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No time dos grandes

A manhã de 26 de março de 1999, uma sexta-feira, já entrou para a história da ciência brasileira. Nesse dia, no auditório da FAPESP, foi oficialmente firmado o acordo de cooperação entre a Fundação e o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, instituição internacional sediada em Nova York, com filiais em várias cidades do mundo, sendo uma delas em São Paulo.

Para assinar o contrato de cooperação, que prevê o investimento de US$ 10 milhões, nos próximos dois anos, no projeto Genoma Humano do Câncer – marcando, assim, a entrada do país nas pesquisas internacionais sobre genoma humano-, estiveram presentes o presidente da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, e o presidente do Instituto Ludwig, Edward McDermott, que veio dos Estados Unidos especialmente para selar a parceria.

De acordo com o contrato, metade da verba destinada ao projeto sairá da FAPESP e os outros 50% serão alocados pelo Instituto Ludwig. “Esse acordo é um reconhecimento da qualidade das pesquisas feitas no Brasil, sobretudo no Estado de São Paulo”, disse Brito Cruz. “Por isso, foi fácil tomar a decisão de estabelecer essa parceria”, afirmou McDermott.

Também estiveram presentes à cerimônia de assinatura da parceria o vice-governador do Estado, Geraldo Alckmin, o secretário estadual da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, José Aníbal, o secretário estadual da Saúde, José da Silva Guedes, o secretário do Desenvolvimento Científico do Ministério da Ciência e Tecnologia, Fernando Reinach, os diretores da FAPESP Francisco Romeu Landi, José Fernando Perez e Joaquim José de Camargo Engler, e o presidente do Instituto Ludwig em São Paulo, Ricardo Brentani.

O Genoma Humano do Câncer, primeira iniciativa brasileira e do Programa Genoma da FAPESP a trabalhar com o código genético da espécie humana, tem como objetivo gerar entre 500 e 750 mil seqüências de genes (totalizando 200 milhões de pares de bases) a partir de material retirado dos tumores de maior incidência no Brasil – cabeça e pescoço (que representam um quinto dos casos do Estado de São Paulo), gástricos (cerca de 8% do total de casos do país) e colo do útero (também aproximadamente 8% dos casos do país).

Os pesquisadores esperam que, uma vez terminado esse trabalho de seqüenciamento de genes, as informações obtidas no projeto possam ser de grande valia no futuro para o tratamento, cura e prevenção desses tipos de câncer e que elas representem uma contribuição inédita da ciência nacional na corrida global pelo mapeamento do todos os genes que formam oHomo sapiens sapiens . Todos os resultados obtidos no projeto serão repassados para bases de dados públicas, a fim de que qualquer pesquisador possa usá-los em prol da ciência.

O método Orestes
O Genoma Câncer dispõe de seis máquinas seqüenciadoras de genes, das quais duas já estão em uso e produzindo os primeiros resultados. Esses novos aparelhos têm uma capacidade de geração de seqüências dez vezes maior do que a dos equipamentos usados no projeto Genoma Xyllela – a Xylella fastidiosa é a bactéria causadora da Clorose Variegada dos Citros (CVC), praga popularmente conhecida como amarelinho, que ataca um terço dos laranjais paulistas -, primeira iniciativa da FAPESP no âmbito do Programa Genoma. Embora o novo desafio seja grande, os pesquisadores estão otimistas e trabalham com uma ponta de orgulho adicional no Genoma Câncer.

Isso porque o trabalho está sendo feito com a ajuda de um novo método de seqüenciamento de genes descoberta no Brasil, batizada de ORESTES, em inglês Open Reading Frames ESTs Expressed Sequence Tags. Esse método foi desenvolvido por Andrew Simpson, do Instituto Ludwig de São Paulo e coordenador do Genoma Câncer. O contrato de cooperação, inclusive, também estabelece que a patente nos Estados Unidos do novo método de seqüenciamento é do Ludwig, mas que os ganhos com royalties referentes ao uso comercial da metodologia ORESTES serão divididos meio a meio entre essa instituição e a FAPESP.

