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Claudio Rodrigues

Sucesso leva à ampliação da incubadora de empresas

O professor Claudio Rodrigues, superintendente do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), é um dos mais experientes cientistas brasileiros no campo da física nuclear. Desde 1965, quando foi contratado como pesquisador auxiliar do Instituto de Energia Atômica, antigo nome do Ipen, ele trabalha nessa área. Formado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), Rodrigues obteve o doutorado em 1970, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com uma tese sobre os movimentos dos átomos do metanol estudados através do espalhamento de nêutrons. De 1971 a 1973, com uma bolsa de pós-doutorado da FAPESP, esteve no Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos, participando de pesquisas sobre a presença do dióxido de carbono de origem industrial na atmosfera.

O atual mandato é o segundo de Rodrigues como superintendente do Ipen. Ele ocupou o mesmo cargo de 1985 a 1990, período no qual entrou em funcionamento o primeiro reator nuclear construído no Brasil, o IPEN/MB-01. Os produtos preparados no Ipen são usados hoje na medicina, na indústria e na agricultura de todo o Brasil e de vários países da América Latina. As atividades de pesquisa desenvolvidas no instituto, no entanto, não se limitam ao campo estritamente nuclear. Ali se investigam, também, áreas como a obtenção de hormônios humanos por engenharia genética e o crescimento de monocristais para uso em lasers.

O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) foi fundado em 1956. Pouco mais de um ano depois de sua fundação, começou a operar, no câmpus da Universidade de São Paulo (USP), o primeiro reator nuclear de pesquisa do Hemisfério Sul. É uma instituição científica e tecnológica cujo compromisso é melhorar a qualidade de vida do povo brasileiro. Para isso, produz conhecimento científico, desenvolve tecnologias, gera produtos e serviços e forma recursos humanos. Tem cursos de pós-graduação que outorgaram, no ano passado, 29 títulos de doutor e 43 de mestre. Sua área, de 500 mil metros quadrados, ocupa cerca de um quarto do câmpus da Cidade Universitária de São Paulo.

A principal atividade atual do Ipen está na área da saúde. Produz medicamentos e outros materiais radioativos para diagnóstico e terapia de diversas doenças. A distribuição desses medicamentos atinge todo o território brasileiro. Mais de 500 hospitais e clínicas recebem, em média quatro vezes por semana, materiais radioativos produzidos pelo Ipen. Os produtos do Instituto foram responsáveis, em 1999, pelo atendimento de mais de um milhão e meio de pacientes.

A distribuição do material radioativo é just in time. O material radioativo produzido é transportado aos hospitais imediatamente; se não chegar rapidamente ao cliente, perde a atividade. Há materiais radioativos com meia-vida de duas horas, ou seja, depois de duas horas, o medicamento já perdeu metade da atividade. É por isso que o Ipen funciona sem interrupções, em três turnos.

Há alguns anos, o Ipen desenvolveu um novo mecanismo de gestão. Adotou uma política e um planejamento de gestão que focam principalmente as atividades do Instituto dirigidas para a demanda da sociedade e para o cliente. Em função disso, entrou fortemente num projeto de excelência tecnológica patrocinado pelo Conselho Nacional de Pesquisas e pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Todos os produtos médicos que saem do Ipen têm o certificado ISO 9002.

O Instituto, porém, não está ausente do novo paradigma da participação das instituições de pesquisa de São Paulo. Faz parte de uma importante parceria constituída pelo Ipen, o IPT e a USP, com a forte participação do Sebrae, que instalou no câmpus da USP em São Paulo uma incubadora de negócios de base tecnológica. Trata-se do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec).

