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Perguntas arriscadas

Instituto privado vai investir até R$ 18 milhões por ano em pesquisas de caráter inovador no país

FABRÍCIO MARQUES | ED. 254 | ABRIL 2017

 

Serrapilheira é a camada de folhas que recobre o solo de florestas e bosques

Serrapilheira é a camada de folhas que recobre o solo de florestas e bosques

Uma instituição privada dedicada a apoiar pesquisas no Brasil em ciências da vida, ciências físicas, engenharias e matemática foi lançada em março no Rio de Janeiro pelo documentarista João Moreira Salles e sua mulher, a linguista Branca Moreira Salles. O Instituto Serrapilheira, alusão à camada de folhas que fertiliza o solo de florestas, contará com um orçamento anual entre R$ 16 milhões e R$ 18 milhões, proveniente da aplicação financeira de um fundo patrimonial de R$ 350 milhões doados pelo casal de mecenas. Este fundo, segundo eles, poderá receber novos aportes no futuro, a depender do sucesso da iniciativa.

A instituição terá dois focos principais. O primeiro, que utilizará a maior parte dos recursos, é apoiar projetos científicos em temas de fronteira, liderados preferencialmente por jovens pesquisadores, pelo prazo de quatro anos. “Queremos que os pesquisadores façam perguntas arriscadas e corajosas em seus campos do conhecimento”, diz o geneticista Hugo Aguilaniu, 41 anos, do Laboratório de Genética do Envelhecimento da Escola Normal Superior de Lyon, na França, escolhido para diretor-presidente do instituto após um processo de seleção que avaliou 138 currículos de cientistas e gestores científicos.

O segundo foco da instituição, que só deve ganhar impulso em 2018, é patrocinar iniciativas de divulgação científica atreladas ou não aos projetos contemplados. “Queremos atingir os jovens, incentivá-los, mostrar a eles que a ciência é uma coisa legal, uma carreira bacana. Dizer a eles que as humanidades, as artes e o esporte são possibilidades, mas a ciência também é”, explica.

Uma chamada de projetos de pesquisa deve ser lançada no terceiro trimestre deste ano. A ideia, segundo Aguilaniu, é selecionar um número de propostas que pode passar de uma centena e financiá-las durante um ano, num esquema de seedmoney, destinando em torno de R$ 100 mil a cada contemplado. Terminado esse período, os líderes serão convocados a fazer uma defesa oral de seus trabalhos e apenas as ideias mais promissoras, possivelmente uma dezena delas, continuarão a ser apoiadas, agora com quantias que podem chegar a até R$ 1 milhão, dependendo da necessidade. “O que vamos analisar após o primeiro ano não é o número de publicações científicas ou o impacto imediato”, diz o diretor-presidente. “Prestaremos atenção na maneira como o pesquisador principal investiu em sua ideia, adaptando conceitos quando necessário, mas nunca fugindo de sua pergunta. Um bom pesquisador vai tentar encontrar novas técnicas e outras pessoas no mundo para colaborar. Essa capacidade, que caracteriza um pensamento realmente produtivo na ciência, será valorizada.”

Os projetos serão analisados por um conselho científico composto por 12 pesquisadores, cada um de uma área do conhecimento, de instituições do Brasil e do exterior. Alguns nomes já foram anunciados, como os do matemático francês Étienne Ghys, da Escola Normal Superior de Lyon, do engenheiro Paulo Monteiro, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, do físico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, do químico Osvaldo Luiz Alves, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e da geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (USP).

Edgar Zanotto, presidente do conselho científico do instituto, Hugo Aguilaniu, diretor-presidente, e o mecenas João Moreira Salles

Edgar Zanotto, presidente do conselho científico do instituto, Hugo Aguilaniu, diretor-presidente, e o mecenas João Moreira Salles

Originalidade
Segundo o cientista de materiais Edgar Dutra Zanotto, presidente do conselho científico, o processo de seleção e avaliação dos projetos será rigoroso. “Os projetos deverão ser submetidos em inglês para enviarmos a revisores do exterior com o intuito de minimizar conflitos de interesse. Não queremos que os pareceristas apenas recomendem ou não a aprovação dos projetos, mas que classifiquem as propostas de acordo com seu risco, originalidade e relevância, para que possamos investir nos de maior potencial”, afirma. Ele ressalta que os pesquisadores contemplados terão grande flexibilidade para trabalhar. “Os líderes receberão seus grants e poderão utilizar os recursos sem precisar cumprir as exigências burocráticas necessárias em projetos submetidos a agências de fomento públicas. Vão poder, por exemplo, contratar ou substituir bolsistas sem pedir autorização e apenas prestarão contas no final”, afirma Zanotto, que é professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e responsável pelo Centro de Pesquisa, Educação e Inovação em Vidros, um dos Centros de Pesquisa Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP.

A direção do Instituto Serrapilheira não pretende limitar sua atuação aos projetos apresentados na chamada. Hugo Aguilaniu e sua equipe preparam-se para viajar pelo país para conhecer grupos e instituições de pesquisa, com a meta de identificar iniciativas científicas de impacto. “Vamos procurar projetos de pesquisadores que talvez não se candidatem por imaginar que não terão chances ou por não conhecer o instituto, mas que tenham grande potencial”, afirma o geneticista, que é casado com uma brasileira e colabora há vários anos com grupos de pesquisa do país em estudos sobre envelhecimento.

Comuns em países desenvolvidos, instituições privadas de apoio à ciência são ainda raras no Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 219) – entre os exemplos existentes, destaca-se a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), que apoia pesquisas sobre desenvolvimento infantil. João Moreira Salles começou a planejar a criação do instituto em 2014, depois de observar que a ciência não ocupa um papel central na cultura do Brasil. “Dificilmente um brasileiro saberá dizer o nome de um cientista em atividade. Na literatura, no cinema ou nas telenovelas, há personagens com várias profissões, mas não se encontra um físico, um matemático, um químico. Eles só aparecem em páginas especializadas”, explica o documentarista, dono de uma fortuna estimada em US$ 2,8 bilhões pela revista Forbes – ele é um dos filhos do embaixador Walther Moreira Salles, fundador do Unibanco, que se uniu ao Banco Itaú em 2008.

“Há uma sobrevalorização no país das humanidades e das ciências sociais. Elas são importantes, mas há um desequilíbrio”, avalia. “Eu dava aulas sobre documentário para uma turma de jovens talentosos na PUC [Pontifícia Universidade Católica] do Rio, que eram atraídos pelo charme do cinema. Havia 30 bacharéis em cinema graduados por ano num país que não tem indústria de cinema, mas no departamento de matemática da mesma universidade tinha poucos formados.” As humanidades e as ciências sociais estão fora do escopo do Serrapilheira, mas são de certa forma contempladas por uma outra iniciativa da família, o Instituto Moreira Salles (IMS). O Instituto Serrapilheira ocupará a partir de julho uma sede no bairro do Leblon, com uma estrutura de cinco executivos.


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