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Neotrópicas

Abrindo o guarda-chuva verde

As cidades precisam de mais árvores, mas há prós e contras em plantar mais exemplares no meio urbano

Ter árvores em regiões urbanas tem prós e contras. Algumas desvantagens: elas, às vezes, sombreiam demais o ambiente e prejudicam o gramado. Criam nichos que podem servir de esconderijo para traficantes e usuários de drogas. Árvores ainda podem cair sobre carros e machucar pessoas. Folhas e galhos caem nas calçadas e são carregados pelas enxurradas, entupindo bueiros. Mais ainda: elas atraem insetos que podem invadir as nossas casas. Também funcionam como suportes para muitas aranhas construírem teias.

Com tantos pontos negativos, podemos dizer que as árvores são as vilãs das cidades? Não. Não é bem assim. Árvores podem cortar a incidência da luz em mais de 90%, diminuindo a temperatura e a luz direta sobre quem caminha ou se exercita sob elas. Áreas cobertas com árvores, em uma cidade como São Paulo, por exemplo, podem ter a temperatura até 10oC mais baixa do que em locais não arborizados no mesmo horário. Além dos benefícios diretos para a sociedade, há também os indiretos: as árvores controlam o fluxo de água entre o solo e atmosfera.

Pela manhã, ao iniciar a fotossíntese, as árvores sugam a água do solo, água esta que é distribuída por toda a planta ao longo do dia. Ao mesmo tempo, as folhas sugam o COda atmosfera. Porém, para fazer isto, elas têm que manter abertos seus estômatos,  milhares de aberturas que ficam na parte de baixo de cada folha.   Dessa forma perdem vapor de água por evaporação. A água do solo, portanto, forma uma coluna de ligação direta com a atmosfera, um fenômeno denominado transpiração. Para se ter uma idéia, uma única árvore de grande porte pode transpirar 150 mil litros de água em um ano, ou seja, uma média de 400 litros por dia.

Temos que lembrar que, se o solo estivesse limpo ou todo asfaltado, o índice de evaporação seria máximo. E iria diminuir o tempo de residência de uma molécula de água na superfície para a ordem de minutos. Mas, se a água penetrar no solo à sombra de uma árvore, a temperatura menor fará com o tempo de residência aumente. Mais do que isso, se uma molécula de água for absorvida pela raiz da árvore, ela terá que seguir um caminho bem mais longo por entre as células e tecidos da planta até voltar à atmosfera através de um estômato. A molécula de água poderá ficar dias ou até semanas dentro do vegetal antes de sair da planta. Muitas moléculas de água ficarão presas no corpo da planta pelo resto da vida, caso sejam utilizadas para formar as ligações entre açúcares como a celulose. Isso ilustra o fato de que a água é fundamental para o seqüestro de carbono pelas plantas.

Para a saúde humana, as árvores podem trazer mais benefícios do que problemas. É certo que o plantio de poucas espécies leva a uma inundação da cidade com pólen de um único tipo e os alérgicos podem sofrer com isso. Mas o desconforto talvez possa ser minimizado com o plantio de maior diversidade de árvores.

Um ponto que será crucial com as mudanças climáticas é que o aumento esperado na temperatura poderá causar vários tipos de enfermidades, incluindo infecções. Além dos problemas de saúde, gastaremos uma fortuna para equipar e manter hospitais e serviços médicos para a população maior de idosos que deveremos ter por volta de 2050. Abrindo o nosso guarda-chuva verde de árvores agora, e de forma estratégica, estaríamos garantindo a minimização dos impactos negativos causados pelo aumento de temperatura nos próximos 20 a 30 anos.

Há também benefícios menos palpáveis, mas não menos desprezíveis da presença das árvores no meio urbano. Pesquisas mostram que pessoas que vivem em cidades arborizadas têm menor tendência ao estresse e à depressão. Podemos dizer que uma cidade arborizada seria mais tranqüila e teria moradores mais felizes. Se considerarmos o quanto seria economizado em hospitais, seríamos também coletivamente mais ricos!
Mas calma: não saia já plantando árvores a esmo. O plantio de uma árvore é algo que tem de ser planejado. Pode-se estar comprando um cão da raça São Bernardo para viver com a família em um apartamento de 50 metros quadrados. É preciso pensar bem e, principalmente, aprender mais sobre o assunto. Em primeiro lugar, é preciso conhecer ao máximo sobre a espécie que se quer plantar. Se é de sombra ou de sol? Se cresce rápido ou devagar? Qual o seu tamanho final? Como e quando tem que ser podada enquanto cresce? Como se comportam as raízes e os ramos? Qual a densidade da madeira? Se perde total ou parcialmente as folhas? Quando dá flores? Os frutos são muito pesados?

Tudo isso é importante para que se acompanhe o desenvolvimento das árvores. E isso quer dizer que não adianta sair por aí jogando sementes e plantando árvores de qualquer tipo em qualquer lugar. Você pode estar plantando em seu jardim (ou no do vizinho) uma espécie de árvore que irá desenvolver raízes que podem atingir a tubulação de esgoto. A mesma árvore poderá se enroscar nos fios que lhe fornecem energia e produzir frutos tão pesados que, ao caírem, podem amassar o seu carro. Os resultados aí serão desastrosos, pois daqui a alguns anos seu carro viverá amassado, você ficará sem banheiro em algum momento e sob risco de ficar sem telhado e sem energia elétrica após tempestades. Nesse caso, a decisão de matar a árvore terá como base a defesa dos bens materiais e dos familiares.

É imperativo planejar antes de plantar uma árvore, mas tão importante quanto plantar é assumir a responsabilidade sobre ela, o que significa acompanhar o desenvolvimento, podar, adubar etc. Isso fará com que a árvore cresça mais rápido e ajude melhor a controlar a água e a temperatura no ambiente, além de prestar o bom   serviço de seqüestrar carbono da atmosfera. É provável que as prefeituras assumam uma parte dessa responsabilidade no futuro, mas, ainda assim, os habitantes no entorno têm que compreender que se trata de um ser vivo e que merece carinho e cuidados iguais aos que prestamos aos nossos animais de estimação.

Na maioria das cidades brasileiras, estamos desprotegidos para enfrentar o aquecimento que vem ocorrendo devido às mudanças climáticas. Temos que começar a abrir o guarda-chuva verde das árvores agora, pois o crescimento delas é lento e podemos não ter tempo de cultivá-las para nos proteger.

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