A missão do Centro é ajudar o nascimento de novos negócios, idéias e empreendimentos de base tecnológica. Fornece uma infra-estrutura básica com condições de aumentar o índice de sobrevivência e competitividade das novas empresas. Seu objetivo é auxiliar o crescimento da economia brasileira, aumentar a geração de empregos e melhorar a capacidade de exportação. A incubadora foi inaugurada no segundo semestre de 1998.Há vários exemplos de empresas já incubadas no Cietec. Na área da biomedicina, há empresas que desenvolvem tecnologias para a produção de válvulas para catéteres, grampeadores cirúrgicos e endoscópios. Na biotecnologia, a fabricação de hormônio de crescimento humano, sintetizado por bactérias geneticamente modificadas, é exemplo de uma pesquisa que começou no Ipen e que está sendo transformada num negócio de importância significativa para a sociedade, principalmente se considerarmos o alto índice de nanismo encontrado na população brasileira.

No início, havia o prognóstico de que seriam necessários entre três e quatro anos para que empresas de base tecnológica ocupassem o espaço alocado, capaz de abrigar 15 empresas. O prognóstico estava errado. Em pouco mais de um ano, os 15 módulos já estavam ocupados. Hoje, mais de 80 empresas e negócios esperam a oportunidade de serem incubadas no parque.

Já existe uma proposta da parceria Ipen-IPT-USP, encaminhada à Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, para a adequação de um número maior de galpões. Assim, o Centro receberia um número bem maior de empresas. Num primeiro momento, seriam criados mais 15 módulos. Mas é possível que o total de 70 empresas incubadas possa ser atingido antes do fim do ano. É provável que seja aberto no câmpus do IPT um espaço para empresas que tenham sinergia com esse Instituto. É um novo modelo. Pela primeira vez, uma incubadora instalada na área da USP teve sucesso e o sucesso foi forte.O objetivo desse trabalho é criar condições para que a iniciativa privada participe um pouco mais da ciência no Brasil. O conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico obtidos nas universidades devem chegar realmente à sociedade, ao mercado. A proposta é fazer isso em parcerias com empresas privadas, pequenas, médias e mesmo grandes.

Esse seria o objetivo de um parque tecnológico que poderia ser instalado inicialmente dentro da área da USP, aproveitando espaços ainda disponíveis. Ele contribuiria para a política de atração de investimentos de qualidade da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, contribuiria para a alteração da vocação econômica da Região Metropolitana de São Paulo e intensificaria a interação do Ipen, IPT e USP com as empresas.

O parque serviria, ainda, como motivação para a participação dos cerca de 4 mil pesquisadores que trabalham hoje na área e seria um estímulo para a ampliação dos empreendimentos bem-sucedidos a partir da incubadora do câmpus. Esse parque tecnológico já está em gestação. Um grupo executivo formado pelos parceiros e constituído pela Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico está dando os primeiros passos para transformá-lo em realidade.

Há várias sugestões, proposições e ações para que a produção científica e tecnológica seja efetivamente utilizada no desenvolvimento social e econômico de São Paulo. É importante, de qualquer maneira, captar o interesse do setor, por sua participação na definição de políticas e dos programas de incentivo à cooperação entre instituições de pesquisa e empresas. É preciso tentar flexibilizar os mecanismos legais que impedem ou dificultam essa cooperação.

São necessários novos programas governamentais de apoio à inovação tecnológica que estejam voltados para a realidade, que sejam capazes de apoiar a inovação nas empresas de acordo com sua capacidade. As instituições de pesquisa precisam contar com o apoio de programas e organismos governamentais capazes de auxiliá-las no desenvolvimento dessas atividades, principalmente na sua interação com as empresas e na preparação de novos negócios dentro ou perto dos câmpus universitários.

Não é possível, ainda, esquecer o problema do capital de risco. As empresas residentes ou incubadas num Centro de Criação de Empresas Tecnológicas ou num parque tecnológico precisam de capital de risco. Mas a solução desse problema ainda está distante dos modelos propostos para a interação da ciência e da tecnologia.As novas empresas não estão acostumadas a buscar capital de risco e não sabem onde procurá-lo. As grandes empresas, por sua vez, ou não estão interessadas numa associação ou, muitas vezes, não sabem falar a linguagem existente no mundo científico. Nosso mundo científico não está acostumado ou não está interessado em ouvir o discurso das empresas. É preciso fazer com que esses paradigmas sejam destruídos. Só assim, realmente, o saber alcançará o fazer.

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