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Medicina

Infarto – o que causa ou evita

No Brasil, risco de ataque cardíaco é cinco vezes maior com o hábito de fumar e cai quase à metade com o consumo moderado de álcool

MIGUEL BOYAYANPrincipal fator de risco: mesmo fumar pouco já dobra o risco de infartoMIGUEL BOYAYAN

Um estudo nacional recém-concluído, com 2.558 pessoas, determina e hierarquiza os comportamentos e os parâmetros clínicos que aumentam ou diminuem as chances de um brasileiro sofrer infarto do miocárdio, problema cardiovascular que mata anualmente cerca de 60 mil pessoas no país e é uma das principais causas de óbitos no mundo industrializado. No topo da lista dos fatores de risco, aparece disparado o hábito de fumar. De acordo com o trabalho, coordenado pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia de São Paulo, o consumo diário de mais de cinco cigarros quase quintuplica a probabilidade de ocorrer um ataque cardíaco.

Em seguida, figuram na lista dos maiores fatores de risco, sempre em ordem decrescente de importância, o diabetes melito (alta taxa de açúcar no sangue), o acúmulo excessivo de gordura no abdômen, histórico familiar de doença coronariana, níveis elevados de LDL-colesterol (o popular mau colesterol) e a alta pressão arterial (acima de 14 por 9). Cada um desses indicadores eleva, de forma independente, de duas a três vezes o risco de haver infarto.

Na outra ponta, entre os comportamentos que podem reduzir a incidência desse problema cardiovascular, a pesquisa chegou a um resultado surpreendente: o consumo de álcool se mostrou a mais efetiva forma de proteção contra o ataque cardíaco. Pessoas que tomam alguma bebida alcoólica pelo menos três vezes por semana têm 40% menos chances de ser vítimas de infarto. Quem ingere álcool até duas vezes por semana exibe uma probabilidade 25% menor de sofrer infarto.

O estudo, que será apresentado pela primeira vez no final deste mês, durante o Congresso Brasileiro de Cardiologia, em São Paulo, não levantou o tipo de bebida consumida pelos usuários de álcool nem a quantidade. Mas os autores da pesquisa alertam: esse efeito, aparentemente proporcional à quantidade ingerida de bebida, só é válido para o consumo moderado de álcool. Está provado que doses excessivas de vinho, uísque, cerveja ou qualquer outro drinque podem, além de causar dependência e acidentes de toda sorte, aumentar a pressão arterial e os níveis de triglicérides (um tipo de gordura), duas condições que favorecem o aparecimento de infarto.

Fora o álcool, apenas outro fator – aliás, a ocorrência simultânea de dois fatores – conseguiu efeito protetor semelhante: nível alto de escolaridade em pessoas com rendimento mensal superior a R$ 1,2 mil. Indivíduos com formação universitária dentro dessa faixa salarial apresentam um risco 32% menor de ter infarto. Curiosamente, a prática de atividades esportivas não se revelou um fator de proteção ao infarto, embora as análises preliminares tenham exibido esse benefício. “Isso não quer dizer que o exercício físico não seja importante, mas seu peso foi menor em nosso estudo”, afirma o cardiologista Leopoldo Soares Piegas, diretor clínico do Instituto Dante Pazzanese e coordenador do estudo, batizado de Avaliação dos Fatores de Risco para Infarto Agudo do Miocárdio (Afirmar). “Para quem fuma, largar o cigarro é mais importante do que começar a fazer exercícios em termos de prevenção ao infarto.”

Riscos multiplicados
Pessoas com mais de um hábito ou parâmetro clínico que eleva as probabilidades de ocorrer um infarto devem multiplicar – e não simplesmente somar – o risco relativo atribuído a esse indicador pela pesquisa. O risco relativo ou razão de chances (odds-ratio, em inglês) é um valor numérico que mostra quantas vezes um fator aumenta a chance de ocorrer infarto numa determinada população. Exemplo: entre os brasileiros, de acordo com a pesquisa, fumar pelo menos cinco cigarros por dia equivale a um risco relativo de 4,9. Quem acende a cada 24 horas essa quantidade de cigarros tem quase 4,9 vezes mais risco de sofrer infarto do que quem não fuma.

Portanto, uma pessoa que apresenta os três principais indicadores que favorecem a ocorrência de ataque cardíaco – tabagismo, diabetes (risco relativo de 2,8) e excesso de gordura abdominal (risco relativo de 2,4) – tem 32,8 vezes mais chances (4,9 x 2,8 x 2,4) de ser alvo desse problema de saúde do que um indivíduo sem nenhum fator de risco para o infarto. “Em termos de saúde pública, fumo, diabetes e obesidade podem ser controlados e atenuados com medidas simples, diagnóstico precoce e informação”, diz Piegas. O estudo mostra que não basta reduzir o número de cigarros consumidos: o ideal é abandonar o hábito, porque fumar pouco – menos de cinco cigarros por dia – já dobra o risco de infarto.

No Brasil, estima-se que ocorram cerca de 300 mil infartos do miocárdio por ano, dos quais um quinto dos casos resulta em mortes. Esse problema cardiovascular resulta do acúmulo de placas de gordura na artéria coronária que supre o coração de sangue. Se não controlado, o fenômeno leva à formação de coágulos que obstruem o fornecimento de sangue ao músculo cardíaco. Quando isso acontece, o paciente sofre o popular ataque cardíaco: experimenta na região do peito uma dor súbita e intensa, que pode se espalhar pelo pescoço e braços. “Se atacarmos os três principais fatores de risco do infarto, vamos reduzir consideravelmente os óbitos em razão desse problema”, opina Piegas. O cardiologista cita o exemplo da Finlândia, que, apenas com o controle do tabagismo e dos níveis de colesterol, reduziu em 55% as mortes por infarto e derrame na década passada.

