HUMANIDADES

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Estratégias para manter o casamento

Estudo mostra como mulheres lidam com o cotidiano do matrimônio

ED. 59 | NOVEMBRO 2000

 

“Até que a morte os separe.” O efeito simbólico dessa frase, ouvida por milhões de casais em boa parte do mundo durante a cerimônia religiosa de casamento, costuma ecoar sobre o homem ou a mulher quando a união está ruindo ou quando o que resta da ilusão matrimonial é mantido a duras penas. É compreensível. Presume-se que a intenção da maioria ao assumir um compromisso como esse é ser feliz por longos anos. Embora já vá longe o tempo em que os casais mantinham o casamento mesmo que não restasse mais nada entre eles senão os hábitos, os filhos para criar, os netos para curtir ou contas a acertar, também é verdade que grande número de casais prefere continuar como está.

Homem e mulher continuam utilizando recursos diversos para manter a casa em pé: são estratégias diretas, indiretas, um jeito particular de se esquivar ao diálogo, optar pelo silêncio, esperar pela melhor oportunidade de abordar certo assunto e, assim, atingir seu objetivo sem traumas. Para entender os estratagemas adotados por mulheres que se mantêm casadas durante 15 anos ou mais, as pesquisadoras Maria Lúcia Teixeria Garcia e Eda Terezinha de Oliveira Tassara decidiram investir num projeto que interessa a todos que são casados.

Por três anos, elas trabalharam no projeto Da Utopia do Amor Romântico ao Cotidiano do Casamento. Lúcia é assistente social e professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e Eda, co-autora e coordenadora científica do projeto, é doutora em Psicologia e docente do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de São Paulo (USP). Uma das conseqüências do trabalho das duas é a tese de doutorado de Lúcia, Problemas no Casamento: a Presença Utópica do Amor Romântico, que será defendida em fevereiro na USP.

A pesquisa de Eda e da Lúcia Garcia começou em 1997 e terminou em junho deste ano. A FAPESP financiou computador, impressora, a transcrição do material e programas de computador. O trabalho foi desenvolvido a partir de entrevistas com mulheres das classes média e alta da região da Grande Vitória, Espírito Santo. “As histórias narradas possuem um início, um meio e uma projeção de futuro – avaliada como potencialmente boa ou ruim – em função da aproximação ou distanciamento do projeto de convivência conjugal”, diz Eda, casada há 40 anos. “Tais avaliações dizem respeito a expectativas e aspirações das entrevistadas que podem diferir ou não das análises feitas por seus cônjuges. Para algumas, a discrepância na avaliação da convivência conjugal foi um dado destacado por elas, o que fazia com que aquilo que indicavam como inadequado para elas não o fosse necessariamente para seus parceiros.”

Como avaliação geral pode-se dizer que, para as mulheres felizes e satisfeitas com o casamento, não há por que romper com um vínculo avaliado como adequado às suas expectativas. Entre as mulheres felizes, mas insatisfeitas com a relação conjugal, a separação se coloca como ameaça, embora, ao mesmo tempo, projetem alternativas de superação das dificuldades vividas. Entre as mulheres infelizes, a separação é vista como alternativa, mas evitada por elas ao avaliar os possíveis impactos sobre sua identidade.

Caminhos e estratégias
Não foi a primeira vez que o casamento despertou o interesse de Maria Lúcia. Casada há 14 anos, havia desenvolvido um trabalho de dissertação de mestrado na área de dependência química no Programa de Atendimento ao Alcoolista do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes, em Vitória. Na ocasião, em 1995, pesquisou o significado do casamento entre mulheres que viviam uma relação de conflito em razão do consumo abusivo de álcool por seus parceiros.

Conversou com mulheres de renda familiar baixa que evidenciaram dois problemas principais: o da questão material, de sobrevivência, e o de saúde, vivido pelo companheiro e cuja busca da solução podia contar com a ajuda da companheira. A pesquisadora conferiu que, embora o número de casos de divórcios fosse significativo nesse grupo, o uso do álcool não significava, a rigor, que essas pessoas ficassem sós. Portanto, a questão da premissa da separação existia anteriormente à relação e a pergunta não era respondida: o que se constituía realmente em problema no casamento para as mulheres?

