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Humanidades

Da fala à gramática

Pesquisa busca a relação entre ritmo e sintaxe nas mudanças que levaram ao português falado na Europa

É possível que a dúvida já lhe tenha ocorrido. Qual é a forma correta, Pedro viu-me ou Pedro me viu? Em Portugal, não se vacila. Em frases desse tipo, usa-se sempre Pedro viu-me , com ênclise, isto é, pronome depois do verbo. No Brasil, as duas formas são aceitáveis. Normalmente, porém, o brasileiro usa Pedro me viu , com o pronome antes do verbo. O interessante é saber que nem sempre foi assim. Na origem da fase documentada da língua portuguesa, no século 12, o normal era Pedro viu-me . No século 15, houve uma mudança e Pedro me viu tornou-se a preferida. No decorrer do século 19, porém, houve na Europa outra troca e a ênclise tornou-se a única opção.

Isso, naturalmente, não se deu por decreto. Na segunda metade do século 18, no período em que Portugal era governado pelo marquês de Pombal e seus cofres enriquecidos por grandes quantidades de ouro embarcadas no Brasil, ocorreu uma sensível mudança na prosódia, ou seja, na maneira como as palavras são pronunciadas, no português falado na Europa. Ainda não se sabe como e por que isso aconteceu. Mas o fato de se seguirem no tempo sugere uma relação de causa e efeito entre as mudanças prosódicas do século 18 e as sintáticas do século 19.

A construção de um modelo para mostrar a relação entre a prosódia e a sintaxe, nesse processo de mudança lingüística que levou ao português europeu moderno, é justamente um dos objetivos do projeto temático Padrões Rítmicos, Fixação de Parâmetros e Mudança Lingüística , financiado pela FAPESP. O projeto, iniciado em setembro de 1998, deve estender-se até 2002 e conta com a participação de uma equipe de lingüistas, matemáticos e especialistas em computação, sob a coordenação da professora Charlotte Galves, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Trabalhamos com a hipótese de que o português brasileiro seja muito próximo do português clássico em termos rítmicos”, explica a professora Galves, referindo-se como português clássico ao falado nos séculos 16 a 18. “Assim, os padrões prosódicos dos dois serão contrastados, como se fosse uma comparação entre o português clássico e o português europeu moderno”, acrescenta. Oprojeto não ficará só nisso. Entre seus resultados, está a preparação de umcorpus comparativo, com registros de falas das duas variantes da língua, e umcorpus anotado, morfológica e sintaticamente, com 2 milhões de palavras.

Comendo sílabas
Sabemos que ocorreu a grande mudança prosódica do fim do século 18 principalmente por meio dos comentários sobre apresentações teatrais e representações de sotaques que saíam nos jornais da época. Gonçalves Viana, um foneticista português do século 19, por exemplo, queixava-se de que os atores da época pronunciavam apenas sete ou oito sílabas das dez dos decassílabos de Camões. Eles simplesmente “comiam” as sílabas que vinham antes da tônica, as pré-tônicas.

Isso ocorre até hoje. Em Portugal, muitas vezes, as vogais pré-tônicas desaparecem por completo na fala. No Brasil, porém, elas são mantidas. “Esse é o aspecto mais saliente da mudança fonológica”, diz a professora Galves. “Nós o interpretamos como uma mudança rítmica, ou seja, uma mudança na maneira como as sílabas átonas se reagrupam com as sílabas tônicas”, prossegue.

Qual é a relação entre a pronúncia das vogais pré-tônicas e a sintaxe dos pronomes clíticos e por que a redução das primeiras afeta a colocação dos segundos? Isso é uma das grandes questões do projeto. Do ponto de vista do lingüista norte-americano Noam Chomsky, a gramática muda na aquisição quando, por por algum motivo, uma geração de crianças fixa um ou mais parâmetros de maneira diferente dos pais. Galves explica que muitos lingüistas hoje defendem que, na aquisição de sua língua materna, as crianças usam “pistas” prosódicas indicativas das estruturas subjacentes aos enunciados. Se a prosódia dos adultos muda, as “pistas” também mudarão, levando, eventualmente, as crianças a uma gramática diferente.

Entretanto, é difícil saber por que a prosódia mudou e, em decorrência, a gramática. Nos Sermões, por exemplo, o padre Antônio Vieira usa basicamente a ênclise na colocação dos pronomes. Outros autores da época e mesmo Vieira, em suas cartas, davam preferência à próclise. A lingüista portuguesa Ana Maria Martins, da Universidade de Lisboa, participante do projeto, considera Vieira, por isso, um pioneiro do português moderno. Para a professora Galves, não é bem assim. Vieira, em vez de olhar para o futuro, estaria voltando ao passado.

Ele seria, assim, um purista, talvez como maneira de se contrapor ao uso do castelhano, que ganhou terreno enquanto Portugal esteve sob o domínio da Espanha, de 1580 a 1640. “Na segunda metade do século 18, uma razão do mesmo tipo pode ter levado à adoção de uma maneira de falar que reforçou a tendência,  já existente na língua portuguesa, a reduzir as vogais átonas”, diz a pesquisadora da Unicamp. “Mas essa discussão é extralingüística e não há nenhuma evidência que possa indicar o porquê da mudança prosódica”, acrescenta.

Modelo matemático
A intenção mais ambiciosa do projeto é o que Galves chama, brincando, de “busca da prosódia perdida”. “Queremos criar um modelo que permita determinar a prosódia subjacente aos textos”, diz ela. Para isso, foi preciso sair dos limites da lingüística e criar um modelo matemático. Ele está sendo desenvolvido por Marzio Cassandro, da Universidade de Roma La Sapienza, Pierre Collet, do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França, e Roberto Fernández e Antonio Galves, da Universidade de São Paulo (USP), tendo como base amedida da probabilidade de Gibbs.

