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Devir

Para o professor Heitor Megale

LUANA GEIGERMais de vinte anos fugindo de tudo que poderia trazer de volta a academia. E então era preciso voltar, pisar outra vez sobre aquilo que sempre desprezei e me dedicar a estudos em uma biblioteca de livros velhos e cansados. Mas Bernardo sabia como chamar minha atenção. “É um desafio, Michel”, disse, e tinha-me à sua disposição.

Bernardo estendeu sobre sua mesa um mapa do Brasil gasto e apontou o dedo em um canto do estado do Mato Grosso, fronteira com o Mato Grosso do Sul. “Preciso de sua ajuda. Só há um documento, um relato do jesuíta João Carlos Fernandes de Toledo, que se perdeu da missão. Começo do século XVIII”.

Lembrei a história do caminho de Peabiru. Que poucos aceitam essa expansão inca rumo ao Atlântico, e o possível contato com os índios brasileiros. E era o que Bernardo propunha: um relato feito de enigmas sobre uma comunidade indígena, intocada pela civilização branca e enfiada em um espaço ao norte do Pantanal, protegida por uma queda de rio e um paredão rochoso. E que fosse então um povo guarani-inca, um povo que se fazia no encontro das duas culturas, e que por certo desapareceu sem deixar rastros.

Bernardo me conhecia, e por isso chamou a mim. E quem mais daria crédito a manuscrito assim tão improvável? Sabia de minhas manias, e que isso sempre me interessou, por seu teor de fantástico impossível; o que será para sempre hipótese de trabalho. Ele não sabia de incas e eu fazia de enigmas insolucionáveis um refúgio. Mas o ponto era outro, sobre o qual Bernardo tinha o dedo no mapa: ao norte do que seria o tal caminho inca, para acima do rio Paraná. A geografia do Peabiru me escapava. Era? Senti arrepiar os cabelos na nuca.

Encontrara o documento em viagem ao Rio de Janeiro, na casa de família descendente de um qualquer título de nobreza. Concederam-lhe aqueles papéis velhos em que há muito ninguém mexia, em uma linguagem que ninguém da casa compreendia.

E não seria impossível pensar que um grupo de incas houvesse escapado do conflito com os espanhóis, tomado o rumo do Atlântico, e. Mas os guaranis? Aceitei ajudar. Que fosse essa busca pelo inimaginável, capaz de me atirar fora da rotina.

Foram semanas em livros e antigas anotações. As descrições que Bernardo me transcrevia e enviava, diariamente, faziam crescer uma alegria perturbadora. Era possível? Incas e guaranis. Buscava inconscientemente uma qualquer incoerência. Buscava? Bernardo preparava o texto para publicação, confiante com todas as minhas confirmações. Ligava-me todos os dias pedindo informações sobre esse ou aquele detalhe, e buscava me alegrar com as promessas do nome na capa do livro, e as glórias da academia.

Interessava-me a academia? Formado em antropologia, por mais de vinte anos dava aulas de história para a quinta série em uma escola municipal. Divertiam-me os livros exagerados sobre conspirações e os documentários sobre enigmas da humanidade. A História me aborrecia, a incredulidade da academia e os métodos científicos.

Então à noite enchia-me de vodca, e era quando me punha a tentar justificar minhas desconfianças. Quando inventava de questionar “e se…”, porque de certa forma doía-me esse choque com uma civilização que nunca mais. E acho que sentia raiva desse jesuíta, que burlou a cronologia e topou com o passado, e ousou responder ao meu questionamento. E deixou para trás um manuscrito.

Sabia que precisava verificar a coerência histórica do manuscrito, e pensar nisso parecia ir contra qualquer princípio meu que eu desconhecia. Século XVIII. Era ilusão, mas. A família que antes o guardava nada sabia. Fui ao Pateo do Colégio. Conversei com um senhor sorridente, que me explicou dos problemas que haviam sido criados com a expulsão da ordem, e porque o próprio Pateo só havia sido devolvido em 1953. Repeti-lhe o nome do jesuíta.

O padre prometeu que ficaria com o nome para investigar. No mesmo dia Bernardo enviou-me uma cópia fac-símile do manuscrito, mais o que já tinha de sua transcrição. Estava pronto para divulgar sua descoberta.

Não tardaram os jornalistas e as especulações, e repórteres de televisão que procuravam Bernardo para uma prévia exclusiva do que havia descoberto. Era essa busca desesperada por uma Atlântida, uma descoberta mirabolante quando o homem já havia ocupado todos os cantos mais obscuros do planeta. Bernardo fazia-se de desentendido, dizendo que muito ainda precisava ser pesquisado e confirmado. Uma matéria com a imagem de um fólio do manuscrito estava para sair no jornal. A comunidade científica era um murmúrio de incertezas.

Minha alegria escondia-se. Passaram-se duas semanas e a desconfiança virou um incômodo crescente. Era incompatível aquele tempo perdido estampado em uma folha do jornal, feito tão realidade. Incas e guaranis?

O padre entrou em contato e fui ao seu encontro. Descobrira não o jesuíta do século XVIII, mas um historiador do XIX. Juan Carlos Fernandez. Um espanhol que veio ao Brasil por volta de 1820. Dele tinham documento porque doara quantia alta, e era amigo de certo bispo.

Desconcertado, fui à descoberta. Dele havia registros e artigos pretensiosos em uma publicação carioca pequena. Falava de regiões de refúgio inca em território brasileiro, onde haveria muito ouro e outras riquezas jamais imaginadas por Pizarro. O que senti foi um alívio. João Carlos Fernandes de Toledo. O espanhol, Juan Carlos, nascera em Toledo, Espanha. Qual o limite de uma coincidência?

Seria possível forjar um manuscrito dessa forma?

Mas bastaria uma análise química do papel. Tive certeza. Peguei o carro e segui rumo à universidade. Eis o que Bernardo tinha: um documento oficial com assuntos imaginários. Um texto de ficção, como aqueles franceses da década de sessenta que alardeavam teorias de conspiração. As pirâmides construídas por alienígenas.

Mas o que nos restava?

Parei em frente do prédio da faculdade, sentindo de repente tudo o que senti quando o olhei aquela última vez, aos 22 anos, certo que nunca mais voltaria. O que eu estava fazendo? Estava cansado das dúvidas, da investigação e do questionamento das fontes. Antes ainda as certezas cegas dos que falam bobagens e inventam o que nunca existiu. Que me importavam as verdades?

Porque História é religião; é preciso fé. E Schiller, sobre a religião, disse: quadros de fantasia, enigmas sem solução, engodos do remoto. O remoto se faz quase o que nunca existiu. O remoto é nosso deus sublime e intangível.

Então acho que sorri, e senti fugir-me o peso de uma qualquer coerência histórica. Tinha o remoto em minhas mãos. Não me interessavam as verdades, enquanto tão mundanas e óbvias. Era o óbvio? Nunca os incas e os guaranis; mas por que não?

Por que diabos não?

O tempo cuidaria de derrubar as mentiras, ou, então, diluí-las

Olivia Maia é escritora e estudante de Letras da USP. Publicou a novela policial Desumano, em 2006, e seu segundo livro, Operação P-2, será lançado em dezembro de 2007 por um selo independente. Escreve sobre literatura em seu blog Forsit