Era natural que Lúcia voltasse ao tema e buscasse um caminho para descobrir as estratégias adotadas pelas mulheres para manter e lidar com o casamento. “Ao definir como temática de investigação o casamento, uma das ramificações possíveis do assunto com o qual vinha trabalhando até então, tive um misto de alegria e surpresa com o interesse que minha escolha causava nas pessoas”, conta a pesquisadora. Em todos os segmentos sociais nos quais ela transitava sempre aparecia alguém com informações sobre uma “história interessante” de algum casal amigo. “Evidenciava-se, com isso, a reflexividade do tema, na medida em que falar, pensar, viver ou planejar manter uma relação afetivo-sexual faz parte da biografia de uma boa parte da população.”

Moradora de Vitória, ela preferiu se basear em exemplos extraídos da região por dois motivos: o crescimento populacional acelerado a partir da década de 70, em razão da instalação de empresas do ramo siderúrgico, e a composição da população da Grande Vitória, integrada por gente vinda de Minas Gerais, São Paulo e do Rio de Janeiro. O projeto Da Utopia do Amor Romântico ao Cotidiano do Casamento nasceu a partir de um universo multifacetado. Foram escolhidas 20 mulheres, com idade média de 48 anos (mínima de 35 e máxima de 56), tempo médio de casamento de 24 anos (mínimo de 15 e máximo de 34). Já nessa fase, elas foram inseridas nas categorias de “casamento feliz” ou “casamento infeliz”, depois analisadas conforme a auto-avaliação de cada uma.

A escolha do universo feminino obedeceu ao seguinte critério: o tempo de casamento mínimo (15 anos) garante que o casal tenha ultrapassado os primeiros dez anos de vida conjugal, período caracterizado pelo delineamento da identidade do casal e que envolve o estabelecimento de regras que nortearão a vida conjugal. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para Vitória indicam que há maior probabilidade de separação no período compreendido entre quatro e nove anos de casadas. As mulheres, cujas identidades foram preservadas, passaram por uma média de três a quatro entrevistas semi-estruturadas, gravadas, abordando a história do casamento – desde o namoro, o início da união, o momento atual e a projeção para o futuro. Depois, receberam cópias de suas entrevistas e, ao iniciar uma nova entrevista, o pesquisador pode verificar se os textos haviam sido lidos e qual impacto causaram à autora.

Os dados obtidos foram importantes para a pesquisa e seu detalhamento, mas chegar a eles significou superar barreiras básicas, como manter os encontros preestabelecidos com integrantes do grupo e garantir o número de mulheres inicialmente proposto para o estudo. “Das 30 mulheres, conseguimos entrevistar 20. Por envolver entre três e quatro encontros, muitas alegavam falta de tempo para participar ou ainda falta de vontade de falar sobre seus casamentos”, diz Lúcia Garcia. A metodologia envolvia uma seqüência de encontros intermediados pela leitura que essas mulheres faziam do texto produzido por elas no encontro anterior. As histórias foram obtidas paulatinamente. “Os vários encontros permitiram uma proximidade crescente entre entrevistada e entrevistadora”, afirma a pesquisadora. “Também definiu-se um processo reflexivo no qual as contradições eram explicitadas pelas entrevistadas e se tornavam alvo de novas reflexões.” Outra coisa: concluiu-se que as entrevistadas escolheram criteriosamente os fatos a serem narrados, de modo que a manutenção de seu casamento fosse justificada.

À medida que o material fornecido pelo grupo foi estudado, chegou-se a alguns indicadores importantes. Por exemplo, para oito entrevistadas prevalecia a estratégia direta como forma de tratar assuntos importantes ou delicados no casamento; quatro mulheres usavam a estratégia indireta; oito lançavam mão do uso combinado de estratégias diretas e indiretas. Já os maridos, 13 deles utilizavam estratégias diretas e dois a dobradinha direta/indireta. E ainda, em cinco casos, revelou-se o uso da estratégia indireta – principalmente o silêncio ou o adiamento da busca de solução para algo que perturba o relacionamento do casal.

Lamúrias e problemas
Como nada é simples quando se fala em relações de amor/parceria/casamento, da correlação dos dados levantados chegou-se a diversos modos de agir. Por exemplo, mulheres que avaliam negativamente seu casamento demonstram que ocorreu uma quebra naquele almejado e romântico projeto inicial e usam estratégias indiretas de abordagem, muitas vezes evitando ou fugindo do diálogo. É como se dissessem “não adianta, não vai mudar” ou “ele não vai se comportar como desejo.” Uma das entrevistadas mostrou que havia entre o casal uma comunicação calcada em lamúrias, ao mesmo tempo em que um não informava ao outro, adequadamente, os problemas existentes. Outra vivia aparentemente bem, mas expressou da seguinte maneira sua insatisfação: “Estávamos sempre juntos, mas não compartilhávamos nada, a não ser a casa, até que em determinado momento eu falei: ‘A gente não conversa, a gente não sai um com o outro’. E ele: ‘Talvez por isso estejamos juntos há tanto tempo’.”

