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Humanidades

Laboratório vivo

Projeto leva adolescentes a resgatar a memória de bairro de São Paulo

Davi Lopes, 76 anos, morador no lugar desde que tinha 5 anos, lembra do tempo em que até onças e jaguatiricas chegavam perto de sua casa. “Tínhamos 12 cachorros perdigueiros para nos proteger”, recorda. Ele morava, então, com a família em uma pequena chácara. Aliás, as chácaras, áreas de pastagens e matas formavam a maior parte da paisagem do Jardim da Saúde, até a década de 30. Foi somente a partir dos meados daquela década que surgiram os primeiros loteamentos. Alcina Rodrigues Gomes Menezes, 85 anos, veio morar ali em 1940. “Na frente da minha casa, onde antes se via um bosque com árvores frutíferas, hoje se destaca uma praça.”

As lembranças de dona Alcina e de seu Davi poderiam estar perdidas, e com elas boa parte da história do lugar, se não fosse por um projeto inovador para o ensino público estadual de São Paulo. Durante dois anos, de abril de 1997 a abril de 1999, alunos e professores da Escola Estadual Raul Fonseca saíram às ruas e trabalharam nas salas de aula para resgatar a memória de seu bairro, o Jardim da Saúde, na capital de São Paulo, hoje com aproximadamente 146 mil habitantes. Para contar a sua história, os estudantes usaram cadernetas, gravadores, filmadoras, máquinas fotográficas e produziram textos, jornais, exposições, uma fita de vídeo e um CD-ROM. A opinião geral é a de que o esforço valeu a pena.

“Não somos mais os mesmos depois desse trabalho”, diz a professora de história Maria do Socorro Figueiredo, uma das participantes do projeto.Nem poderia ser de outra forma. O projeto, no começo visto com desconfiança por alunos, pais e mesmo por alguns professores, teve enorme impacto numa escola cujo curso noturno registrava enorme índice de evasão logo que os alunos conseguiam as carteirinhas para viajar de ônibus com desconto e cuja sala de computadores, com cinco aparelhos, vivia fechada porque poucos professores sabiam manejá-los e os alunos estavam proibidos de chegar perto dos equipamentos. Boa parte dessa atitude mudou. “Muitos alunos acham que estudar é só ficar sentado numa sala de aula, mas essa imagem mudou”, diz a aluna Ana Clara da Conceição, de 15 anos.

Os pesquisadores que participaram do projeto também estão satisfeitos. “A memória e sua recriação pedagógica são pontos de partida para a valorização da própria vida humana”, afirma oprofessor Luiz Roberto Alves, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), coordenador do projeto. “Transformada num valor cultural, a memória permite que a escola pense e entenda seu contexto”, acrescenta. O projeto, chamado A Escola:Centro de Memória e Produção de Conhecimento/Cultura , foi realizado com o apoio da FAPESP, dentro de seu Programa de Pesquisas Aplicadas sobre a Melhoria do Ensino Público no Estado de São Paulo.

Bagres e traíras
Os mal-entendidos surgidos no começo foram logo superados. “Algumas mães chegaram a me perguntar se seus filhos não iriam mais aprender história”, lembra a professora Maria do Socorro. Não durou muito, porém, para que as ligações fossem feitas e as coisas se estabelecessem. “Os moradores mais antigos lembravam sempre o início do bairro, quando boa parte da área estava coberta de mata virgem”, diz a professora. Seu Davi, por exemplo, lembra que ele e outros meninos costumavam pescar em lagoas da região. “Trazíamos traíras, bagres e lambaris”, recorda.

“Procuramos fazer com que os alunos localizassem as referências dos moradores antigos no tempo e no espaço”, informa a professora Maria do Socorro. Por exemplo, um morador antigo disse, certa vez, que “o doutor Getúlio” tinha passado por um lugar. Não demorou muito para que os alunos reconhecessem no personagem o presidente Getúlio Vargas, personagem de seus livros de história. Não foram só os alunos e os pais os influenciados. “Os avós se sentiram importantes, pois a escola foi até eles”, diz Maria do Socorro.

Os depoimentos e dados sobre a região vêm desde a primeira metade do século 20, quando o bairro começou a ser povoado por pessoas vindas de várias partes do Brasil e imigrantes portugueses, italianos e, posteriormente, japoneses. O nome do bairro vem do fato de ele estar numa região relativamente alta o que a tornaria, pelo menos em teoria, mais saudável do que outras partes da cidade de São Paulo.

