Imprimir PDF

Memória

Um zoo na Amazônia

Primeiro zoológico do país foi aberto há 117 anos em Belém, no Museu Goeldi

Arquivo Guilherme de La Penha / MPEG / MCTI

Lago das vitórias-régias e, eventualmente, dos peixes-boi: formato igual ao do mar Negro, na RússiaArquivo Guilherme de La Penha / MPEG / MCTI

Onde poderia existir um museu com parque de plantas e animais silvestres em cativeiro que recebesse anualmente quase o mesmo número de visitantes que o de habitantes da cidade onde está localizado? No final do século XIX e começo do XX, Belém foi palco dessa experiência. O Parque Zoobotânico do Museu Paraense recebeu 48 mil pessoas em 1896, quando a população do município era cerca de 50 mil. A capital do Pará se encantou com o primeiro zoológico brasileiro, criado anexo ao museu em 1895 pelo zoólogo suíço Emílio Goeldi. Nele não havia elefantes, girafas ou rinocerontes como nos zoos das cidades europeias. Os frequentadores se divertiam ao ver animais típicos da Amazônia, como antas, jacarés, peixes-boi, onças e garças, exatamente como havia sido planejado por Goeldi.

Construir um zoológico já estava nos planos do governador paraense Lauro Sodré quando contratou Goeldi em 1894 para dirigir a instituição. O hoje chamado Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) fora fundado em 1866 e precisava ser reorganizado. Na época, o zoólogo morava no Rio com a família, havia trabalhado alguns anos no Museu Nacional e tinha bom trânsito com cientistas do exterior. “Em Belém, ele percebeu que seria inútil competir com os museus cosmopolitas e decidiu fazer uma instituição regionalizada, especializada na Amazônia, também como uma forma de garantir espaço para sua instituição no movimento científico internacional”, conta Nelson Sanjad, pesquisador de história da ciência do Museu Goeldi e editor do Boletim do MPEG, Ciências Humanas (janeiro-abril de 2012), 
em que há um artigo sobre o Parque Zoobotânico.

Com apoio do governo estadual, o cientista suíço concentrou-se em uma série de obras que duraram oito anos, necessárias para transformar o museu em um centro de pesquisas sobre fauna e flora da região – o parque foi apenas uma delas. Goeldi desenhou os recintos dos animais com a ajuda dos dois responsáveis pela gestão do zoo e do horto. Num primeiro momento, o zoólogo alemão Hermann Meerwarth; depois o zoólogo suíço Gottfried Hagmann.

Arquivo Guilherme de La Penha / MPEG / MCTI

Em 1902 foi criado um dia especial de visitação para famílias e pessoas bem trajadas: segregaçãoArquivo Guilherme de La Penha / MPEG / MCTI

Os estudos e o acervo concentrados na Amazônia não impediram a europeização do espaço do museu. “Os animais e plantas eram daqui. Mas o traçado, os elementos arquitetônicos, viveiros e recantos remetiam às paisagens e aos monumentos europeus”, conta Sanjad. “Embora pareça paradoxal, foi uma atitude coerente com a mentalidade da elite da época.” As residências e laboratórios do museu, por exemplo, tinham o feitio de chalés e o lago para as aves aquáticas a mesma forma do lago Maggiore, na Itália, com a cobertura de arame feita em Paris. O lago para as vitórias-régias foi construído com o formato do mar Negro, na Rússia meridional.

Um zoológico – único no Brasil – e horto gratuitos, construídos com zelo, viraram o passeio principal de um público urbano e de imigrantes que já tinham pouco contato com os animais. Os filhotes de onça, as aves formando ninhos, um peixe pulmonado nadando (espécie difícil de manter em cativeiro) 
e até o florescimento da vitória-régia, cultivada em ambiente público na Amazônia pela primeira vez, encantavam o público.

Tal sucesso trouxe pelo menos um problema. A elite econômica da cidade começou a se queixar dos maus modos da massa que frequentava o museu aos domingos e feriados. Pressionado, Goeldi reagiu criando, em 1902, o “dia de famílias”. O parque passou a ser aberto um dia a mais na semana, às terças-feiras, apenas para pessoas acompanhadas das respectivas famílias e convenientemente vestidas. “Na prática houve uma segregação do público 
de acordo com a classe social”, diz Sanjad.

O parque manteve sua primazia até a década de 1940, quando começaram a ser criados outros zoos pelo país. Belém tem hoje 2 milhões de habitantes 
e o Zoobotânico recebe de 200 mil a 250 mil pessoas por ano. Não é 
o mesmo sucesso de 117 anos atrás, mas se mantém dentro dos 10% da população da cidade, que é o padrão internacional.