As mulheres que dizem ser felizes também se dividem em dois tipos. Há as que não identificam problemas de relação ou que associam os problemas apenas a pequenas questões do cotidiano (“o controle remoto”, “o ronco”, “o ar-condicionado”, “o temperamento dele”). No outro grupo está a mulher que enxerga o problema, vive um conjunto deles e ainda assim afirma (ou acredita) que todos são gerenciáveis. “Eu acho que quando se conhece as pessoas com quem está se relacionando, que você quer que dê certo aquilo que está construindo, vamos ajeitando as coisas”, diz outra mulher.

São vários os tipos de relacionamentos e formas de abordagem ou não-abordagem. Há quem se diga feliz com o casamento, porém insatisfeita com o relacionamento. Nesse caso, o hábito (ou a estratégia) pode ser abordar as questões sem dar a entender ao outro tal insatisfação. Uma conseqüência é que, quando a mulher atinge o alvo (mudar o comportamento do parceiro), atribui o crédito ao outro e não a si. Veja o depoimento de mais uma mulher: “Eu gosto das coisas em pratos limpos logo, mas nem sempre a gente pode colocar as cartas na mesa e dizer… Nas horas boas, que a gente estava conversando, dava sempre uma charadinha, encaminhando para o assunto, mas sem demonstrar muito.” Também é curioso saber como elas se referem ao comportamento do homem. Algumas delineiam expectativas quanto ao papel sexual do parceiro. Outras indicam que existe uma similaridade de comportamento entre os dois: “Depois que passa, que a gente já voltou ao normal, falamos sobre o assunto. Mas não falamos quando estamos no meio do conflito. Porque eu acho que quando você fala com a cabeça quente pode dizer coisas que depois se arrepende. E ele tem também esse mesmo procedimento.”

Ampliação dos papéis
O lar foi descrito como o espaço de expressão de todo afeto positivo que existe entre o casal. É o lugar ideal para a realização dos desejos de serem felizes, uma condição manifestada por todas as entrevistadas. Quanto a ter ou não problemas, isso foi associado ao tipo de vida e de situações pelas quais o casal passa: quanto mais perto do projeto de casamento idealizado, menor a possibilidade de haver problemas. Como, de maneira geral (e em razão de sua inserção socioeconômica), a sobrevivência material não aparece como problema, a questão do trabalho pode surgir em decorrência do momento, do ciclo de vida de cada uma. Por exemplo, com filhos era natural que elas ficassem em casa. Mas com o crescimento das crianças, não trabalhar fora tornou-se um problema.

O trinômio mulher-esposa-mãe não só é bem aceito como almejado por muitas mulheres. Muitas vezes esse trinômio foi acrescido do item trabalho – exercido fora do lar e cuja renda veio incorporar-se à vida familiar. Dessa forma a mulher passa a ser, também, provedora financeira junto com o marido. Nada errado para ela, a não ser quando sua remuneração supera a do marido – afinal, entre contribuir e ser a provedora oficial, elas preferem a primeira situação. Também gostariam que os homens tivessem maior participação na organização doméstica, atitude que pode ser associada, assim, à de “provedor de afetos e cuidados”.

Contornando e/ou enfrentando questões de vários tipos, as mulheres sinalizaram, por meio de suas histórias, a idéia de manutenção do casamento como questão central. Seria a realidade da mulher da Grande Vitória igual ou similar à das moradoras de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e de outras localidades? “Por falarmos de um tema comum e alvo de tantas reflexões na mídia, o que se evidencia é que as questões sinalizadas pelas entrevistadas ilustram todo um processo de mudanças que vêm incidindo sobre os casais”, diz Eda. “Para generalizar os dados, precisaríamos ampliar o estudo e englobar outras faixas etárias e localidades, projeto que pretendemos desenvolver no futuro.”

PROJETO
A Utopia do Amor Romântico no Cotidiano do Casamento: um estudo sobre estratégias para a manutenção do casamento
Modalidade
Auxílio a projeto de pesquisa
Coordenadora
Eda Terezinha de Oliveira Tassara – Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidadede São Paulo (USP)
Investimento
R$ 18 mil


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