Ovo e farinha
Na pesquisa, os alunos levantaram fatos pouco conhecidos, como o dia-a-dia das pessoas que trabalhavam no bairro, em chácaras para a produção de verduras, que eram levadas em carroças para o Mercado Municipal, na Cantareira. Era uma vida dura, na qual as pessoas trabalhavam do nascer ao pôr-do-sol. Mas o respeito ao descanso dos domingos e dias santos era sagrado. Às vezes, o pão, vindo de uma padaria no largo do Cambuci, não chegava ao bairro a tempo do café da manhã. Era substituído por uma massa de farinha de trigo, leite e ovos, frita como panqueca. Mais coisas foram surgindo. Os alunos descobriram, por exemplo, a nascente de um córrego, a Biquinha, que servia para manifestações de devoção religiosa. Restos de imagens ainda podem ser vistos ao seu redor.

Outro exemplo é um moinho de vento, usado para puxar água de um poço que servia a casa de uma família rica. O fato é pouco conhecido, mas o Jardim da Saúde tem obras importantes, como a Capela do Cristo Operário, na rua Vergueiro, com pinturas e vitrais de Alfredo Volpi e jardins projetados por Roberto Burle Marx. A capela serviu de palco para a criação de uma fábrica de móveis com autogestão dos trabalhadores. O projeto não deu certo e hoje mesmo as obras de Volpi estão ameaçadas pela deterioração. “A história e o significado dessa capela foram destacados pelo projeto e deveriam ser conhecidos por toda a comunidade de São Paulo, devido à sua importância cultural e mesmo política”, diz o professor Alves.

Novo currículo
O material que ia sendo recolhido pelos alunos foi trabalhado por eles e pelos professores das disciplinas de Português, História, Educação Artística (Teatro e Artes Plásticas), Geografia, Ciências e Matemática, de uma forma integrada. Esse material constou de fotografias antigas, cedidas pelos moradores, e atuais, produzidas pelos alunos; objetos; fatos históricos, casos, lendas, etc., ouvidos dos moradores e também pesquisados em bibliotecas e arquivos públicos. Os temas abordados iam da origem e evolução do bairro ao trabalho da mulher, passando pelas tradições e religiosidade. As informações foram sistematizadas em quatro blocos, correspondendo às áreas de conhecimento do currículo escolar: linguístico-literário, plástico-visual, histórico-documental e científico-tecnológico, este último relacionado com Matemática e Ciências.

“Trabalhar o tema memória dentro da educação é oferecer ao professor e ao aluno inúmeras possibilidades de estudos e pesquisas, é reconsiderar o ambiente em que se está inserido, dispensando-lhe um olhar mais íntimo e um tratamento mais carinhosos. Daí a estabelecer ligação com as várias ciências existentes no currículo escolar e no mundo”, escreveu a professora de Língua Portuguesa, Ivânia Leite Barros de Almeida, na revista que trata do projeto e de seus resultados. E ela exemplifica: a análise de um fotografia antiga de um caçador, com sua espingarda em um ambiente campestre, oferece inúmeras possibilidades de estudos, que vão do homem e o meio há quarenta anos, passando pelo relevo e vegetação há quarenta anos e atualmente, até a origem desse homem, sua profissão e nível de instrução.

No caso de Ciências, por exemplo, o ponto de partida para a integração da disciplina no projeto foi a discussão do tema “qualidade de vida” no bairro. Isto porque, segundo a professora Alessandra Bartalini, o Jardim da Saúde “formou-se por famílias que procuravam, nas imensas e tranqüilas áreas verdes, a cura dos problemas respiratórios apresentados por suas crianças”. Só que esse local sossegado e saudável foi sendo substituído pelos prédios, avenidas e trânsito. Fazer o paralelo entre o passado e o presente ou entre situações diferentes encontradas hoje no bairro – bolsões com ruas arborizadas e casas suntuosas contrastando com outros com favelas e córregos poluídos – foi o caminho encontrado pela professora para integrar sua disciplina ao projeto.

Resultados
Com o material recolhido pelos alunos, foram produzidos dois jornais; um caderno de pesquisas, de 154 páginas; exposição de fotografias com textos explicativos, o chamado Museu de Rua; um vídeo de 24 minutos, baseado nas histórias das vidas de moradores do bairro; e um CD-ROM com imagens, depoimentos e dados sobre a região. O uso de veículos diferentes não surgiu por acaso. “Isso abriu a possibilidade de fazer uma reflexão sobre as relações entre a mídia e a juventude”, diz o professor Alves. Os computadores tiveram papel importante nesse trabalho. “Reabrimos a sala de informática e preparamos os professores para o uso desse recurso”, informa Henry Alexandre Machado, aluno de biblioteconomia da USP e responsável pela preparação do CD-ROM.

Uma das experiências mais gratificantes para os organizadores do projeto foi pôr os alunos em contato com a Internet. Eles usaram o acesso para preparar trabalhos sobre a Bienal de Arte de São Paulo. Mas também tiveram chance de explorar a rede de acordo com seus próprios interesses. Entre os lugares mais procurados estiveram os sites do jogador de futebol Ronaldinho e de conjuntos musicais. “É fácil mexer com computadores”, constatou, por exemplo, o aluno Anderson Gonçalves Ferreira, de 17 anos.

