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Literatura

O patriota das letras

O crítico Fábio Lucas ataca a subserviência a modelos estrangeiros

Mineiro de Esmeralda, Lucas defendeu Jorge Amado ao mostrar que o baiano foi um dos poucos ao furar o bloqueio internacional

MIGUEL BOYAYANMineiro de Esmeralda, Lucas defendeu Jorge Amado ao mostrar que o baiano foi um dos poucos ao furar o bloqueio internacionalMIGUEL BOYAYAN

O mundo acompanhou com incredulidade os atentados de 11 de setembro, nos Estados Unidos, preferindo se convencer do seu caráter único, inusitado, bárbaro, em vez de se concentrar na banalidade do mal que ele representava. No Brasil, um artigo de um crítico literário mineiro, Fábio Lucas, revelou justamente essa faceta: “O inimigo não está fora do mundo. O inimigo não é um estranho, não é um ser bizarro ou desconhecido. Para conhecer o inimigo, basta conhecer o mundo e reconhecer o homem”. Aquele não era. o momento de falar em soluções, mas o trabalho de toda uma vida de Lucas trouxe o aprendizado do valor da literatura nesses instantes vitais, capaz de fazer do crítico um visionário mais preciso do que qualquer analista internacional: “A literatura é uma das múltiplas faces, através das quais o homem tenta romper a terrível consciência da morte. Há uma esperança de sobreviver além da sua capacidade física. Assim, a obra literária exerce uma função social, porque traduz a continuidade do espírito humano”, analisa Lucas.

Com ele a boutade rodriguiana, de que o mineiro só é solidário no câncer, não funciona. Uma de suas maiores preocupações como crítico literário é justamente o narcisismo, o isolamento nocivo à configuração do gênero humano, que teria tomado conta do cenário das letras. Lucas lamenta o fim das escolas literárias do passado, o grupo de escritores que se uniam por afinidades eletivas, por projetos literários comuns, por uma visão de Brasil semelhante e, em muitos casos, pelo desejo de fazer com que um livro fosse uma arma potente capaz de mudar a triste realidade do país, atrasado e corrompido pelo capital e pelo descaso. Para Lucas, os novos escritores só olham para o seu umbigo e só falam do próprio, incapazes de citar colegas ou defender pontos de vista sobre literatura. A mídia é, em boa parte, responsável por esse estado de coisas, para além das idiossincrasias pessoais.

“Está havendo uma inversão: em vez de o jornalismo ir buscar na universidade as suas informações, muitos setores da pós-graduação é que estão se alimentando da informação jornalística”, observa. Lucas lembra o caso das listas de livros escolhidos pelos vestibulares, em que o que se vê é uma repetição das obras já vitoriosas nos formadores de opinião literária. Também a mídia se encarregaria de funcionar como caixa de ressonância da tendência da literatura de se deixar influenciar pela campeã de vendas da indústria cultural: a música popular. “Quando se fala em poesia, por exemplo, buscam-se principalmente os letristas que, no grande mercado literário brasileiro, tomaram o lugar dos escritores”, avisa. Fábio Lucas provocou uma saudável polêmica pela coragem de escrever o artigo “A angústia da dependência”, em que atacava a subserviência a modelos estrangeiros, que impediria o Brasil de formar um cânone nacional, incluindo, na sua crítica, um ataque ao culto a Borges.

Fábio Lucas é autor de mais de 40 obras, entre críticas, ensaísticas e romance

MIGUEL BOYAYANFábio Lucas é autor de mais de 40 obras, entre críticas, ensaísticas e romanceMIGUEL BOYAYAN

Escritores e  jejunos de nossa cultura, como Borges e seu amigo Bioy Casares, recebem impensado apoio da mídia, que lhe oferece todos os canais, geralmente interditos aos escritores brasileiros”, escreveu. “Especializam-se os alunos em notícias de jornal bafejadas pela aura de modernização ou de ‘pós-modernidade’. Reitera-se que as letras perderam a sua aura em nosso tempo e que o escritor, na era da massificação, sofre um processo de hibernação. Revistas e jornais de larga circulação parecem sucursais de equivalentes norte-americanos. Praticamente excluíram os autores brasileiros dos destaques dos cadernos culturais”, afirma. Assim, Lucas defende uma nova missão para o escritor: reconquistar o seu lugar no grande curso da cultura, já que a formação de um cânone brasileiro dependerá da disposição de eles adotarem um processo brasileiro de literatura.” Isso significa: primeiro, conhecimento do nosso passado literário, pois é na continuidade que o cânone se cristaliza; segundo, prática de intercâmbio cultural com outras nações, de modo que as agremiações externas sejam enriquecimento, e não servidão; terceiro, despojamento da consciência ingênua, que se deslumbra com a presença do estrangeiro, a ponto de atribuir qualidade àquilo que não passa de diferença.”

