ARTE

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Intervenções na rua

Eduardo Srur transforma o espaço público em plataforma de experimentação plástica

MARIA HIRSZMAN | Edição 202 - Dezembro de 2012

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Intervenção feita com a ajuda de estudantes universitários diante do Congresso Nacional: a arte como forma de resgate

“A arte salva.” O lema, escrito em cada uma das 360 boias lançadas ano passado por Eduardo Srur nos espelhos d’água do Congresso Nacional, com a ajuda de estudantes da Universidade de Brasília, sintetiza o anseio de transformar a ação artística em uma espécie de alerta contra as mazelas da nossa sociedade, ambição que marca a trajetória do artista. Srur – que iniciou sua carreira há menos de uma década com a imponente e poética instalação Acampamento dos anjos, na qual uma série de barracas de acampamento coloridas e iluminadas internamente foram dispostas sobre a fachada do atual Instituto do Câncer Octávio Frias de Oliveira, então inacabado, na conhecida avenida Dr. Arnaldo, na zona oeste de São Paulo – se insere numa longa e profícua linhagem da arte de vanguarda: aquela que busca explorar as ferramentas da criação plástica de forma conectada com a vida cotidiana das pessoas, transformando o espaço público em plataforma de experimentação, e provoca a reação do público por meio de estratégias mistas de sedução visual, choque semântico e subversão de escalas e sentidos.

Ao longo do século XX, essa via foi seguida por inúmeros grupos e artistas, a começar pelos dadaístas, cujo manifesto de 1918 dizia que “o novo artista protesta: já não pinta”, e assumiu os mais diferentes contornos ao longo do tempo. No Brasil, o pioneiro em ações deste tipo foi Flávio de Carvalho, que nos idos de 1931 chocou a ainda provinciana população de São Paulo ao andar em sentido contrário de uma procissão sem retirar o chapéu da cabeça e quase foi linchado.

Em defesa do meio ambiente: caiaques pilotados por manequins encalham no lixo do rio Tietê

Por princípio, a intervenção urbana genuína é um campo aberto, multidisciplinar, que se alimenta das mais diferentes fontes, absorvendo elementos do teatro, do urbanismo, das artes conceitual e pop e com um predominante acento coletivo. No caso de Srur, no entanto, há uma forte preservação do caráter autoral do trabalho, em contraposição à força crescente dos coletivos na produção de arte urbana no Brasil dos últimos anos. Outro aspecto que se destaca em seu trabalho é a maior ênfase no acabamento elaborado das peças. Ele dá grande atenção à plasticidade em suas intervenções de caráter público, revelando uma clara estratégia de usar o belo, o bem-acabado, como arma de sedução e convencimento, aproximando-se assim das ações de Christo, artista búlgaro nacionalizado norte-americano, conhecido por empacotar monumentos e ilhas inteiras e indicado por Srur como uma de suas principais influências.

Com formação em artes plásticas e publicidade, o artista recorre a ferramentas desses dois campos e estabelece um perigoso jogo de inversão, no qual utiliza as próprias armas de sedução da sociedade de consumo, explora elementos cotidianos e os ícones da cultura de massas para denunciar suas contradições. O artista paulistano parece fazer questão de manter-se praticamente afastado do circuito das artes. Seu espaço não é o das galerias e museus, mas a cena pública das grandes cidades. Ele costuma dizer que considera a cidade de São Paulo como um grande laboratório a céu aberto, onde as questões que pretende explorar estão pulsando permanentemente. Seu papel é apenas dar visibilidade a elas, recorrendo a diferentes estratégias. Ele continua pintando, como forma de expressão individual e fonte de renda, mas é evidente que privilegia as ações de impacto desenvolvidas tendo como base a produtora Attack. Como já indica o próprio título da produtora, a estratégia central é atacar, de forma cirúrgica e retumbante, uma determinada questão, de forma a gerar uma espécie de curto-circuito, que abra novas possibilidades de percepção e desejo de mudança.

Acampamento dos anjos, projeto inaugural realizado em 2004: poesia urbana

Seu alvo pode ser a política, o desastre ambiental – tema que vem se tornando uma frente predileta de combate, talvez por contar com maior apoio dos vários agentes, públicos e privados, necessários para levar a cabo ações de grande impacto como as que costuma produzir. Ou até mesmo um engodo mercadológico no mundo das artes, como a Cowparade. Para evidenciar o caráter artificial e estéril dessa iniciativa internacional que nada tem a ver com o veio transformador inerente ao conceito mais preciso de intervenção pública, Srur lançou mão de uma estratégia quase de guerrilha, submetendo duas dessas esculturas de fibra de vidro à fertilidade de touros moldados no mesmo material e montados sobre elas na calada da noite, na edição 2010 do evento, na cidade de São Paulo. Tal intervenção denuncia o caráter artificial das vaquinhas padronizadas, espalhadas pelas cidades como um discurso vazio de arte urbana, meramente decorativa e mercadológica, mas rendeu também a seu autor um processo por ato obsceno, difamação e danos materiais.

Se em muitos casos concentrar a idealização e consecução da obra num único núcleo (de autoria artística ou viabilização por meio de produtora Attack) é mais limitador do que a fluidez e liberdade de ação dos grupos coletivos, isso permite, por outro lado, viabilizar ações de grande impacto e reverberação, como as instalações de réplicas em vinil de garrafas pet de tamanho gigantesco na marginal Tietê (2008) e posteriormente em outros lugares como a represa de Guarapiranga; ou a realização recente de uma corrida entre uma carruagem, trafegando pela ciclovia, e um carro no congestionamento da marginal do Pinheiros como forma de denúncia contra o trânsito caótico. O resultado foi um empate técnico, ambos atingindo uma velocidade de cerca de 18 quilômetros por hora.

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