O projeto foi mais além. Em diversas representações, os alunos dramatizaram as vidas dos primeiros moradores do bairro e mostraram, em trajes típicos, as diversas origens dos habitantes do Jardim da Saúde. Uma “festa do talento” deu oportunidade para que alguns deles mostrassem suas habilidades. Quando se levantou o problema da gravidez na adolescência, um grupo de médicos foi à escola debater a questão com os estudantes. “Muitos alunos se sentiram motivados porque as avaliações também levavam em conta conhecimentos que, antes, não eram valorizados”, diz a professora Maria do Socorro.

Uma prova do sucesso da experiência é o fato de a escola, mesmo depois da apresentação dos trabalhos finais, estar interessada em continuar o projeto. Seus resultados, por outro lado, podem servir para novas experiências. Para o professor Alves, o trabalho do Jardim da Saúde foi um piloto que poderá ser aproveitado por outras escolas da rede pública, transformando o trabalho com a memória numa atividade regular. “Até agora, vem existindo uma falta de comunicação entre a escola e seu entorno”, diz o professor da USP. “O trabalho nos mostrou como a memória comunitária é fundamental para a compreensão do processo de adaptação das pessoas à metrópole e para a criação das raízes da vida social.”

” A memória é a história viva e revivida.”

Felipe Augusto Santos Oliveira, 8ª série A
“Aqui estou eu olhando para você,Aí está você, querendo me ensinar.Não sei de nada,você sabe de tudo.Venha! Me ensine!Estou querendo aprender!Faço-me mil perguntas,todas sem respostas…Fale mais um pouco,estou gostando de te escutar.Conte outra história,diga o que era aqui, o que aconteceu.Estou querendo resgatara memória do meu bairro.Aí está você, a me contarmuitas e muitas histórias. Como você se chama? Acho que já sei: Projeto da Memória.”

“Este projeto ajudou na descobertade nossos antepassados. Acompreendermos a evolução do bairro.Através dele soubemos como viviam nossos avós e pais, de suas dificuldades e problemas contemporâneos.Algumas casas, praças, igrejas ainda permanecem firmes entre nós.Entrevistas e fotografias antigas contaram a nós, alunos, o começo do bairro. Sabemos hoje que o lugar mudou muito, mas que houve, nos bastidores, mulheres e homens com garra para viver e transformar, sonhar e realizar:nossos bisavós, avós, tios e vizinhos.Parabéns, Jardim da Saúde!Parabéns a sua gente!”

Joyce Cristina Rodrigues Maschi, 8ª série A
“Num lugar vazio construiu-se uma casa singela para gente honesta.No silêncio intenso, um simples barulhinho parecia grande ruído. Ao ouvirem uma moitase mexer, eles não faziam a pergunta que hoje é costumeira: será um ladrão? Acordava-se bem cedinho e ouvia-se o sininho da charrete do leiteiro, que trazia o leite fresquinho. Depois chegavam os pãezinhos bem quentinhos. Naquela época não havia clubes e sim cachoeiras e muitos peixinhos.Sinceramente, eu preferiaum sem modernização, a este, que é só destruição.”

Joana B. da Costa, 6ª série

Perfil:
Luiz Roberto Alves é professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Tem doutorado em Teoria Literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Estudou as relações entre a literatura e a cultura na Itália e em Israel. Sua experiência como professor de português em escolas públicas auxiliou o projeto. É autor de Culturas do Trabalho: Comunicação para Cidadania, publicado este ano pela Editora Alpharrabio.

Volpi
Um dos maiores nomes da pintura brasileira, Alfredo Volpi nasceu em Lucca, na Itália mas veio residir em São Paulo antes de completar 1 ano de idade. A maior parte de sua vida viveu no bairro do Cambuci. Aos 18 anos realizou sua primeira obra artística, mas foi somente a partir de 1951 que passou a dedicar-se exclusivamente à pintura – antes disso, trabalhara como encanador, entalhador e carpinteiro. No ano seguinte, recebeu o Prêmio Aquisição na Bienal de Veneza e no Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

As obras do pintor na Capela Cristo Operário datam aproximadamente de 1955, quando ela surgiu. Ali, na Rua Vergueiro, existia um antigo armazém de secos e molhados, transformado em capela pelo frade João Batista Pereira dos Santos. Ele mandou erguer uma torre e convidou artistas para criar as imagens e realizar as pinturas internas do templo. Um deles foi Volpi, que pintou os painéis Cristo Operário, A Sagrada Família e Santo Antônio Pregando aos Peixes, além de produzir quatro vitrais, mostrando os evangelistas.

A capela abriga ainda esculturas e painéis de outros artistas plásticos, todos necessitando restauração. O projeto paisagístico dos jardins da capela foi feito por Burle Marx. O projeto paisagístico original foi completamente alterado ao longo do tempo.

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