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AMBIENTE

Impactos irreversíveis do desmatamento

Mata recuperada absorve menos gás carbônico do que até agora se pensava

06O gás carbônico retirado da atmosfera pela recuperação natural de áreas desmatadas para a formação de pastagens e culturas agrícolas na Amazônia representa apenas uma fração modesta das emissões devidas ao desmatamento, ao contrário do que se pensava. É o que mostra pesquisa realizada por uma equipe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em Rondônia. Essas conclusões podem alterar a ênfase de pesquisas relacionadas com desmatamento e emissões de gases do efeito estufa, já que o desmatamento é considerado uma das principais fontes brutas desses gases e tanto emissões como seqüestro de carbono nas áreas abandonadas interessam aos cientistas.

“Num primeiro momento, a descoberta nos incomodou”, afirma Diógenes Salas Alves, pesquisador do Inpe e coordenador da pesquisa, que usou técnicas de sensoriamento remoto e trabalhos de campo numa área de 35 mil quilômetros quadrados, próxima aos municípios de Ji-Paraná, Machadinho do Oeste e Ariquemes. “Parecia que toda uma linha de pesquisa estava condenada a desaparecer.” No entanto, o projeto permitiu obter resultados sobre o balanço de carbono e sobre o processo de desmatamento propriamente dito.

A destruição das florestas, especialmente na região tropical, é considerada um dos fatores que levam ao aumento do efeito estufa, juntamente com as emissões de gás carbônico provenientes da queima do petróleo e do carvão. Estimativas anteriores indicavam que as áreas de abandono podiam representar até metade das áreas derrubadas, motivando investigações do papel dessas áreas no balanço do carbono.

Os resultados da pesquisa do Inpe devem levar a uma atitude mais conservadora sobre o papel das áreas abandonadas no balanço do carbono. Por outro lado, ajudarão a elaborar uma estimativa mais precisa sobre a quantidade de gás carbônico liberada pelas atividades humanas para a atmosfera, calculada entre 7 e 8 bilhões de toneladas por ano. Assim, será possível elaborar modelos físico-matemáticos mais próximos da realidade. E, dessa maneira, juntar dados mais concretos ao quebra-cabeça em que se transformou a compreensão do mecanismo do efeito estufa, em escala planetária.

Índice variável
O trabalho, cuja última etapa começou em 1995 e terminou no ano passado, já levou a duas teses de mestrado. Os dados obtidos com a conclusão da última etapa estão sendo tratados agora, de acordo com Alves, em mais uma tese de doutorado e uma de mestrado. A pesquisa recebeu o nome de Análise da Dinâmica do Uso da Terra na Região de Ji-Paraná, RO, e sua Relação com o Ciclo do Carbono. Um investimento de R$ 38 mil da FAPESP colaborou para sua realização. Uma conclusão importante da pesquisa é que a intensidade do uso da terra antes do abandono influencia mais a velocidade da regeneração do que outros fatores, como a diversidade climática.

Terras ocupadas com pastagens e que sofreram pisoteio excessivo, ou seja, tiveram uma superlotação de animais, mostram uma recuperação bem mais lenta que as abandonadas depois de pouco uso. Há outros fatores que influenciam a situação. Há casos em que foram preservadas manchas de bosque no interior das áreas desmatadas. Nesse caso, a recuperação caminha melhor e, com mais vegetação, o seqüestro de gás carbônico aumenta. Outros fatores importantes são a disponibilidade de sementes nas áreas que foram deixadas intactas em redor do terreno desmatado e a capacidade de rebrota das raízes que permaneceram no solo, mesmo durante o aproveitamento econômico.

Projeto de ocupação
Isso é importante porque o desmatamento da Amazônia está crescendo em ritmo acelerado. De acordo com Alves, a Amazônia Legal, com 5 milhões de quilômetros quadrados, cobrindo áreas de Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, tinha menos de 10 milhões de hectares desmatados na década de 1970. Houve um enorme aumento, para 38 milhões de hectares, em 1988. E o desmatamento continua. Em 1997, o total tinha saltado para 53 milhões de hectares.

Alves diz que a derrubada das florestas está intimamente ligada a um projeto de ocupação da Amazônia posto em prática na década de 70, em que estradas pretendiam integrar a Amazônia ao resto do País, acelerando o estabelecimento de grandes pecuaristas e pequenos agricultores na região. O pesquisador lembra que partes do Estado do Paraná chegaram a perder população na década de 70, quando muita gente partiu para tentar a sorte nas fronteiras agrícolas. Chegando ao terreno, uma das primeiras atividades do agricultor era derrubar a mata. O próximo passo era tentar ganhar a vida, com o plantio ou a criação de gado. Nem todos deram certo. Algumas áreas foram abandonadas e estão sendo retomadas pela mata. São esses terrenos os estudados pelo grupo do Inpe.