Para Fernando Reinach, o projeto Genoma Humano do Câncer evidencia a maturidade da FAPESP no campo da biologia molecular. Segundo ele, no primeiro projeto de genoma da FAPESP, o da Xyllela, havia o medo de que os pesquisadores brasileiros não tivessem capacidade de levar a cabo uma iniciativa desse porte. Por isso, na ocasião, optou-se por seqüenciar um organismo importante para a lavoura paulista, porém pequeno e sobre o qual não houvesse disputa com laboratórios internacionais. “Mostramos que temos competência e, com uma técnica revolucionária e brasileira, entramos no time dos grandes jogadores.

Agora, vamos trabalhar sobre o organismo mais estudado e onde há mais competição entre laboratórios públicos e privados no mundo, o ser humano. Acho que temos condições de entrar para fazer um estrago, no bom sentido”, afirmou Reinach. “Ninguém nos convidou para essa festa (a da corrida pelo seqüenciamento do genoma humano), mas nós entramos nela. Talvez não sejamos nem bem-vindos, mas vamos em frente”, disse Simpson.

Rede virtual
O Genoma Humano do Câncer usará uma estrutura de funcionamento semelhante à empregada no projeto da Xyllela, lançando mão da rede virtual de laboratórios do Estado de São Paulo, ONSA (Organização para Seqüenciamento de Nucleotídeos). A coordenação geral dos trabalhos ficará a cargo do Instituto Ludwig de São Paulo, sob o comando de Simpson, ao qual estarão ligados via Internet os cinco centros responsáveis pela tarefa de seqüenciar os genes humanos: Instituto de Química da USP, Universidade Federal de São Paulo, Faculdade de Medicina da USP, Universidade Estadual de Campinas e Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto.

Cada centro terá quatro laboratórios interligados a ele, que terão a incumbência de manter as máquinas abastecidas com material a ser analisado geneticamente. Os laboratórios interessados em participar do projeto podem se candidatar preenchendo um formulário que pode ser acessado na página da FAPESP na Internet (www.fapesp.br). “A rede Onsa foi criada para o projeto da Xyllela e hoje foi incorporada ao Programa Genoma.

Ela é eficiente e barata, pois não gastamos nenhum dinheiro construindo prédios para abrigar nossos projetos”, comentou José Fernando Perez, diretor científico da FAPESP. O vice-governador, Geraldo Alckmin, afirmou que o Genoma Câncer ajudará a descobrir a cura de doenças, aumentanto assim a qualidade de vida das pessoas.

Presidente do Ludwig fala da parceria

Por que o Instituto Ludwig decidiu patrocinar o projeto Genoma Humano do Câncer, da FAPESP?
Edward McDermott – Porque ele tem um apelo imediato. Estamos muito preocupados com o fato de que há vários projetos internacionais sobre o Genoma Humano nos quais estão sendo patenteadas seqüências de genes sem que esse novo conhecimento esteja necessariamente associado a iniciativas em prol da coletividade. Nós achamos que as seqüências de genes são um tipo de conhecimento que deve estar integralmente à disposição da comunidade científica internacional, em bases de dados públicas. Ao apoiar o projeto da FAPESP, estamos possivelmente contribuindo com uma iniciativa que visa reduzir o caminho percorrido até a descoberta dos genes e que pode representar uma contribuição material nesse esforço global em busca do Genoma Humano.

O senhor acha que essa nova técnica de seqüenciamento de genes, chamada de ORESTES, representa uma revolução na busca pelo Genoma Humano?
EM – Isso somente o tempo dirá, mas, com certeza, estamos muito entusiasmados com ela. Achamos que ela dará conta do tipo de trabalho necessário para a realização do projeto Genoma Humano do Câncer. Estamos muito esperançosos e aguardando seus primeiros resultados. Daqui a dois meses, os resultados iniciais devem começar a ser publicados, mais laboratórios entrarão no processo de seqüenciamento de genes e, dentro de um ano e meio, esperamos ter as informações genéticas de que precisamos. ORESTES é uma técnica nova, que está sendo usada apenas no Brasil. Pelo acordo que temos com a FAPESP, o Instituto Ludwig detém a patente dela, mas se compromete a repassar à FAPESP metade dos ganhos referentes aos royalties recebidos pelo uso dessa técnica em projetos comerciais, que não trabalhem com o Genoma Humano.