A medida da probabilidade de Gibbs governa a escolha da amostra de sentenças oferecidas à criança na aprendizagem da língua materna. Ela permite tratar de dois aspectos da relação entre sintaxe e prosódia: a restrição de caráter algébrico que diz quais são as configurações admissíveis, no caso, quais são as sentenças aceitas pela sintaxe materna, e o potencial da atuação da prosódia para a escolha das sentenças mais eufônicas entre as admissíveis. Para especificar o potencial, é preciso analisar os contornos acentuais das duas variantes da língua.Um algoritmo com esse objetivo está sendo montado por Pierre Collet, do CNRS, e Arnaldo Mendel, da USP.

Perfil
A professora Charlotte Galves, de 48 anos, é autora de vários estudos comparando o português falado no Brasil e o usado em Portugal. Professora do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desde 1985, tem doutorado de Linguística Portuguêsa, obtido na Universidade de Paris.

Base Teórica

O projeto temático Padrões Rítmicos, Fixação de Parâmetros e Mudança Lingüística , da professora Charlotte Galves, tem como quadro teórico o Modelo de Princípios e Parâmetros, originalmente proposto pelo lingüista norte-americano Noam Chomsky, do Massachusetts Institute of  Technology (MIT) e desenvolvido com ele por muitos pesquisadores em vários países. Nesse modelo há a distinção entre a Linguagem Interna, ou seja, a competência lingüística, existente na mente, da Linguagem Externa, ou seja, todas as manifestações lingüísticas produzidas pela pessoa.

As gramáticas específicas são obtidas pela fixação de valores para certos parâmetros deixados inespecificados pela Gramática Universal, isto é, a capacidade da linguagem inata à espécie humana. A partir disso, duas gramáticas – ou duas Linguagens Internas – são diferentes se possuem no mínimo um parâmetro estabelecido de maneira diferente, como acontece com o português europeu moderno e o clássico em relação à colocação dos clíticos e outros fenômenos da ordem.

Os valores dos parâmetros são fixados por um indivíduo durante seu processo de aquisição de uma língua quando criança. A mudança de um parâmetro, porém, representa um rompimento tão profundo que não se dá durante o tempo de vida de uma pessoa. Por isso, os lingüistas consideram que a mudança gramatical aconteça durante a aquisição de uma língua e corresponda à fixação de um valor paramétrico de forma diferente do que vigorava na geração anterior.

O professor Anthony Kroch, da Universidade da Pennsylvania, dos Estados Unidos, outro participante do projeto, defende a tese de que, quando as variações começam a aparecer nos textos escritos, a Linguagem Interna dos autores já está modificada. Mas, como a linguagem escrita é mais conservadora do que a falada, os textos continuam a mostrar vestígios da antiga gramática, refletindo “gramáticas em competição”.

Quarenta textos na Internet

Um componente fundamental do projeto é o “Corpus Anotado do Português Histórico Tycho Brahe”, constituído de textos de autores portugueses nascidos entre 1550 e 1850. Serão 40 textos de 50 mil palavras cada. Os dez primeiros textos, num total de 500 mil palavras, devem estar disponíveis neste mês de agosto. No final do projeto, em 2002, estarão reunidos todos os textos, com 2 milhões de palavras.

O nome do astrônomo dinamarquês Brahe, nascido em 1546 e morto em 1601, foi escolhido por ter sido ele o primeiro a fazer uma anotação sistemática do movimento dos planetas Cada texto será apresentado em três versões: a íntegra, com editoração especial, como, por exemplo, a abertura de todas as abreviaturas; o texto com cada palavra sendo acompanhada de “etiquetas” (códigos) que a especificam morfologicamente; e o texto com as etiquetas morfológicas e análise sintática.

Para as anotações morfológicas e sintáticas, estão sendo desenvolvidos dois programas similares aos utilizados no “Penn-Helsinki Parsed Corpus of  Middle English”, liderado por Anthony Kroch, da Universidade da Pennsylvania, dos Estados Unidos. Essa adaptação é coordenada por Marcelo Finger, do Instituto de Matemática e Estatística da USP. A coordenação dos aspectos lingüísticos da adaptação e da revisão da análise automática é de Ilza Ribeiro, da Unifacs, da Bahia, e de Charlotte Galves e Helena Britto, da Unicamp. O corpus conta com a assessoria filológica de Ivo Castro e Ana Maria Martins, da Universidade de Lisboa.

O corpus estará no site do projeto (www.ime.usp.br/~tycho). Isso permitirá o exame dos dados e seu uso em outras pesquisas pela comunidade científica. “Tudo o que está sendo feito na montagem do corpus histórico estabelecerá uma metodologia reutilizável em outros períodos e variantes da língua portuguesa, em particular o português brasileiro”, diz a professora Galves.

Um banco de dados com gravações de falas do português brasileiro e do português europeu constituirá um corpus comparativo entre os ritmos das duas variantes da língua. Esse corpus será construído de forma a também fornecer evidências para a conjectura de que, dentro dos limites das restrições impostas pela gramática da língua e dada uma situação discursiva, escolhas lexicais e morfossintáticas são impulsionadas pela implementação de padrões rítmicos.

A modelagem dos padrões rítmicos está sendo desenvolvida por Maria Bernadete Abaurre, Filomena Sândalo e Ricardo Figueiredo, da Unicamp; Sônia Frota, da Universidade de Lisboa; Marina Vigário, da Universidade do Minho, em Portugal; e Philippe Martin, da Universidade de Toronto, no Canadá.

 

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