trombone.

Espaço sideral?
Fui.
O primeiro que ler este diário, por favor, cuide dos “anjos” trancados no armário.

Manu Maltez nasceu em 1977, é músico, compositor e desenhista. Está lançando seu primeiro CD, As neves do Kilimanjaro.

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