Andrew Simpson, coordenador do Genoma Câncer, diz que, com este projeto, o Brasil entra, possivelmente sem ser convidado, na festa do Genoma Humano, um campo de pesquisa muito competitivo e basicamente restrito a instituições públicas e privadas dos países do Primeiro Mundo. O senhor concorda com essa visão dele?
EM – É sempre bom entrar sem ser convidado numa festa (diz, rindo). Agora, falando a sério. Nós confiamos no trabalho feito pelos brasileiros, especialmente os envolvidos neste projeto. Foi, portanto, para nós, do Ludwig, uma decisão fácil e natural optar por esta parceira com a FAPESP. Decidimos tocar este projeto no Brasil, mais especificamente em São Paulo, porque foi aqui que a nova técnica foi descoberta. Para nós, parecia apropriado que as pessoas que tinham sido as responsáveis pela descoberta tivessem a chance de exercitar essa técnica. Além disso, o doutor Simpson e seus colegas do projeto Genoma da Xyllela fastidiosa já tinham demonstrado competência para organizar uma rede virtual de laboratórios e tocar um esforço de seqüenciamento genético, o que tornou a decisão ainda mais fácil. Além disso, fomos, desde o início, muito encorajados pelo suporte dado pela FAPESP. Isso foi muito importante. Em agosto de 98, este projeto foi apresentado à administração do Instituto Ludwig, nos Estados Unidos. Na primeira semana de setembro, num sábado, tivemos um encontro com o professor José Fernando Perez (diretor científico da FAPESP) em Nova York. Havia cientistas do Instituto Ludwig de todo o mundo que havíamos levado para lá a fim de ouvir as explicações do doutor Simpson sobre o novo método e nos dar uma opinião sobre a técnica. Desde então, estamos convencidos dos méritos da nova técnica e entramos numa corrida para viabilizar este projeto e chegarmos ao ponto em que ele se encontra neste momento. Hoje há uma corrida global em busca do Genoma Humano. Cada dia são geradas novas seqüênciasde genes e todos sabemos que há urgência em tornar públicas as informações sobre o código genético. Temos, portanto, cada vez menos tempo para realizar essa tarefa.

O projeto Genoma Humano do Câncer tem duração prevista de dois anos. Esse tempo é realmente suficiente para essa tarefa? O Instituto estaria disposto a patrocinar o projeto por mais algum tempo?
EM – De acordo com o que lemos na imprensa, os prazos nos projetos de Genoma Humano estão ficando cada vez menores, e não maiores. Por isso, no caso do Genoma Câncer, tudo vai depender de quão eficiente será a metodologia ORESTES e dos progressos obtidos nessa área pelos projetos internacionais que usam outras técnicas. Vamos monitorar os passos de Genoma Câncer com a FAPESP, mas, em princípio, nosso comprometimento é de dois anos com a iniciativa, tempo que julgamos suficiente para concluir o trabalho.

O Instituto Ludwig participa de outros projetos de Genoma Humano similares ao da FAPESP em alguma outra parte do mundo?
EM – Estou no instituto há dez anos e nós nunca fizemos algo assim. É uma oportunidade única para nós. Como eu já disse, tomar essa decisão foi muito fácil e estamos muito contentes com a parceria com a FAPESP.

O senhor acha realmente que o ser humano corre o risco de ter seus genes patenteados por empresas privadas nessa corrida pelo Genoma da espécie?
EM – É um tema realmente controverso entre os cientistas. Há governos e empresas privadas fazendo seqüenciamentos de genes. Às vezes, alguém quer patentear uma seqüência, mesmo sem saber para o que ela serve, qual é sua função, apenas com o intuito de tentar garantir algum ganho no futuro. Não acho que seja adequado requerer essas patentes. Além disso, vai depender do sistema jurídico de cada país o reconhecimento ou não dessas patentes no futuro.

O senhor tem idéia do como está essa disputa entre as empresas privadas e os institutos de pesquisa pública?
EM – É muito difícil saber como está realmente essa corrida. Na semana passada, os cientistas envolvidos no projeto Genoma dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA anunciaram que eles esperam terminar na primavera no próximo ano (do Hemisfério Norte) o primeiro rascunho das sequëncias de todos os genes humanos. Antes desse anúncio, o prazo mais otimista para concluir esse trabalho era dezembro de 2001. Ninguém sabe se os cientistas estão exagerando em suas previsões, mas o fato é que os progressos nessa área não param de acontecer. Isso faz com que o Genoma Câncer da FAPESP tenha cada vez menos tempo para dar sua contribuição ao esforço global de mapeamento dos genes humanos.

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