CIÊNCIA

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Saindo das sombras

ED. 34 | AGOSTO 1998

 

Ao iniciar sua apresentação durante o V Congresso Latino-Americano de História das Ciências e da Tecnologia, realizado no final de julho, no Rio de Janeiro, a professora de Matemática Margarida Mendonça, da rede pública estadual paulista, lembrou de uma velha piada machista, a qual diz que, se o dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher, os outros 364 são exclusivamente dos homens. A pilhéria foi bem recebida pelos participantes – em sua maioria mulheres -, mesmo tendo sido contada num Encontro que pretendia analisar principalmente a atuação das mulheres na história da produção científica e tecnológica.

O Congresso não foi, como se pode pensar, uma mesa-redonda de feministas. “Nossa preocupação maior é considerar a questão de gênero na ciência e não pensar que este é todo o problema da ciência”, defende a professora do Instituto de Geociências da Unicamp, Maria Margaret Lopes, uma das organizadoras do evento, que teve apoio da FAPESP e no qual se discutiu, além dos aspectos históricos, a situação atual da crescente participação feminina no campo científico.

O estudo Indicadores de Ciência e Tecnologia em São Paulo, recentemente lançado pela FAPESP, revela que existem 72.296 pesquisadores no Brasil (esse número inclui o pessoal docente com tempo integral e dedicação exclusiva nas universidades públicas, pesquisadores dos institutos de pesquisa federais e estaduais e o pessoal de P&D das empresas públicas e privadas). Não se sabe, entretanto, qual o percentual de mulheres nesse universo. Dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostram, entretanto, que a participação de mulheres na produção científica nacional é de 30%, tendo como indicadores a produção de teses e livros, a participação em congressos e a orientação de pesquisas.

Mas há diferenças no que diz respeito às áreas de interesse das mulheres cientistas. Nas ciências matemáticas, por exemplo, a presença feminina é modesta. Dos 52 membros deste campo na Academia Brasileira de Ciência (ABC), apenas três são mulheres. Também são poucas as que enveredam pela Engenharia e pela Física. Na Biologia a presença é maior mas, mesmo assim, na lista dos 189 membros desta área da ABC, somente 28 vagas são preenchidas por nomes femininos.

No México, segundo o Sistema Nacional de Pesquisadores, as mulheres representam 30% do número total de cientistas nas áreas da Biologia e Biomedicina. O Estado de São Paulo, segundo ainda os Indicadores de Ciência e Tecnologia em São Paulo, possui 16.057 pesquisadores, sendo 35% mulheres. Elas são mais jovens do que os seus colegas, o que significa um ingresso mais recente na atividade e nas instituições de pesquisa: 23,1% das pesquisadoras estão na faixa etária de 25 a 35 anos, contra apenas 11,4% dos homens. Em contrapartida, apenas 8,8% das pesquisadoras têm idade acima de 55 anos; os homens são 21%.

No Instituto Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, um dos maiores centros de pesquisas na área biomédica da América Latina, as mulheres são maioria: lá trabalham 128 pesquisadoras e 75 pesquisadores. E a tendência é aumentar. O número de bolsistas do sexo feminino inscritas no Programa de Iniciação Científica do mesmo Instituto é de 155, contra 85 bolsistas do sexo masculino. Nas universidades da maioria dos países latino-americanos, a representação feminina também é expressiva, alcançando números semelhantes – às vezes superior – aos dos países desenvolvidos. No México, tomando como modelo a Universidade Nacional Autônoma, ela alcança o percentual de 54% nos centros acadêmicos.

Preconceito
São números significativos, mas que ainda não asseguram situações ideais. Na estrutura hierárquica de uma universidade ou instituto de pesquisa, a pirâmide se afunila, isto é, embora seja grande o número de mulheres trabalhando nas salas de aula ou em laboratórios, ainda são poucas as que chegam aos cargos de direção dessas instituições. Preconceito? “É possível”, afirma Maria Margaret. “Só que esta situação perdura porque as próprias mulheres não assumem que possa existir qualquer tipo de diferença de tratamento entre elas e os homens.

A estrutura da ciência faz com que você se adapte a ela e negue uma série de valores. É comum ouvir dos próprios pesquisadores que na ciência não existem preconceitos, quando, na verdade, existem todos os tipos de preconceito. Evidentemente, gênero não é o único, mas está presente”, analisa a professora.

É evidente que a questão da mulher na ciência está inserida na questão cultural. O quadro atual brasileiro, explicam os especialistas, é reflexo da história de um país que teve suas bases numa sociedade patriarcal, escravocrata, onde a elite letrada era pequena e a voz feminina baixa. No país, as mulheres só foram permitidas a entrar para as faculdades a partir de 1879.

Esse tipo de exclusão não é, entretanto, coisa de países subdesenvolvidos. A Escola Politécnica de Paris só abriu suas portas às mulheres nos anos 70. Por aqui, embora excluídas do ensino superior, existem registros de que elas já escreviam artigos científicos para jornais, sobre astronomia, vulcões e outros temas. Só não se sabe ainda quem foram essas mulheres.

