Memória

Saúde em revista

Primeiros periódicos médicos paulistas começaram a ser publicados no final do século XIX

O primeiro número da Revista Médica de S. Paulo (1898)

Imagem: Léo RamosO primeiro número da Revista Médica de S. Paulo (1898)Imagem: Léo Ramos

O ano de 1889 foi singular para a classe médica paulista, com não mais de 100 integrantes distribuídos por todo o estado. Além da proclamação da República, foi criada nesse ano a Revista Médica de São Paulo, o primeiro periódico com temas para serem lidos e debatidos por profissionais da saúde. Até a criação da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em 1912, surgiram outras 14 publicações que tratavam de assuntos médicos, embora não se furtassem a sugerir rumos que seus redatores achassem indispensáveis para o maior progresso da sociedade paulista. “O poder público e a então nova realidade republicana estabeleceram uma forte relação com os setores de saúde do estado”, diz Márcia Regina Barros da Silva, historiadora da ciência da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).

Rio de Janeiro e Salvador ganharam sua faculdade de medicina ainda em 1808 e editaram periódicos médicos antes de 1889. Só na primeira metade do século houve cinco revistas especializadas em saúde no Rio, a primeira delas de 1827, Propagador das Ciências Médicas. Em Salvador, a Gazeta Médica da Bahia, de 1866, ganhou fama ao divulgar as ideias da Escola Tropicalista Baiana sobre medicina tropical. Mas em São Paulo deu-se o inverso – foram as revistas que ajudaram a induzir a criação de um curso superior de formação de médicos.

Primeiras edições da Gazeta Clínica (1903) e do Boletim da Sociedade de Medicina e Cirurgia de S. Paulo (1895)

Imagem: Léo RamosPrimeiras edições da Gazeta Clínica (1903) e do Boletim da Sociedade de Medicina e Cirurgia de S. Paulo (1895)Imagem: Léo Ramos

Como não havia um local que congregasse professores e estudantes de medicina, alguns médicos criavam periódicos e discutiam por meio deles. “As revistas traziam artigos que discutiam a profissão, opinavam como deveria ser a formação de um profissional, quais eram as necessidades sanitárias de São Paulo e muitos outros assuntos que fazem parte dos debates acadêmicos”, conta Márcia, que é também presidente da Sociedade Brasileira de História da Ciência. Essas questões apareciam nas revistas ao lado de comunicados e relatos sobre doenças, artigos científicos e traduções que procuravam divulgar novos conhecimentos e avanços da medicina.

A Revista Médica de São Paulo (1889-1890), a Revista Médica de S. Paulo: jornal prático de medicina, cirurgia e higiene (1898-1914) e a Gazeta Clínica (1903-1954) foram os três únicos periódicos, dos 15 feitos até 1912, bancados e redigidos por médicos independentes – todos os outros eram ligados às instituições de saúde paulistas. A primeira revista era quinzenal, com 32 páginas, dirigida por Augusto César Miranda de Azevedo, Francisco de Paula Souza Tibiriçá e Luiz José de Mello Oliveira. A segunda tinha como proprietário Victor Godinho, médico do Serviço Sanitário. E a última assinavam como redatores Bernardo de Magalhães, José Prudente de Moraes Barros, João Alves de Lima, Xavier da Silveira e Rubião Meira.

Arnaldo Vieira de Carvalho, um dos idealizadores da Faculdade de Medicina e Cirurgia, fundada em 1912

Imagem: BIBLIOTECA CENTRAL DA FMUSPArnaldo Vieira de Carvalho, um dos idealizadores da Faculdade de Medicina e Cirurgia, fundada em 1912Imagem: BIBLIOTECA CENTRAL DA FMUSP

Nos últimos 20 anos do século XIX, surgiram algumas instituições que reorganizaram a atenção à saúde em São Paulo. Havia o novo hospital da Santa Casa de Misericórdia (1885), o Serviço Sanitário (1892) e a Sociedade de Medicina e Cirurgia (1895). As revistas médicas apareciam – com a exceção das três citadas – ligadas a essas e outras instituições, como a Revista Farmacêutica, da Sociedade de Farmácia, a Coletânea de Trabalhos do Instituto Butantan ou Revista da Sociedade Scientífica de São Paulo, entre outras. Era fácil encontrar nesses periódicos artigos assinados pelos mais importantes médicos da época, como Luiz Pereira Barreto, Adolfo Lutz, Emílio Ribas, Arnaldo Vieira de Carvalho, Vital Brazil e Rubião Meira.

Com a criação da Faculdade de Medicina, que seria uma das escolas que dariam origem à USP em 1934, a maior parte das novas revistas médicas e de saúde criadas passou a ser vinculada a algum departamento ou serviço da instituição. Os novos tempos também ensejavam novos veículos, mais especializados, para fazer circular trabalhos acadêmicos e eram onde se podia aprender um pouco sobre as transformações constantes que ocorriam no conhecimento biomédico na primeira metade do século XX.