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Literatura

Por livros nunca dantes editados

Editora carioca recupera com criatividade obras esquecidas no passado

Enquanto os editores se acotovelam para tentar descobrir um novo título, a carioca Anna Paula Martins prefere olhar para o acervo de sua livraria, um sebo no Leblon, no Rio de Janeiro, especializado em obras raras, para descobrir o que vai editar em seguida. Esse pensar o futuro com olhos no passado dá o mote para o nome tanto da loja de livros como da sua editora, a Dantes, nascida em 1997 e já com 17 títulos em catálogo, muitos deles textos esquecidos no tempo, que ela vem revelando para uma legião crescente de leitores fiéis. “Aqui as idéias surgem no balcão, no contato com o público e na pesquisa do nosso acervo, com mais de 10 mil livros e revistas”, diz Anna.

A editora começou bem com a publicação, pela primeira vez em forma de livro, de um manuscrito esquecido de Lima Barreto, O subterrâneo do morro do castelo, que a editora rastreou na Biblioteca Nacional, inspirada por uma entrevista de Francisco de Assis Barbosa que citava o texto, escrito em 1905 e levado aos leitores do jornal Correio da Manhã em uma série de artigos. Para manter o espírito folhetinesco do original, Anna optou por uma capa com características depulp fiction, um achado ao mesmo tempo criativo e também dessacralizador da obra literária. “Livros não foram escritos para ficar parados num pedestal”, acredita.

Barreto marcou a estréia da coleção Babel, apelido borgiano que resgata livros e autores de estilo erótico, sensacionalista ou underground. Como, por exemplo, Fogo nas entranhas, do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, escrito em 1981, com uma tiragem irrisória de mil exemplares. O romance, que reúne personagens como Diana, a indômita, Lupe, paz e amor, Mara, a cínica, entre outras, hoje é um hit da editora, com mais de 18 mil exemplares vendidos. “A angústia de ter um livro antigo sem vê-lo editado novamente é grande, mas, antes de escolher o que editar, sempre penso se aquele livro tem ainda algo a falar para o tempo presente. Se esse diálogo não existe, o texto não interessa”, observa Anna Paula.

O trabalho de edição na Dantes é, assim, uma questão de paixão a ser consumada. Não existe um grupo de pessoas em tempo integral na editora e, para cada livro, Anna Paula chama um grupo de profissionais para cuidar dos vários aspectos da criação de um novo livro, com um cuidado todo especial na diagramação gráfica de cada novo lançamento. “Nem sempre as pessoas entendem o que a gente faz, mas a Dantes tem uma história e não queremos entrar no jogo do mercado e perder esse poder de experimentar”, afirma. “Acho o mercado pouco criativo e muitos editores acreditam que a solução para vencer o mercado estreito é achar a qualquer custo um best-seller, comprando-o numa feira internacional de livros”, avalia. “Isso faz da edição algo parecido com um jogo de pôquer. Se fossem mais ousados, conseguiriam resultados mais ricos e interessantes para eles e para os leitores: todos sairiam ganhando.”

Novela escandalosa
E interesse é o que não falta na escolha de títulos da Dantes. Como, por exemplo, A mulher carioca aos 22 anos, de João de Minas (pseudônimo de Ariosto Palombo), uma novela escandalosa escrita em 1934 cujos paralelos com os textos de Nelson Rodrigues encantam leitores e críticos. Afinal, já no primeiro capítulo, a heroína, de 18 anos, é deflorada com um aparato mecânico e o resto do romance não é menos picante. Ao lado da pobre Angélica circulam tipos como o dr. Eusébio Cortes, “diretor do jornal A Honra Nacional, um barril de vômito social”, ou Sebastião, dono de um “órgão genésico cavalarmente desenvolvido”.

Igualmente polêmico é Memórias de um ex-morfinómano, do Repórter X, em verdade, o jornalista português Reinaldo Ferreira, um relato em primeira pessoa sobre o seu mergulho no vício, ou, em suas palavras, na sua intoxicação por alcalóides. Nem tudo, porém, são escândalos. Em seis problemas para don Isidro Parodi, temos um romance policial escrito a duas mãos e um pseudônimo (H. Bustos Domecq) por ninguém menos que Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, escrito em 1942 e nunca antes traduzido no Brasil.
Igualmente charmoso é Praia de Ipanema, de Théo Filho, com prefácio de Ruy Castro, uma história romanceada, editada em 1927, sobre o projeto de se transformar a praia carioca numa Miami, plena de cassinos e hotéis. Um detalhe: Anna precisou colocar um anúncio nos jornais para tentar encontrar descendentes de Théo Filho, pois o livro havia efetivamente se perdido no tempo e no sebo.Como não se vive só de passado, a Dantes também possui uma coleção, chamada Sebastião, que passa o Rio atual em revista, da Zona Sul a Oeste, com textos de Nei Lopes, DJ Malborough, Regina Casé, entre outros, em 15 livros que pretendem dar conta das várias diferenças regionais da cidade maravilhosa.

Enquanto isso, a Babel não pára: vem aí Um noivo a duas noivas, de Joaquim Manuel de Macedo, e Mistérios, reunião de contos policiais escritos alternadamente para um jornal por Coelho Neto e Viriato Correia, entre outros. A cada dia um escritor acrescentava sua palavra, remexia à vontade na história criada pelo colega na edição anterior. O passado que nos diverte hoje: o olhar para dantes nos traz o prazer do presente.

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