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Memória

Uma aventura brasileira

Há 78 anos começava a pesquisa de física no Brasil, com Gleb Wataghin

IFUSP

Wataghin com aparelho em avião da FAB para medir raios cósmicos na altitude, em 1940IFUSP

O esforço para a criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934, trouxe ao Brasil professores franceses, alemães, italianos e um português. Teodoro Ramos, engenheiro da Escola Politécnica de São Paulo, foi à Europa convidar os docentes que, de acordo com o crítico e ensaísta Antonio Candido, instituíram a moderna concepção de pesquisa científica e investigação intelectual no país. De todos os estrangeiros que ajudaram na formação da USP, talvez o mais bem-sucedido tenha sido Gleb Wataghin, um ucraniano naturalizado italiano, filho de pais russos, que teve seu trabalho brasileiro reconhecido no exterior poucos anos depois de iniciar a pesquisa em física no país.

“Em certa ocasião, minha mulher, Amélia, e eu estávamos em um congresso sobre história da física na Itália quando fomos abordados pelo historiador da ciência americano Lewis Pyenson com a seguinte questão, ‘Como o Wataghin fez aquele milagre em São Paulo nos anos 1930?’”, conta Ernst Hamburger, do Instituto de Física (IF) da USP. Sílvio Salinas, também do IF, relata uma história parecida do físico Freeman Dyson, em meados dos anos 1980.

“Durante um colóquio, em Pittsburgh, Dyson citou a ‘aventura brasileira’ de Wataghin, quando, em condições improváveis, em um lugar sem nenhuma tradição de ensino e pesquisa em física, em poucos anos começaram a aparecer artigos brasileiros publicados por ele na Physical Review”, relata Salinas. Os trabalhos eram feitos em colaboração com alunos formados por ele.

Wataghin em frente do instituto que leva seu nome, em 1971: homenagem da Unicamp

Wataghin iniciou duas linhas de pesquisa. Na experimental trabalharam Marcello Damy de Souza Santos, Paulus Aulus Pompeia e Yolande Monteux; na teórica, Mario Schenberg, Paulo Saraiva de Toledo e Abraão de Morais. Mais tarde se juntaram a eles César Lattes, Sonia Ashauer, Walter Schutzer, Jayme Tiomno, Roberto Salmeron, Paulo Leal Ferreira e Oscar Sala.

Para Henrique Fleming, do IF, que conheceu Wataghin em 1967 em Turim, os primórdios do curso de física foram excepcionais. “Não sei se é possível achar mais uma dúzia de exemplos como aquele na história da física”, diz. “E o principal personagem nesse cenário foi Wataghin, a pessoa mais extraordinária que conheci.”

Gleb Wataghin (1899-1986) nasceu em Birsula, na Ucrânia, e estudou em Kiev. Em 1920 a família estava em Turim fugindo da revolução comunista russa. Lá ele se formou em física e matemática e em 1929 começou a lecionar na Universidade de Turim. Quando esteve na Itália, a primeira escolha de Teodoro Ramos para a cadeira de física era Enrico Fermi, que indicou o jovem professor. O fascismo, a dificuldade para conseguir uma cátedra e a boa oferta financeira convenceram Wataghin a vir.

Arquivo Familiar

Na década de 1970, na sua casa em Turim: figura-chave para a física brasileiraArquivo Familiar

Em São Paulo, ele parece ter encontrado as pessoas certas. Seus alunos vinham de boas escolas secundárias, estavam ansiosos por aprender e curiosos com aqueles estrangeiros que faziam tudo diferente da velha tradição portuguesa. Wataghin estimulava os discípulos a irem para o exterior trabalhar com físicos como Fermi, Paul Dirac, Arthur Compton, William Bragg, Eugene Wigner, John Wheeler, R.G. Herb e Cecil Powell. Esse esforço rendeu frutos. A partir dos anos 1940 surgiram, entre outras instituições, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, o Instituto de Física Teórica, hoje ligado à Universidade Estadual Paulista, e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica.

O Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) surgiu em 1966 sob a direção de Damy, que levou Lattes para lá. Em 1971, o instituto passou a se chamar Gleb Wataghin – então professor visitante da Unicamp – e Rogério Cezar de Cerqueira Leite assumiu sua direção.

Durante a Segunda Guerra Mundial o governo da Itália chamou seus professores de volta. Wataghin sabia que poderia ser perigoso retornar, por não ser fascista nem italiano nato. “Ele ficou até 1949, quando voltou para dirigir o Instituto de Física da Universidade de Turim”, conta sua neta Lucia Wataghin, professora de língua e literatura italiana da USP. Filha de André, um dos dois filhos de Gleb, Lucia diz que o avô nunca esqueceu o Brasil.

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