Difícil garimpo
Estudar a história das mulheres cientistas do passado e descobrir quem foram é difícil, mesmo porque a própria historiografia da ciência no Brasil é recente. O grande esforço dos estudiosos do tema é provar, antes de tudo, que houve atividade científica antes dos marcos do século 20. “Se a historiografia nos dizia que não valia a pena olhar do século 20 para trás, porque ainda não existia ciência, que dirá descobrir as mulheres cientistas. Achá-las, na História da Ciência, é o garimpo do garimpo”, afirma a historiadora Sílvia de Mendonça Figueirôa, presidente da Sociedade Latino-Americana de História das Ciências e da Tecnologia.

Um velho dito popular diz que atrás de todo grande homem há sempre uma grande mulher. Na época das primeiras grandes cientistas acontecia o inverso. Hoje tidas como pioneiras, elas precisaram, ao longo dos séculos, se sustentar em uma espécie de capital simbólico: a figura de um homem, que poderia ser o pai, o irmão ou marido. É o caso da zoóloga Bertha Lutz, filha do cientista Adolfo Lutz, mais lembrada hoje em dia por sua participação política, através da luta que travou para que a mulher tivesse direito ao voto, do que pela científica.

A cientista social e diretora do Museu Nacional do Rio de Janeiro no início do século, Heloísa Alberto Torres, levou anos para se desvincular da imagem do pai, o político Alberto Torres. Não conseguiu. A matemática Emny Noether, chamada a algebrista de todos os tempos, colaboradora de Einstein, ajudou-o a desenvolver a teoria da relatividade, mas só ele ficou conhecido pelo feito. Como se vê, até a participação do físico alemão na famosa teoria da relatividade pode ser relativa.

Ainda hoje isto acontece. O francês Luc Montagnier e o americano Robert Gallo disputaram por muito tempo a paternidade da descoberta do vírus da Aids. Há pouco tempo, o primeiro ganhou a batalha. Porém, muita gente, mesmo membros da comunidade científica mundial, desconhece o nome da co-autora da descoberta, a imunologista Françoise Barré-Sinoussi.

Um dos maiores obstáculos enfrentados pelas pioneiras foram as teorias excluístas. “As visões da ciência vigente eram muito apoiadas em teorias antropológicas craniométricas. O que determinava o grau de inteligência e possibilidade de desenvolvimento de uma pessoa eram as medidas do cérebro. Acreditava-se que os cérebros das mulheres eram menores e, portanto, elas eram menos capazes que os homens”, conta Maria Margaret. “Como alguns cientistas apoiavam uma visão transformista, eles acreditavam que as mulheres tinham salvação. Se elas usassem mais o cérebro, fossem melhor educadas, poderiam evoluir”.

Se os cérebros realmente aumentaram, não se sabe ao certo. O fato é que elas evoluíram, como os homens também fizeram, no sentido de derrubar dogmas e tabus. No passado, representantes da Igreja questionavam o interesse feminino por assuntos como a astronomia, dizendo que, em vez de aprender sobre o tema, as mulheres deveriam aprender bordado. Se tivesse levado o conselho a sério, a mexicana Francisca Gonzaga del Castillo não teria ousado fazer seus prognósticos astronômicos em pleno século 18 nem deixado obras importantes para o estudo da ciência naquele país. Outro raciocínio comum é que meninas não gostam de matemática. Talvez as professoras Martha de Souza Dantas e Arlete Cerqueira Lima nunca ouviram falar nisso.

Assim, elas puderam fundar o Instituto de Matemática e Física da Universidade Federal da Bahia. E se ciência não fosse coisa de mulher, a brasileira Ruth Nussenzveig também não estaria, neste momento, procurando desenvolver uma vacina contra a malária na Universidade de Nova York, a agrônoma Victoria Rossetti, do Instituto Biológico de São Paulo, não seria a principal responsável pelas grandes descobertas científicas para controle de importantes pragas de citros, a bióloga Mayana Zatz, do Instituto de Biociências da USP, não estaria mapeando genes humanos relacionados a doenças degenerativas, projeto que integra o Programa Genoma Humano, que se desenvolve em escala internacional.

Mas o espaço das mulheres na produção científica, embora esteja melhor que anos atrás, ainda não está consolidado. Segundo especialistas, faltam iniciativas. “Existem políticas de incentivo à participação feminina em países desenvolvidos como os Estados Unidos, onde, se numa determinada área disciplinar a porcentagem da participação da mulher é de 30%, por exemplo, o governo financia um Congresso para 30% de mulheres pesquisadoras”, diz Maria Margaret. “Aqui no Brasil, uma política como essa, que incorpore a questão da mulher na ciência, ainda é um trabalho a ser feito”, completa ela.


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