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resenha

Padre Cícero: sociologia de um padre, antropologia de um santo

Edusc - 362 páginas - R$ 41,00

A FÉ NÃO COSTUMA FALHAR

A santidade antropológica do Padre Cícero

A necessidade é a mãe da invenção, reza o dito popular. E tanto necessidade quanto invenção são constantes no sertão nordestino. Nesse caso, não é de estranhar que a “santidade” e o culto ao Padre Cícero (1844-1934) possam ser igualmente fruto dessa confluência de fatores. As secas do século XIX foram determinantes na história do Ceará, terra natal do “padim”, verdadeiros marcos na vida dos sertanejos. Mais do que meros fenômenos climáticos se trans-formaram em questões sociais. “Cícero emerge como líder religioso e político, já que, naquele momento, a maior parte da população mais pobre do Ceará e do Nordeste se via entregue à própria sorte, retirando-se em busca de esperança, socorro e solução para todo o sofrimento. Falava-se, então, numa cidade santa, Juazeiro, onde vivia um padre santo, disposto a acudir e proteger os mais pobres, como um verdadeiro padrinho cuida de seus afilhados”, explica Antônio Mendes da Costa Braga em Padre Cícero: sociologia de um padre, antropologia de um santo, tese de doutorado defendida na UFRGS que acaba de sair em livro pela Edusc. Nela é possível verificar-se que, se não existisse, seria preciso inventar um “padim Cícero”.

O estudo de Braga trabalha com conceitos sociológicos e antropológicos a trajetória de Cícero Romão Batista, evitando se posicionar sobre a real dimensão do personagem, concentrando-se, com justeza, na sua simbologia. Em especial, é fascinante como desvela as complexas relações entre Cícero e um novo projeto de Igreja para o Nordeste, baseado na romanização do clero, e sua transformação de líder religioso em político, indo ao encontro das lideranças eclesiásticas a quem inicia sua carreira, submisso. “Nunca quis ser político”, escreveu em seu testamento. Difícil acreditar nas palavras de um líder do porte do “padim”, que foi prefeito de Juazeiro, deputado federal e vice-governador (responsável, aliás, pela deposição futura do governador). A grande questão é saber se o padre mudou seu curso por desejo de poder ou por realmente querer  mudar a vida miserável de seu rebanho. Nisso o milagre de Juazeiro tem um papel determinante: durante uma novena para acabar com as secas, a hóstia dada por Cícero a uma lavadeira teria se transformado, na boca da moça, em sangue. A partir de então o “padim” inicia uma lida contra a Igreja, que não aceitava o suposto evento santo.
“A ocorrência do milagre se deu dentro de um ambiente, de um contexto e de um conjunto de crenças e práticas religiosas que favoreciam o acontecido de forma propícia, mais do que o seu descrédito, tanto para o padre como para os habitantes de Juazeiro”, escreve Braga. “Ele acreditava ser aquele um tempo de arrependimento; era preciso pedir perdão a Deus por tantas ofensas. Ele via no flagelo que assolava o Cariri sinal de castigo divino para um mundo entregue ao pecado. Ao mesmo tempo, efetivamente se compadecia daquela gente sofredora.” Assim surge o mito milenarista do “padim”, que deixa de atuar como o valioso intermediário entre a Igreja “culta” e a religião popular, uma necessidade premente num Ceará que via com desconfiança a Igreja oficial. A grande novidade é a escolha feita pelo padre: usar, para o bem ou para o mal, a política para garantir seu espaço. A necessidade paria a invenção do mito do santo. A política atual aprendeu muito com o milagre do “padim”.

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