Os estudos da equipe do Inpe confirmaram tendências já registradas anteriormente. Por exemplo, está claro que as áreas desflorestadas acompanham as estradas abertas na região. Com a abertura de ramais a partir das principais estradas, vão sendo formados desenhos em forma de espinha de peixe. Isso cria pontos com altos índices de desmatamento, com um forte impacto no ecossistema local, enquanto áreas mais distantes permanecem inalteradas.

Alves calcula que 95% de todas as áreas desmatadas estão concentradas em apenas 40% da Amazônia Legal. A tendência é que o desmatamento cresça ao longo dos corredores das estradas e como expansão das áreas pioneiras. Os dados levantados pela equipe do Inpe mostram que 86% dos desmatamentos mais recentes estão no máximo a 25 quilômetros das áreas de abertura pioneiras, que começaram a ser ocupadas economicamente por volta de 1978.

Corredores de estradas
O grupo do Inpe identificou três corredores formados pelas estradas da região. Uma rede, mais a oeste, é formada pela rodovia Cuiabá-Porto Velho-Rio Branco, a BR-364, e por trechos formados pelas rodovias BR-174 e BR-070. A rede leste é criada pelas estradas do leste de Mato Grosso e do Pará e por rodovias do Maranhão e Tocantins, como BR-010, BR-153 e PA-150. A rede central é formada pela BR-163, a Cuiabá-Santarém, e pela BR-230, a Transamazônica, além de diversas estradas que saem como ramais da BR-163 para pontos do norte de Mato Grosso.

Os trabalhos do Inpe estimam que foram desmatados, entre 1991 e 1996, cerca de 9,1 milhões de hectares na Amazônia Legal. Desse total, 37% ocorreram em Mato Grosso, 29% no Pará, 16% em Rondônia, 5% no Maranhão e no Amazonas, 3,3% no Acre, 2,4% em Tocantins e 1,3% em Roraima.

Efeito estufa
A semelhança do processo de ocupação de Rondônia com o de outras áreas veio em auxílio dos pesquisadores. “O trabalho agora concluído em Rondônia, revelando uma absorção de carbono menor que a prevista em modelos anteriores, permite a extrapolação de dados para todas as regiões desmatadas em processo de recuperação natural”, diz Alves. Uma melhor compreensão do impacto do desmatamento e do abandono sobre o balanço de carbono contribui para melhorar nosso entendimento sobre o efeito estufa.

Os registros históricos mostram que a temperatura média do globo aumentou cerca de 0,6 grau Celsius nos últimos 150 anos. Os climatologistas estão divididos sobre a origem desse aquecimento. Uma parcela crescente de pesquisadores atribui esse aumento à ação do homem. Alguns, no entanto, afirmam que dados ainda pouco conhecidos também devem ser levados em conta. Entre esses dados estariam variações na radiação solar e a ação de gases e cinzas expelidos por atividades vulcânicas na atmosfera. A elevação nas temperaturas médias poderia já estar produzindo degelos nos cumes das montanhas mais altas e um aumento da formação de icebergs, especialmente na Antártica.

Período e finalidade
Algumas lacunas permanecem. Entre elas, as relações entre o período e a finalidade do uso das terras desmatadas e o seu padrão de recuperação. Esse problema é muito claro em Rondônia, um dos Estados que tiveram maior impacto proveniente da ocupação humana num curto período de tempo. O Estado tem uma área de 234.800 quilômetros quadrados. A área desmatada saltou de 4.200 quilômetros quadrados, em 1978, para 34.600 quilômetros quadrados, em 1991. Esse total inclui a devastação de florestas, excluídas as áreas de cerrado. A forma predominante do uso da terra é o pasto. As culturas, perenes ou anuais, ocupam, segundo o IBGE, cerca de 7.000 quilômetros quadrados.

Poucos estudos
“Como área de ocupação recente, Rondônia tem sido pouco estudada”, afirma o pesquisador. O ponto de partida para as estimativas, tanto em Rondônia como em outras partes da Amazônia, é a série de dados coletada pelo projeto Radambrasil, na década de 70. Esses dados foram aumentados com o trabalho de sensoriamento remoto, feito pelo satélite Landsat, e numa escala de maior detalhe com o trabalho de campo feito pela equipe do Inpe. Esse trabalho incluiu entrevistas com os donos dos terrenos, tentando achar elementos como o período em que as áreas foram usadas e o tempo em que estão abandonadas, permitindo a recuperação da cobertura natural.

