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ZOOLOGIA

Peixes do século passado

Pesquisadora resgata desenhos inéditos do inglês Alfred Wallace

Quase cem anos depois, uma carta chega ao devido destino. Em 1904, o naturalista inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913) escreveu a George Albert Boulenger, curador de répteis e peixes do Museu de História Natural de Londres. Perguntava se a instituição teria interesse em abrigar a coleção de 212 gravuras de peixes que havia feito ao longo de sua expedição pela Bacia do Rio Negro, na Amazônia, entre 1850 e 1852. Ao despedir-se, perguntava se “não haveria um estudante disponível, disposto a organizar um catálogo sobre as ilustrações”.

O material foi aceito pelo Museu de História Natural e um ano depois outro curador, Charles Tate Regan, publicou uma lista onde identificou cerca de metade das espécies ilustradas. Mas o desejo de publicar as ilustrações não pôde ser atendido. Em fevereiro do ano passado, a carta chegou às mãos da bióloga paulista Mônica de Toledo-Piza Ragazzo, pesquisadora de 35 anos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP). Ela agora providencia a identificação dos peixes e prepara um catálogo completo com as 212 gravuras, das quais pelo menos 180 são inéditas, que constituem uma pequena amostra da diversidade de peixes da Amazônia.

O livro com os desenhos e a carta deve ser publicado no início do próximo ano pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), com apoio da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp). Autodidata, Wallace foi um dos primeiros naturalistas a percorrer a região do Rio Uaupés, um afluente do Rio Negro só explorado novamente muitos anos depois. As observações que fez durante a viagem pela Amazônia contribuíram para a formulação das idéias sobre evolução, depois apresentadas em co-autoria com o inglês Charles Darwin (1809-1882). Wallace chegou a Belém em 1848 acompanhado pelo seu amigo e também naturalista Henry Walter Bates (1825-1892).

Percorreram juntos o Rio Amazonas até 1850, quando Wallace preferiu seguir sozinho pelo Rio Negro.As plantas e os animais coletados na Amazônia que Wallace levava à Inglaterra perderam-se quando o navio Helen se incendiou e naufragou, três semanas após deixar a costa brasileira. As gravuras de peixes e de palmeiras e anotações da viagem foram o que ele pôde salvar. Em 1853, um ano depois de retornar a Londres, publicou A Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro , traduzido em 1979 pela Edusp. Em 1854, seguiu para a Malásia, onde ficou durante oito anos.

Riqueza de detalhes
Em 1994, Mônica fazia o doutoramento na City University e no Museu de História Natural, em Nova York, quando, ao selecionar a bibliografia que sustentaria seu trabalho, tomou conhecimento da publicação de Regan que citava duas espécies do grupo de peixes que estava estudando, a subfamília Cynodontinae, chamados peixes-cachorro, com três gêneros e oito espécies, da ordem Characiformes, que inclui também piranhas e lambaris.

Em julho de 1995, Mônica viajou a Londres para examinar o material da coleção de peixes do Museu de História Natural. Aproveitou para ver as gravuras de Wallace. Ficou impressionada com a riqueza de detalhes dos desenhos, feitos a lápis, em três tipos diferentes de papel, com cerca de 15 centímetros de largura por 5 de altura. Entre as gravuras de Cynodontinae havia uma espécie nova que ela estava descrevendo e chamou de Hydrolycus wallacei , em homenagem ao naturalista.

Atribulada para concluir o doutoramento, Mônica não pôde, na época, ater-se às gravuras. Mas não as esquecera. Em 1998, enviou um projeto ao Museu de Londres prontificando-se a organizar o acervo e resgatar o trabalho de Wallace. Proposta aceita, voltou a Londres, com um apoio da FAPESP para passagens e estadia, no valor de US$ 3.841,00, e pôs-se a pesquisar a história das gravuras e cuidar da identificação das espécies retratadas nos desenhos, para a posterior publicação de um catálogo. Foi nessa viagem que descobriu o texto em que o pesquisador inglês expressava seu desejo de ver as gravuras publicadas. “Lendo a carta, fiquei emocionada por saber que Wallace não só aprovaria o catálogo, como na verdade estava à espera de alguém que realizasse sua vontade”, diz ela.

Para montar o catálogo, a pesquisadora examinou os relatos da viagem e as anotações do naturalista inglês, com as características morfológicas e as localidades de coleta da maioria das espécies dos peixes ilustrados. “Wallace era muito minucioso e os desenhos muito fiéis, mesmo ele não sendo um especialista”, diz a pesquisadora. Contou também com a vasta coleção de espécies amazônicas depositadas no Museu de Zoologia da USP.

Após identificar as espécies, Mônica enviou cópia das gravuras, para confirmação, aos especialistas dos diferentes grupos de peixes de água doce da América do Sul, que trabalham em instituições de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, além de museus da Suécia, Estados Unidos e França. Desse modo, a pesquisadora está atualizando o trabalho de Regan, que havia trabalhado com a coleção no início do século. “Ainda hoje nosso conhecimento é insuficiente para identificar todas as espécies ilustradas”, diz a pesquisadora. Outra dificuldade é que as gravuras nem sempre contêm os elementos necessários para chegar a uma conclusão satisfatória.

Agora, com quase todas as espécies identificadas, pelo menos até gênero, ela comprova que há cerca de 190 espécies diferentes. Cerca de 40 das espécies foram formalmente descritas somente depois do retorno de Wallace a Londres, das quais metade somente nas últimas décadas. Algumas das ilustrações representam espécies novas, ainda não estudadas.

Há um detalhe: as gravuras estão todas numeradas, de 1 a 215, mas não numa ordem cronológica completa. Mônica procura descobrir o critério que as organiza. “Wallace aparentemente não deixou qualquer indício do motivo da numeração”, diz ela. Faltam as gravuras de número 10 a 14, 53 e 210. Outras estão numeradas duas vezes. Mesmo com as dúvidas, a coleção e as anotações reiteram o valor das observações de Wallace sobre a diversidade e a distribuição das espécies, que certamente influenciaram no desenvolvimento das idéias sobre a evolução das espécies. Darwin, ao publicar A Origem das Espécies , em 1859, recebeu a maior parte dos créditos sobre a formulação dessa teoria. Não deixou, porém, de reconhecer as descobertas de Wallace.

PERFIL:
Mônica de Toledo-Piza Ragazzo
é graduada em Biologia pela USP, com doutoramento pela City University/Museu de História Natural, em Nova York. É pós-doutoranda do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.
Projeto :Peixes do Rio Negro – Alfred Russel Wallace
Investimento : US$ 3.841

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