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Procuram-se mulheres

Prêmio concedido a pesquisadora da Unicamp chama a atenção para a queda do interesse feminino na computação

FABRÍCIO MARQUES | ED. 132 | FEVEREIRO 2007

 

Claudia Bauzer Medeiros

Claudia Bauzer Medeiros, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), esteve em outubro em San Diego, na Califórnia, para receber um prêmio que reconhece a importância de seu trabalho acadêmico e, principalmente, de seu esforço voltado para ampliar a participação feminina em carreiras ligadas à informática. A engenheira Ijeoma Terese Ihenachor, da Agência de Tráfego Aéreo da Nigéria, e a professora Suriya Mayandi Thevar, presidente da Associação das Mulheres em Tecnologia da Informação da Índia, também foram agraciadas com o prêmio Agentes de Mudança, concedido pelo Instituto para Mulheres e Tecnologia Anita Borg e pela Sociedade Norte-Americana de Computação numa conferência que discutiu problemas relacionados à pesquisa e ao trabalho das mulheres neste campo do conhecimento. O prêmio é patrocinado por Fran Allen, pioneira da pesquisa em informática e primeira mulher a receber o título de fellow da IBM, o mais alto grau de reconhecimento científico da companhia.

O interesse feminino pela computação vem decaindo no mundo inteiro. Conter esse fenômeno é estratégico. De um lado, grandes empresas como a Intel, a Microsoft e a HP consideram essencial garantir a diversidade de gêneros na pesquisa em alta tecnologia. “As companhias dependem do talento e da experiência das mulheres para competir globalmente”, disse Justin Rattner, diretor de tecnologia da gigante dos microprocessadores Intel, explicando por que a empresa é um dos apoiadores do Instituto para Mulheres e Tecnologia Anita Borg. De outro, considera-se que as mulheres são um fator-chave para ampliar o interesse das novas gerações pela computação. “Se os jovens se desinteressam, os países perdem espaço na economia global. A atração das mulheres significa, no longo prazo, que filhos e familiares também se envolvam nesse tipo de carreira”, explica Claudia.

Duas décadas atrás, observa a pesquisadora, as mulheres chegaram a ocupar quase metade das vagas nos cursos de graduação em computação no Brasil. Desde meados dos anos 1990, o número de candidatas cai paulatinamente. Na graduação, dados do Ministério da Educação mostram que a participação feminina baixou de 30%, há 15 anos, para 5% a 10%. Como conseqüência, a presença feminina na pós-graduação começou a diminuir. “A situação é menos dramática porque a pós-graduação consegue atrair também pesquisadoras formadas em outras áreas”, disse. Segundo levantamento preliminar realizado pela SBC, na pós-graduação em ciência da computação atualmente 25% dos estudantes são mulheres.

O número de professoras varia entre 25% e 30% do total. A SBC desenvolve várias atividades para mudar esse panorama, como as Olimpíadas de Computação, que envolvem alunos de todo o país, desde o ensino básico até o fim do ensino médio. Os medalhistas de todo o Brasil são levados à Unicamp para fazer um curso de uma semana, em quatro níveis de escolaridade. “Sempre vou falar para esses jovens e tenho observado o seguinte. Até mais ou menos os 12 ou 13 anos de idade, 50% dos medalhistas são meninas. Entre os 12 e 14, a porcentagem de mulheres já cai para 20%. Acima dos 16, raramente aparece alguma menina. Elas simplesmente se desinteressam. Este mesmo fenômeno da faixa etária está sendo constatado nos países de Primeiro Mundo, o que vem inclusive motivando políticas nacionais de mudança de imagem da área”, afirma a pesquisadora.

O esforço de Claudia Bauzer Medeiros para mudar este cenário contempla dois tipos de iniciativa. Uma delas são as campanhas de conscientização da SBC para a necessidade de atrair mais jovens. “Não se trata apenas de atrair mulheres, mas de atrair novas gerações. E uma das formas de garantir uma maior inserção de jovens é pela inserção da mulher. Todos os estudos apontam a importância da educação da mãe como agente na educação da família e no conseqüente progresso nacional.” Outro tipo de iniciativa é a divulgação ampla do problema em fóruns e congressos. “Como presidente da SBC, tenho oportunidade de participar de diferentes tipos de eventos no Brasil e no exterior, nos quais discuto essa questão e propostas de solução. Sem a conscientização para o problema, ninguém vai se preocupar em atacá-lo”, diz Claudia.

Competição
De acordo com a pesquisadora, há duas hipóteses para o desinteresse feminino – uma econômica, outra social. “O aspecto econômico resulta de um aumento da competição na área. Antes, as mulheres buscavam profissões associadas porque não havia tanto interesse. À medida que o setor evoluiu e começou a oferecer salários melhores, os homens pressionaram o mercado de trabalho e a competição foi acirrada”, explicou. A hipótese social considera o fato de a computação ser vista como uma profissão que privilegia o trabalho em isolamento, na qual se passa o dia todo diante de uma tela. A mulher teria preferência por atividades que incluam contatos humanos. “Sabemos que isso é uma mistificação, pois a computação exige cada vez mais interação social e tem importância em todas as áreas”, afirma.

Formada em engenharia eletrônica em 1976, pela PUC do Rio, Claudia Bauzer Medeiros sempre trabalhou com computação: seu primeiro emprego depois de formada foi na estatal Furnas, como analista de sistemas. Ainda nos anos 1970, fez mestrado em informática, também na PUC. Mais tarde, faria doutorado em ciência da computação na Universidade de Waterloo, no Canadá, pós-doutoramento no Institut National de Recherche en Informatique et en Automatique (Inria), na França, e a livre-docência e concurso para titular, defendidos na Unicamp, onde é professora desde 1985. Tem produção acadêmica em mais de 30 projetos de pesquisa na área de bancos de dados científicos. Filha de um médico e de uma psicóloga, Claudia é solteira e tem um casal de irmãos – um é professor de engenharia mecânica da Universidade Federal de Minas Gerais e a outra, professora de matemática na Universidade Federal Fluminense. “Tenho pais maravilhosos que ensinaram aos filhos a importância do estudo e do trabalho. Na minha geração ainda é raro, no Brasil, uma família em que todos os filhos fizeram doutorado – e cada um em uma área diferente”, diz.


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