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Saulo Dourado

Os autores do telefone

Ana Paula CamposEm uma resolução de 2002, o imigrante italiano Antonio Meucci foi oficialmente considerado o inventor do telefone, após mais de cento e trinta anos em que o título cabia a Graham Bell. Vivo ainda, o próprio Meucci entrou num processo contra o plágio do estadunidense, mas que nada lhe trouxe senão uma morte amargurada. Já quando o tempo não mais lhe importa, o processo é reativado pelo aparecimento de novas provas. Uma se destacou.

Entre desenhos e documentos que datam anos antes da patente de Bell, há um texto do punho de Meucci que ele não utilizou a seu favor, por esquecimento ou preservação, e que enfim, neste século, tornou sua defesa irrefutável. Trata-se de um recorte do diário de bordo escrito no navio que o levava de Florença ao continente americano, em 1835.

“Como não sonhar com a saudade, se em vigília tento sufocá-la? Hoje mais uma vez acordo com o peito cheio de Itália. Itália — mas o que significa isso? Não há enigma maior do que o sentimento por uma pátria… Um dos seus filhos mais intrigantes me visitou hoje no leito, em meio a várias imagens que eu não soube decifrar. Mas me basta reaparecer apenas para que eu tenha muito presente em mim toda a terra que eu deixo. Angiolo Bertini, onde está agora? Como me fascinava o toque do seu violão. Dedilhava as cordas como se ali houvesse vinte e não seis… Será que conseguiu o objetivo que um dia me segredou?”

Na ocasião, Meucci não contou de forma precisa o que significava este segredo, pois, claro, a intenção do seu diário não é ter a visita de leitores. Os seus advogados de defesa da atualidade, intrigados com a citação deste músico que ninguém ouvira falar, buscaram dados para esticar a história e entendê-la. Após dias de apuramento, acharam em uma biblioteca de Florença o resumo da história que segue.

Angiolo Bertini foi um tocador virtuoso, nascido em 1795 e falecido em 1834, sem procedência familiar confirmada nem ofício. Passeava todos os dias pela calçada da província com o seu violão sob os braços. Executava para quem pedia ou para quem o encontrava todas as noites no mesmo lugar, ao lado do balcão e da bebida forte. Na madrugada volvia para o seu cortiço rua acima, trôpego, cantando alto. Ninguém reclamava porque se sentiam quase gratos com a suavidade de sua voz.

Ele era jovem e tinha um talento inegável, mas não traduzia a sua habilidade para nada mais. Uns diziam que era por acomodação, mas outros, mais próximos, alegavam que era principalmente por seu lado obscuro. Bertini possuía uma relação vital demais com a música. Ao falar dela, evocava o cosmos, a natureza e a medida dos sons como o grande comunicador universal. “Há muito não escutamos o som da Terra enquanto gira.” É uma das falas atribuídas a ele. A outra, ainda não confirmada, dizia: “Uma vez eu o escutei”.

A boemia de Bertini terminou, sem que ele se endireitasse como todos queriam. Pelo contrário, ficou mais recluso e não mais dispunha seu repertório. Quando saía era sem o violão e, ao perguntarem o porquê, dizia que ficara em casa, resguardado para os seus experimentos. Muitos sorriam, pensando serem os experimentos novas composições, mas quem entendia a gravidade com que ele proferia a palavra não o escutava sem o pique do sangue. Antonio Meucci era um dos seus amigos mais próximos e exigiu toda a explicação.

“Desconfio que os violões possam mediar vozes”, era o que professava a teoria de Angiolo Bertini. A sua descoberta se deu quando estava sentado na cama com o instrumento no colo e ouviu um idioma estranho sair em exclamações de dentro da abertura da madeira. Sentiu um profundo mal-estar, mas em nenhum momento lhe veio o impulso de olhar pela janela ou pela porta de onde vinham os sons vocais, pois tinha certeza da procedência. Era músico o bastante para jamais duvidar. Continuou a escutá-la por um tempo e inclusive vê-la vibrar um pouco. Ao experimentar dizer uma frase em resposta, a voz lhe devolveu um grito assustado e se calou.

