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Carta da editora | 93

Belos engenhos do homem e da aranha

Hesitamos mais que o usual na escolha da capa desta edição de Pesquisa FAPESP. Tínhamos, de um lado, uma história deliciosa sobre a capacidade das aranhas de memorizar informações e assim aprimorar seus hábitos instintivos de caça. A reportagem parecia-nos tanto mais interessante porque a pesquisa que levou a essa descoberta enraíza-se na longínqua curiosidade de um adolescente, fascinado com os movimentos de uma aranha na teia construída entre as folhas de um arbusto, numa tarde de verão na quente Alexandria, Egito, nos idos de 1956. O fascínio transformou-se em paixão duradoura e, finalmente, em trabalho produtivo e muito bem-sucedido – tanto que o adolescente egípcio tornou-se uma das maiores autoridades brasileiras em etologia. Estávamos, assim, ante uma espécie de saga construída em torno do desvendamento de um intrigante comportamento animal, e dotada de uma carga humana particular, que costuma provocar o entusiasmo daqueles jornalistas que estão convencidos de que as melhores histórias e os melhores textos do jornalismo transportam sempre uma certa dose de emoção por entre as palavras de densa informação. Por isso, era forte a tentação de destinar a capa desta edição à reportagem que começa na página 42, de Ricardo Zozetto, editor-assistente de Ciência.

Mas, de outro lado, tínhamos uma reportagem que relata um novo e importante capítulo de sucesso – sem que haja aqui qualquer traço de ufanismo tolo – na história da tecnologia aeronáutica nacional. Veja-se: a brasileira Embraer, quarta maior fabricante de aviões do mundo, já bem instalada no segmento de jatos regionais com, no máximo, 50 assentos – no qual detém uma fatia de confortáveis 45% do mercado global -, agora está prontíssima para disputar espaço com as gigantes Boeing e Airbus no fornecimento de aeronaves às grandes empresas internacionais de aviação. Não que esteja lançando equipamentos equivalentes, por exemplo, ao Boeing 767, mas os aviões de porte médio que está desenvolvendo, de alto desempenho e muito confortáveis, podem substituir com vantagens, em determinadas rotas, os grandes jatos produzidos por outras companhias. E foi justamente essa oportunidade, ou seja, a demanda potencial do mercado por aparelhos com maior capacidade de assentos que os jatos regionais e, simultaneamente, por aeronaves menores e mais econômicas que os jatos com mais de cem lugares usados pelas grandes companhias – voando muitas vezes com capacidade ociosa -, que a Embraer soube identificar e aproveitar. Já neste mês de novembro, a empresa, sediada em São José dos Campos, São Paulo, deve entregar à italiana Alitalia o primeiro avião Embraer 170. O modelo, como relata o repórter Yuri Vasconcelos a partir da página 64, faz parte de uma nova geração de jatos com capacidade de 70 a 108 passageiros. Enquanto isso, a empresa brasileira já registrava, até setembro, 245 encomendas fechadas dos novos aviões e 308 opções de compra. Vale lembrar aqui que a história de sucessos da Embraer escreve-se com a competência tecnológica acumulada pela empresa desde sua fundação, em 1969, apoiada nos profissionais formados pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica e pelo Centro Tecnológico Aeroespacial. Demonstração cabal e concreta de que o investimento em tecnologia tem retorno garantido para o país, a reportagem sobre os novos aviões terminou se impondo para a nossa capa.

Merece destaque também nesta edição a polêmica em torno dos transgênicos, impulsionada pela questão da liberação do plantio da soja geneticamente modificada na safra 2003/2004, no Rio Grande do Sul, que embute o risco de se comprometer, sem necessidade, o enorme potencial de desenvolvimento da biotecnologia brasileira. A partir da página 16, a editora de Política Científica e Tecnológica, Claudia Izique, detalha a visão de respeitados pesquisadores da área sobre os transgênicos e sua avaliação sobre as razões e desrazões que permeiam o debate. Boa leitura!

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