Alves chama a atenção para a relação entre as áreas de desmatamento mais intenso e a rede de estradas. “Isso é uma indicação de que regiões mais fortemente ligadas aos processos econômico e social em escala nacional estão sujeitas a maiores pressões para a abertura de áreas em florestas naturais”, sublinha. Isso, acrescenta, deve ser levado em conta na formulação de políticas governamentais. “O Programa Brasil em Ação prevê uma significativa ampliação da rede viária já existente e de sua infra-estrutura”, lembra.

A ocupação humana começou a crescer em Rondônia na década de 70, depois da abertura da BR-364, vinda de Cuiabá, e do estabelecimento de assentamentos pioneiros. A colonização de áreas mais distantes, como Machadinho d’Oeste, na área da pesquisa, começou no início da década de 80. Nas áreas distantes até 12,5 quilômetros da BR-364, as áreas de florestas remanescentes eram inferiores a 20% em 1995. Um quadro similar foi encontrado nas áreas próximas às três principais estradas da região, mostrando que a retirada das florestas superou os limites legais de 50% à época. As culturas perenes mais presentes na área são o café e o cacau. Entre as anuais, o milho, o arroz e o feijão. As áreas de recuperação natural abrangidas pelo estudo foram abandonadas por diversos motivos, como a queda dos preços de mercado de vários produtos agrícolas e a falta de capitais.

O resultado do estudo, indicando que mesmo as áreas devolvidas à floresta absorvem uma fração modesta do carbono emitido no desmatamento, questiona um modelo de ocupação da Amazônia que, segundo Alves, passou por Getúlio Vargas, ganhou uma nova dimensão com Juscelino Kubitschek e foi posto em prática pelo regime militar. “Esses projetos não levaram em conta a dimensão social da transferência de populações e nem poderiam considerar o processo de liberação de gás carbônico produzido pelo corte de florestas”, afirma.

Finalmente, a redução importante das florestas nas áreas próximas às estradas leva a que essas regiões sofram mais alguns dos impactos do desmatamento, em particular aqueles relacionados à fragmentação elevada e à perda de espécies nessas áreas. Realmente, o efeito estufa provocado pelo dióxido de carbono foi descrito pela primeira vez em 1863 pelo britânico John Tyndall, em artigo publicado na Philosophical Magazine.

Em 1896, o cientista sueco Svante Arrhenius também chamou a atenção sobre o assunto. As preocupações cresceram na década de 60, quando observatórios situados mesmo em áreas distantes das atividades humanas, como Mauna Loa, no Havaí, e na Antártica, detectaram um aumento da presença de dióxido de carbono na atmosfera. E atingiram um ponto ainda mais alto na década de 70, quando se descobriu o papel destruidor dos CFCs sobre a camada de ozônio.

Barreira ao acesso
“A mentalidade que vem desde o descobrimento, de ver as florestas como uma barreira ao acesso para o interior, ainda não foi alterada”, afirma Alves. “Projetos convencionais, como os de assentamento de pequenos agricultores e os de estabelecimento de grandes áreas de pecuária, incorrem em práticas que se traduzem na destruição das florestas”, acrescenta.

O impacto da destruição das florestas, prossegue o pesquisador, não deve ser medido somente em termos de um aumento na carga de gás carbônico na atmosfera. Ele também afeta os recursos naturais representados pela fauna e pela flora e tem um impacto significativo sobre os rios e os recursos hídricos em geral, assim como sobre o clima.

Para mudar isso, será necessária uma ação envolvendo todos os interessados. Mas essa união não parece estar próxima. “No Brasil”, diz o pesquisador, “empresários e ambientalistas ainda não falam a mesma linguagem quando se trata de estabelecer critérios. Os grupos de pressão, freqüentemente, é que fazem valer suas pretensões”.

Perfil
Diógenes Salas Alves
tem 43 anos e é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desde 1987. Formou-se em Engenharia da Computação e Matemática Aplicada pelo Instituto Eletrônico de São Petersburgo, na Rússia, com pós-graduação na Universidade Pierre et Marie Curie (Paris-6), na França, e na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Projeto
Análise da Dinâmica do Uso da Terra na Região de Ji-Paraná, RO, e sua Relação com o Ciclo do Carbono
Investimento
R$ 38.075,00