
Chegar a esse estágio da pesquisa, no entanto, não foi nada fácil. O primeiro desafio foi exatamente conseguir produzir compostos similares aos existentes na própolis. Para isso, os pesquisadores usaram como matéria-prima insumos químicos empregados pelas indústrias de alimentos e de fármacos. Após muita experimentação, cinco famílias de compostos – batizadas pelas letras HB, L, Q, V e HMF – deram sinais de serem promissoras. Mas cabe uma pergunta: se essas substâncias são encontradas na natureza, por que sintetizá-las em laboratório? A resposta é simples. Como esses compostos estão presentes em concentrações muito baixas na própolis, da ordem de microgramas ou miligramas, eles seriam insuficientes para a realização de estudos farmacológicos e, dependendo dos resultados, para a produção de medicamentos. Além disso, ao serem produzidas em laboratório, essas substâncias podem ter suas propriedades melhoradas por meio de técnicas de modelagem computacional. “Em alguns casos, alteramos a estrutura original delas para chegar a uma molécula mais eficiente, seja no aumento de sua atividade biológica ou na redução de sua toxicidade”, explica a farmacêutica Daniela Gonçales Rando, pesquisadora do grupo na Uniban.
O passo seguinte depois da síntese em laboratório foi iniciar os testes com os diferentes compostos a fim de aferir suas atividades terapêuticas. Para isso, o grupo estabeleceu parceria com diversas instituições de pesquisa no Brasil e no exterior. Os primeiros ensaios com a família de compostos HB tiveram início em 2001 no Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Foram realizados, com sucesso, testes in vitro antitumorais e antimicrobianos e testes toxicológicos in vivo, em animais. No ano seguinte, pesquisadores do Laboratório de Imunologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) começaram a fazer ensaios antitumorais com compostos da família V”, relata Quincoces, que é coordenador do Laboratório de Síntese Orgânica da Uniban.
Naquele mesmo ano, o imunologista Durvanei Augusto Maria, do Instituto Butantan, em São Paulo, uniu-se ao grupo e começou a realizar uma bateria de testes antitumorais e de toxicidade de compostos da família HB. Esses testes mostraram que a substância foi capaz de impedir a progressão de tumores de um tipo de melanoma, um tipo de câncer de pele, em camundongos.
A boa notícia é que os resultados foram positivos mesmo quando a dose injetada foi em quantidade bem inferior à utilizada por drogas antitumorais disponíveis no mercado. Outro aspecto foi que a substância inibiu a ocorrência de metástase. “Temos evidências, ainda não comprovadas, de que o composto induz a morte celular por apoptose, o chamado ‘suicídio celular'”, diz Quincoces. “Além disso, percebemos que as células cancerígenas foram eliminadas sem dano às células sadias, ao contrário do que ocorre com a maioria dos medicamentos para tratamento de câncer.” Esses fatos foram comprovados por meio de estudos histopatológicos (análise de lesões) de órgãos e tecidos realizados pelo professor Paulo Pardi, da Uniban.
Outra linha da pesquisa é conduzida pela biomédica Clizete Sbravate Martins, pesquisadora independente e ex-coordenadora do curso de biomedicina na Uniban. Ela se encarregou dos testes antiparasitários com os compostos fenólicos da família HB, que começaram a ser executados nos laboratórios de pesquisa da Uniban e posteriormente no Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. “O parasita testado foi o causador da leishmaniose, uma doença grave com importante ocorrência em países pobres. Realizamos ensaios in vitro e in vivo e constatamos um efeito bastante acentuado do composto. Enquanto nos camundongos infectados não tratados existiu um aumento de 80% do tamanho da lesão cutânea – uma das manifestações da doença -, nos animais tratados não foi registrada progressão da lesão”, diz a pesquisadora. Esses resultados são importantes porque os únicos medicamentos aprovados para o tratamento da leishmaniose são tóxicos.
Testes antitumorais
O trabalho também conta com a cooperação de pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), responsáveis pelos ensaios in vivo relativos às propriedades analgésicas e antiinflamatórias dos compostos. Nessa vertente da pesquisa excelentes resultados estão sendo observados. No Instituto Ludwig Boltzmann de Oncologia Clínica da Universidade de Viena, na Áustria, o professor Gerhard Hamilton desenvolve testes antitumorais com os compostos das famílias L, Q e HMF. “Eles já obtiveram ótimos resultados em estudos in vitro para vários tipos de tumor, com cânceres de cabeça e de pâncreas, que são fatais”, afirma Quincoces.
Apesar dos bons resultados obtidos até agora, um longo caminho ainda precisa ser percorrido para que a substância se transforme num medicamento. A equipe precisa concluir os estudos farmacocinéticos, relativos à absorção do composto pelo organismo e à forma de administração, que são estudos de formulação dirigida, desvendar o mecanismo exato de ação do composto pelo organismo e realizar testes em outras espécies animais. O grupo estima que dentro de dois ou três anos essas etapas serão concluídas e poderão ser iniciados os testes em humanos, outro estágio fundamental da pesquisa. “Estamos em conversações com um fabricante nacional de medicamentos e com um instituto de pesquisa, cujos nomes não podemos revelar, que se interessaram pela realização de testes clínicos e pela produção do medicamento”, diz Quincoces.
Os projetos
1. Síntese de heterociclos prenilados a partir de produtos naturais (nº 04/11351-0); Modalidade Linha Regular de Auxílio à Pesquisa; Coordenador José Agustín Quincoces Suárez – Uniban; Investimento
R$ 95.804,46 e US$ 22.380,94 (FAPESP)
2. Propriedades antiparasitárias da 1,5-bis (4-hidroxi-3-metoxi-fenil)-penta-1,4-dien-3-ona e seus derivados (nº 04/11352-6); Modalidade Programa de Apoio à Propriedade Intelectual (Papi); Coordenador José Agustín Quincoces Suárez – Uniban; Investimento R$ 9.500,00 (FAPESP)
3. Propriedades antitumorais da 1,5-bis (4-hidroxi-3-metoxi-fenil)-penta-1,4-dien-3-ona e seus derivados (nº 01/10383-7); Modalidade Programa de Apoio à Propriedade Intelectual (Papi); Coordenador José Agustín Quincoces Suárez – Uniban; Investimento R$ 58.261,39 (FAPESP)