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Carta da editora | 94

Uma epidemia diferente

Nas duas últimas décadas, os médicos brasileiros têm sido postos frente a um daqueles parodoxos tão comuns no Brasil. Ao mesmo tempo que há uma legião de indigentes no país, a ponto de motivar o governo federal a criar um programa chamado Fome Zero, os especialistas vêem aumentar por aqui o número de pessoas obesas. Estudos epidemiológicos feitos a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que há cerca de 17 milhões de obesos no país, o que representa 9,6% da população. É um número que dobrou em 20 anos, entre 1975 e 1997. O fenômeno na verdade é global, com maior gravidade nos países mais desenvolvidos – segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há 300 milhões de obesos no mundo e, destes, um terço está nos países em desenvolvimento. A OMS, aliás, considera a obesidade um dos dez principais problemas de saúde pública do mundo, já classificada como epidemia. Obviamente, as conseqüências do excesso de peso são ruins para quem o carrega, porque ele aumenta a propensão ao desenvolvimento de hipertensão e diabetes.

Pesquisa FAPESP decidiu aproveitar o fim do ano, época farta em festas e alimentos que levam todos a abusar da boa mesa, para colocar a questão na capa da revista. A obesidade, é certo, tem múltiplas causas: do excesso de comida à propensão genética. O que mostramos na reportagem de Ricardo Zorzetto e Francisco Bicudo são pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto do Coração (InCor) explicando quais são as alterações fisiológicas do organismo dos obesos que provocam esses problemas. E, mais importante, como reverter esse quadro com a prática combinada e contínua de dieta e exercícios. Se quisermos livrar a saúde pública de mais esse mal, a saída é tão simples quanto “incômoda”: é preciso comer menos e encarar um sério programa de exercícios.

Como falamos de alimentos, é conveniente citar a entrada em operação para valer da Rede de Biossegurança da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que se prepara para testar no campo o mamão geneticamente modificado resistente ao vírus da mancha anelar. O trabalho em rede com outras instituições deverá permitir a revisão rápida de procedimentos e análises, incorporar novos dados à investigação e ampliar o contato com iniciativas científicas semelhantes do exterior.

Ainda no mundo vegetal, uma notícia animadora para o setor de energia. O óleo diesel, que abastece caminhões, ônibus, tratores e locomotivas brasileiras, deverá receber, em mais dois anos, uma percentagem de biodiesel, combustível produzido com etanol e óleos vegetais. As vantagens econômicas são significativas: o biodiesel é totalmente renovável, polui menos que o diesel do petróleo e já há uma indústria de produção de álcool no país. As pesquisas são tocadas por dezenas de pesquisadores de várias instituições de todo o país. A partir da página 66, será possível conhecer os principais projetos em desenvolvimento.

A seção de Humanidades está menor nesta edição, mas traz dois textos substanciosos. O primeiro é uma entrevista com Ismail Xavier, professor da USP, um dos mais importantes estudiosos do cinema brasileiro. Ao falar de seu novo livro, O Olhar e a Cena, Xavier nos leva a uma viagem pela história do cinema e conta como se deu, no Brasil, a migração de enredos do palco para a tela. O outro artigo é a apresentação do dossiê Mulher, mulheres, uma coletânea de 17 textos da revista Estudos Avançados que versam sobre questões como trabalho, violência, contam as lutas das mulheres brasileiras contra as várias discriminações que (ainda) sofrem e sua contribuição às ciências, educação, filosofia e artes. Vale a pena conhecer os novos dados que emergem desses artigos na edição nº 49 da revista, editada pelo Instituto de Estudos Avançados da USP.

Boas festas e feliz 2004.

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