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Difusão

Uma ciência mais aberta

Editor da Nature e dirigente da Royal Society discutem na FAPESP desafios e limites da abertura de dados científicos

Philip Campbell, editor-chefe da revista Nature

Léo Ramos Philip Campbell, editor-chefe da revista NatureLéo Ramos

“A abertura de dados por si só não tem valor, pois uma ciência aberta é mais do que a simples disponibilização de dados científicos.” A avaliação é do físico inglês Philip Campbell, editor-chefe da revista Nature, uma das mais prestigiosas publicações científicas do mundo. De passagem por São Paulo, Campbell participou do encontro Science as an Open Enterprise: Open Data for Open Science, realizado no dia 25 de fevereiro na FAPESP, onde, diante de um auditório lotado, falou sobre os desafios e transformações do acesso aberto a dados científicos. Durante o evento o diretor científico da Fundação, Carlos Henrique de Brito Cruz, tratou das perspectivas da abertura científica no Brasil. O diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, José Arana Varela, e o secretário de Relações Exteriores da Royal Society, Martyn Poliakoff, participaram como mediadores.

As discussões giraram em torno de um relatório divulgado em junho de 2012 pela Royal Society. Nele, a mais antiga sociedade científica do mundo destaca a necessidade de lidar com a abertura de dados científicos, que estão disponíveis numa quantidade cada vez maior, mas cujo conteúdo nem sempre é inteligível ou de interesse dos pesquisadores. “Rápidas mudanças tecnológicas criaram novas formas de aquisição, armazenamento, manipulação e transmissão de conjuntos de dados que estimulam novos modos de comunicação e colaboração”, disse Poliakoff. O estudo foi motivado por uma polêmica em 2009, no Reino Unido, envolvendo e-mails enviados por climatologistas, que foram hackeados e publicados. As mensagens sugeriam que um cientista tentara esconder dados desfavoráveis à evidência de que o planeta está aquecendo. Uma investigação descartou a hipótese de falsificação, mas o caso provocou debates sobre a necessidade de uma ciência mais aberta.

Campbell explicou que os dados científicos não devem ser apenas acessíveis, mas precisam ser tratados para que se tornem compreensíveis e reutilizáveis. Entre as razões que fazem da abertura de dados um tema inadiável, o físico destacou o potencial para aumentar a confiança na ciência, por meio da replicação e da reprodutibilidade dos dados de pesquisa. Isso, segundo ele, pode aumentar as chances de combate a fraudes no mundo acadêmico e ampliar a participação pública na ciência.

Um exemplo de colaboração pública é apresentado no relatório da Royal Society. Em 2011, um surto de infecção intestinal causado pela Escherichia coli surgiu na Alemanha e se espalhou pela Europa, afetando cerca de 400 mil pessoas. Os médicos de Hamburgo não conseguiam encontrar uma solução, pois, à primeira vista, a bactéria era semelhante à de outras cepas. O problema só foi resolvido depois que os dados sobre o genoma da cepa de E. coli foram abertos e publicados num site, ao alcance de  qualquer pesquisador. Pouco tempo depois, aproximadamente 200 relatórios científicos foram publicados, indicando o que poderia ser feito para barrar a epidemia.

De acordo com o representante da Royal Society, Martyn Poliakoff, “a informação hoje em dia determina como os cientistas precisam se adaptar às mudanças tecnológicas, sociais e políticas, com profundas implicações na maneira como a ciência é conduzida e comunicada”. O químico também falou sobre uma iniciativa da qual faz parte, o PeriodicVideos, que disponibiliza vídeos divertidos de divulgação científica. O projeto começou em 2008, a partir de parceria entre a Universidade de Nottingham e a BBC de Londres.

Léo RamosMartyn Poliakoff, secretário de Relações Exteriores da Royal SocietyLéo Ramos

Três modelos
Além da publicação dos dados gerados pelas pesquisas, outro assunto discutido durante o encontro foi a ampliação das ferramentas utilizadas para disponibilizar, integralmente, os papers publicados em periódicos científicos. Campbell lembrou que existem hoje três modelos para a publicação aberta de artigos: um que disponibiliza o paper livremente, dentro de um período máximo que varia de 6 ou 12 meses após a publicação; outro, em que o paper pode ser acessado a partir do momento da publicação; e, por fim, uma versão híbrida, que disponibiliza apenas uma parte de seu conteúdo livremente, se o autor do artigo pagar uma taxa pela divulgação imediata. Questionado sobre os efeitos que a abertura de dados pode causar na comunicação científica e, particularmente, no jornalismo de informação científica, Campbell disse não acreditar que a abertura vá necessariamente melhorar o processo de comunicação. Segundo ele, não importa se os artigos estão abertos ou só são disponibili-zados mediante pagamento de uma taxa, pois os bons periódicos sempre terão que avaliar seus resultados e publicar os melhores. O que pode acontecer, disse, é que, em um periódico que disponibiliza o conteúdo aberto, o feedback pode ser mais rápido, por meio de correções ou comentários após a publicação. Isso pode trazer algum melhoramento para o paper. “O conteúdo livremente aberto pode ser um pouco melhor nesse sentido [em comparação com aquele que é aberto após o pagamento de uma taxa]”, afirmou.

O diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, lembrou que a discussão em torno de dados abertos não é completamente nova no país e citou bancos de dados brasileiros disponíveis na internet. Mencionou as informações abertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que disponibiliza informações acadêmicas de mais de 174 mil pesquisadores. Brito Cruz também destacou a biblioteca virtual SciELO, da FAPESP, que garante acesso aberto a 270 periódicos nacionais e recebe cerca de 1 milhão de acessos diários. “É um importante mecanismo que contribui para o aumento da visibilidade da ciência brasileira no mundo”, disse. Outro avanço importante foi o acordo firmado há dois anos para a criação de um repositório de todos os artigos vinculados a pesquisas que receberam financiamento da FAPESP, que serão disponibilizados respeitando as normas da revista científica que publicou cada paper. O repositório deve ficar pronto até o final do segundo semestre deste ano.

Em relação ao Brasil, Philip Campbell disse que não está familiarizado com a nova agenda científica, mas reconhece esforços que o país tem feito para se posicionar internacionalmente. Como exemplo citou o apoio da FAPESP a projetos de pesquisa que ligam cientistas e empresas. “Creio que esse é um valioso tipo de financiamento, além da ampliação da relação entre a universidade e a indústria.”

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