As conclusões se amparam na análise de 33 variáveis clínicas e laboratoriais de 1.279 vítimas de infarto e 1.279 pessoas sem esse tipo de problema (o grupo de controle) que foram atendidas entre outubro de 1997 e novembro de 2000 em 104 hospitais públicos e privados de 51 cidades de 19 estados, cobrindo todas as regiões. Comparou-se uma série de variáveis de pacientes que tiveram seu primeiro infarto e foram atendidos num centro clínico com pessoas sadias do mesmo sexo e faixa etária, que formam o grupo de controle. Para cada paciente com infarto, tentou-se achar seu par ideal, um indivíduo controle, com no máximo cinco anos a mais ou a menos de idade e, de preferência, que tenha sido atendido no mesmo hospital ou cidade. Dessa forma, evita-se comparar um infartado do Rio Grande do Sul com uma pessoa sadia da Bahia.

Não se pretendia entender o mecanismo de atuação dos fatores de risco e de proteção ao infarto, mas dimensionar o peso de sua influência sobre o ataque cardíaco. Por definição, é classificada de diabética a pessoa que apresenta pelo menos 126 miligramas de glicose por decilitro de sangue. A quantidade de gordura localizada na barriga de um indivíduo é elevada quando a relação cintura-quadril – a divisão da medida da primeira pela segunda – é maior que 0,93 para os homens e 0,83 para as mulheres. Já no caso do LDL-colesterol, as taxas são vistas como altas quando superam 100 miligramas por decilitro de sangue.

Na maioria dos estudos feitos no exterior, o tabagismo é o principal hábito ou dado clínico que favorece a ocorrência de infarto. Na Índia, um trabalho semelhante, feito em 1996, chegou a essa mesma conclusão e estimou que o consumo de pelo menos dez cigarros eleva em 3,6 vezes o risco de sofrer um ataque cardíaco na população daquele país. Nos Estados Unidos, pesquisas recentes também colocaram o tabagismo como o principal vilão do infarto, sendo capaz de aumentar de duas a três vezes a probabilidade de ocorrer infarto, indíces bem menores do que os encontrados agora no Brasil.

“Em cada país ou região, a lista de fatores de risco e proteção do infarto pode ser diferente, assim como o peso de cada um desses fatores”, afirma o cardiologista Álvaro Avezum, também do Instituto Dante Pazzanese e outro coordenador do Afirmar. “Daí a importância de termos dados nacionais e regionais sobre os fatores de risco do infarto, em vez de ficarmos importando informações.” Se os países da Escandinávia tivessem se limitado a trabalhar com os resultados das pesquisas conduzidas nos Estados Unidos, nunca teriam descoberto que, em seus territórios, o diabetes – e não o fumo – é a condição clínica que mais favorece à ocorrência de infartos.

Peculiaridades paulistas
Depois de fornecer um quadro geral dos fatores de risco para o infarto no país, o estudo vai, numa segunda etapa, averiguar se o peso de cada fator de risco e de proteção difere de acordo com uma série de parâmetros apresentados pelos participantes da pesquisa, como idade, sexo e origem geográfica. No primeiro estudo derivado do Afirmar, Avezum exami-nou os fatores de risco e de proteção ao ataque cardíaco em uma amostra de 553 habitantes da região metropolitana de São Paulo (271 enfartados e 282 do grupo controle). Os resultados diferem um pouco dos obtidos com a amostra nacional, o que, de certa forma, era esperado. “O peso de cada fator pode variar mesmo de região para região, pois estamos analisando populações com características diversas”, diz ele. “No Sul e Sudeste, mais desenvolvido, o infarto é a principal causa isolada de morte enquanto no Norte e Nordeste essa posição é ocupada pelo acidente vascular cerebral (derrame).”

Na Grande São Paulo, o tabagismo também aparece como o comportamento que mais eleva a probabilidade de infarto – só que seu peso, como fator de risco, foi maior do que na pesquisa nacional. Entre os moradores da região metropolitana, o consumo de mais de cinco cigarros por dia aumenta quase seis vezes as chances de um ataque cardíaco. Na amostra de toda a população brasileira, esse índice era de quase cinco vezes. Também chama atenção no trabalho com os paulistas a constatação de que o segundo mais importante fator de risco, bem à frente dos demais, é o acúmulo de gordura abdominal, que intensifica em 4,2 vezes as chances de infarto. “Os habitantes da Grande São Paulo, em relação aos de outras regiões, têm melhor poder aquisitivo e acabam, às vezes, comendo mais do que devem e levando uma vida muito sedentária”, afirma Avezum.

Depois do fumo e da obesidade, figuram como fator de risco para os paulistas a hipertensão, altos níveis de LDL-colesterol, diabetes e histórico de doença cardíaca na família. Na coluna dos fatores de proteção, apenas uma das variáveis clínicas se mostra capaz de reduzir a chance de ocorrer infarto entre os paulistas: a existência de níveis elevados de HDL-colesterol, o bom colesterol. Pessoas com mais de 40 miligramas desse tipo de lipídio por decilitro de sangue têm risco 47% menor de sofrer esse problema cardiovascular. Na amostra paulista, o consumo de álcool e o casamento de alta escolaridade e renda acima de R$ 1,2 mil reais, que se revelaram como condições favoráveis à redução da probabilidade de ocorrer infarto no trabalho nacional, não obtiveram o mesmo efeito protetor.

O Projeto
Afirmar – Avaliação dos Fatores de Risco para Infarto Agudo de Miocárdio no Brasil
Modalidade
Linha regular de auxílio a projeto de pesquisa
Coordenador
Leopoldo Soares Piegas – Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
Investimento
R$ 9.150,30

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