Bertini passou um mês absorvido pelo acontecimento. Na primeira semana esperou que o fenômeno se repetisse. Na segunda, tentou inúmeras vezes provocá-lo. Na terceira, enfim o descobriu. Ao terminar uma sequência de notas que acabara de criar, inclinou-se para a abertura do violão e citou um verso de um poeta antigo. Outro idioma, igualmente estranho, respondeu amedrontado. Bertini insistiu em falar para a outra voz sobre o acontecimento, sobre a descoberta, mas o estrangeiro entoou apenas interrogações de quem desbrava uma caverna.

Antonio Meucci, preso por participação no Movimento de Unificação Italiana, o Risorgimento, recebeu uma única visita de Bertini com duração de uma hora. Supõe-se que lá o músico florentino explicou sobre os novos dados de sua pesquisa. Para ele, cada violão possuía uma melodia que, se tocada com exatidão por qualquer outro, abriria espaço de contato, como uma senha que se decifra e passa a estabelecer ligações entre duas pessoas. Uma canção de trinta segundos ou cinco minutos, não importava, podia pôr aquele que a executa em conversação com o violão que o aguardava, de qualquer parte do mundo.

Poucos meses depois de liberto, o futuro inventor do telefone partiu para sempre de Florença, sem saber se o amigo conseguira avanços nos experimentos. Talvez no dia em que, sob o som do oceano Atlântico, sonhou com uma face e um violão, Meucci recebia no vento a humilhação que passava Bertini há milhares de quilômetros, em um pequeno teatro municipal. Entre olhares curiosos e irônicos, Angiolo demonstrou a sua teoria, ele já de barba até o peito, os olhos fundos, com o mesmo violão daquela boemia, daquela cantoria para o cortiço.

O músico tocou uma melodia de oito minutos e em seguida chamou alguém na concavidade do violão. Nenhuma resposta. “Ninguém em casa”, disse Bertini, para riso da plateia. Ele não se importou; dedilhou outra canção e repetiu a chamada. Um silêncio se fez e, de tão longo, começou a se dispersar em comentários e novos risos, até uma voz em francês responder pela abertura. O violonista respondeu: “Je suis Angiolo Bertini, un musicien”. E mais não sabia, porque nenhuma outra língua lhe parecia possível de aprender. Enquanto o francês berrava consternado, Bertini direcionou-se para o público e disse: “Um dia não precisaremos falar ou ter qualquer idioma, mas apenas cantar e tocar para nos entendermos”.

Alguém gritou que havia um francês atrás das cortinas. O restante da plateia concordou e invadiu o palco para comprovar a suspeita, derrubando Bertini de sua cadeira e quebrando o violão, aos pisões, na altura do braço. Eles encontraram um rapaz nas cortinas e o expulsaram com gargalhadas. Não perguntaram pela sua origem, pois se a fizessem, saberiam que falava o italiano de uma vila próxima e só queria assistir ao evento extraordinário de perto, tendo viajado sem contar nada aos pais. Não sabia francês, nem fraudar, mas a paralisia de todos os rostos frente ao seu lhe impediu qualquer suspiro.

Angiolo Bertini foi preso na mesma noite por calúnia e obrigado a pagar uma multa que não lhe era possível com os recursos do bolso da calça. Ficou a lavar as celas e as grades, até, por tanto assobiar, ser expulso mesmo da prisão. Dizem que faleceu na rua, dois dias depois, e eu acrescento que tinha a mesma expressão de Antonio Meucci, anos depois, na sala de julgamento, ao tentar provar a autoria de sua recriação.

Saulo Dourado é licenciado em filosofia pela Ufba e escreve contos no suplemento infantil do jornal A Tarde. Em 2011 foi aprovado pelo edital de Apoio à Criação Literária da Fundação Pedro Calmon para desenvolver um livro de contos. Já venceu os prêmios literários Ferreira de Castro e Correntes d’Escritas/Papelaria Locus, ambos na categoria juvenil, nos anos de 2005 e 2006.