Esse pensamento vem sempre acompanhado pela ação. Lucas teve a “ousadia” de defender Jorge Amado, hoje execrado como produto exótico por uma parcela da crítica, ao mostrar que (na contramão de nossa visão colonialista que vê na imitação de modelos importados uma forma de produzir boa literatura) o escritor baiano foi um dos poucos a furar o bloqueio internacional aos nossos escritores, levando ao mundo um estilo de contar vivências brasileiras. Efetivamente, este mineiro não é solidário só no câncer. Nascido em 1931, em Esmeralda, foi um leitor precoce, graças ao orgulho que a família votava a quem se dedicava às letras. A opção pela crítica, conta, veio por inibição de criar. “Apreciava mais comentar a obra dos outros.” Mas criou coragem e, em 1996, exibiu sua veia criativa com o romance A mais bela história do mundo, nada menos do que um livro sobre o amor. O pai o levou a fazer direito e, em 1953, ele se formou pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Inusitadamente, em 1963, o futuro grande crítico doutorou-se, na UFMG,em economia e história das doutrinas econômicas pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. “Era o lado racional da minha atividade intelectual, mas não deixei a literatura.”

FUNDAÇÃO CONRADO WESSELÉ verdade. Em Belo Horizonte, escreveu sobre livros para vários jornais, aprendendo muito nesse exercício crítico a ponto de, mais tarde, ser convidado por Otto Maria Carpeaux para ser seu sucessor no rodapé literário do jornal Correio da Manhã. Transferiu-se para São Paulo em 1966. Quem interrompeu sua paixão literária foi o golpe militar de 1964. Em 1969, dando cursos na Universidade de Brasília, teve os direitos de magistério cassados. Exilou-se e optou de vez pela literatura, já que, lembra, era mais fácil dar aulas dessa área no exterior. Ajudou nisso a experiência adquirida na especialização feita na UFMG em teoria literária. Foi para os Estados Unidos. No exterior, lecionou em seis universidades norteamericanas e uma portuguesa. No Brasil, deu aula em cinco universidades, dirigiu o Instituto Nacional do Livro, em Brasília, a Faculdade Paulistana de Letras e a União Brasileira de Escritores de São Paulo. Desde 1960 é membro da Academia Mineira de Letras e, no ano em que chegou a São Paulo, foi eleito para a Academia Paulista de Letras. É autor de mais de 40 obras, críticas e ensaísticas.

Entre essas: Vanguarda, história e ideologia da literatura (1985), O caráter social da ficção no Brasil (1987),Do barro ao moderno (1989), Mineiranças (1990), Fontes literárias portuguesas (1991), Luzes e trevas (1998), Murilo Mendes, poeta e prosador (2001), Literatura e comunicação na era da eletrônica (2001), Expressões da identidade brasileira (2002). Sobre a questão da internet, tem grandes ressalvas, vendo a tecnologia de informação como um instrumento, e não como uma finalidade. Aborda no texto de 2001 a questão da “estética da ilusão” ou o abandono do sujeito em detrimento do objeto. Para Lucas, está em voga um princípio de estetização da vida, da ideologia, do êxito sem nenhuma motivação filosófica, política ou artística. O resultado é essa “estética da ilusão”, em que se percebe o embelezamento da dependência e da injustiça.

“Os cadernos culturais se tornaram ancilares da indústria do espetáculo, preferindo veicular o <em>press release</em>, barato e comercializador da obra a estabelecer um reduto da crítica. Toda vez que, por economia, elimina-se da mídia uma coluna de crítica literária, está se fazendo para a saúde do espírito o mesmo que fechar postos de atendimento médico, para a saúde pública.” Efetivamente, conhecer o inimigo é reconhecer o homem.

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