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Boas práticas

Manual para detectar má conduta

013_Boas-Praticas_190daniel buenoUm relatório preliminar sobre as fraudes praticadas por Diederik Stapel, professor de psicologia social demitido em setembro da Universidade de Tilburg, na Holanda, funciona como uma espécie de manual para detectar sinais de má conduta científica. Segundo a edição on-line do The Chronicle of Higher Education, a manipulação e a fabricação de dados afetaram pelo menos 30 publicações e Stapel conseguiu passar oito anos sem ser descoberto graças a um repertório de dissimulações. Uma de suas táticas era perguntar a colegas sobre o que estavam pesquisando e depois dizer que dispunha de dados talhados para o artigo deles. Os dados eram fraudulentos, mas os colegas não sabiam disso. Assim, Stapel colecionava papers como coautor, sem chamar muita atenção. Também se preocupava em inventar desculpas plausíveis para dar lastro a pesquisas fictícias. Quando colegas solicitavam o contato das escolas em que havia feito pesquisas, dizia não, alegando que queria poupar os estudantes do assédio, pois dependia deles para novos trabalhos de campo. Quando precisava explicitar o alvo da pesquisa, citava escolas de verdade, mas inventava até o nome de assistentes. Sabia cativar a mídia e usá-la como aliada – seu estudo mostrando como as pessoas que gostam de comer carne seriam mais egoístas que os vegetarianos fez sucesso na imprensa. E usava o prestígio para intimidar quem desconfiasse dele, como fez com pesquisadores que pediram acesso ao material bruto de suas pesquisas. Por fim, para manter os dados manipulados sob controle, dispensava a ajuda de assistentes no que seria a coleta das informações. O relatório mostra que a fraude foi descoberta graças ao empenho de três jovens pesquisadores que o denunciaram à universidade em agosto. Outros três jovens já haviam dado o alarme anteriormente. Dois professores tinham suspeitas semelhantes, mas se calaram. “O comitê concluiu que os seis jovens denunciantes mostraram mais coragem, vigilância e curiosidade que os professores”, disse o relatório. Stapel declarou-se culpado por escrito. “Envergonho-me por isso e me arrependo muito”, disse.