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Dupla proteção

Uma das principais pragas de grãos armazenados no Brasil, o gorgulho-do-milho criou resistência fisiológica e comportamental ao principal inseticida usado para seu controle

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 14:48 25 de julho de 2013

 

S. zeamais: animal pode ser duplamente resistente ao principal inseticida usado para seu controle

S. zeamais: insetos com maior mobilidade parecem fugir da exposição ao inseticida deltametrina

Ao analisar como certas particularidades fisiológicas de um inseto conhecido como gorgulho-do-milho (Sitophilus zeamais) influenciavam sua resistência ao inseticida deltametrina, o agrônomo Raul Narciso Guedes, da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, notou em 2009 que algumas populações, além de resistentes à substância, também apresentavam variações de mobilidade ao caminharem e alçarem voo. Pensou, então, que seria útil verificar se essas diferenças de comportamento contribuiriam de alguma forma para a sobrevivência do animal ao inseticida. Parece que sim: em um estudo publicado na edição de junho da revista PLoS One, Guedes e colaboradores verificaram que, além das diferenças fisiológicas já observadas, certas atividades motoras relacionadas ao deslocamento do animal, como a velocidade com que caminham e a distância que percorrem,  podem ser determinantes para sua sobrevivência ao inseticida.

No estudo, os pesquisadores observaram uma série de comportamentos característicos do gorgulho-do-milho. Para isso, analisaram indivíduos de 15 populações de diversas regiões do Brasil, algumas mais resistentes ao inseticida do que outras. Em seguida, eles correlacionaram as respostas comportamentais observadas com o tempo de sobrevivência do animal quando exposto a grãos de milho tratados com a deltametrina, bastante utilizada na agricultura, pecuária e em domicílios, sendo um dos poucos inseticidas usados no controle do S. zeamais. Segundo Guedes, os traços comportamentais mais contundentes foram aqueles relacionados ao deslocamento no animal (velocidade, tempo em repouso e distância caminhada) e à sua capacidade de se fingir de morto quando ameaçado. “Esses traços se diferenciavam de indivíduo para indivíduo, principalmente dentro de uma população, e entre populações – mas, neste caso, as diferenças eram menores”, diz.

Os pesquisadores verificaram que o fato de o animal caminhar longas distâncias e em maior velocidade ajudou-o a sobreviver ao veneno. “Esta não era nossa expectativa inicial, pois imaginávamos que a maior locomoção fosse justamente favorecer a exposição do inseto ao inseticida”, afirma. “O fato é que os insetos com maior mobilidade parecem fugir da exposição à deltametrina, buscando uma superfície não tratada”, explica o agrônomo. Assim, apesar de algumas populações do Sitophilus zeamais (e indivíduos dentro delas) serem repelidas por inseticidas, há o risco de existirem indivíduos fisiologicamente resistentes à deltametrina dotados de habilidades que lhes permitem evitar áreas tratadas com a substância. Em outras palavras, esses animais seriam duplamente resistentes ao principal veneno utilizado para seu controle.

“Em nosso estudo resolvemos focar nos indivíduos e não somente nas populações dessa espécie, como se fazia até então. Além disso, em vez de nos concentrarmos em uma ou duas características comportamentais, optamos por uma abordagem mais completa, explorando grupos de comportamentos potencialmente relevantes à sobrevivência do animal ao inseticida”, explica Guedes.

Na sua avaliação, isso pode desencadear situações problemáticas, já que o gorgulho-do-milho é também uma das principais pragas de grãos armazenados no Brasil. “Daí a importância de se considerar as variações individuais na avaliação da eficácia dos inseticidas em populações de insetos como o Sitophilus zeamais”, destaca o pesquisador. “Apesar de o estudo ter sido conduzido em laboratório, conseguimos simular bem o ambiente de um armazém. Mesmo assim, estamos curiosos para ver como isto funcionaria em condições mais realistas”, conclui o agrônomo.

Artigos científicos
GUEDES, R. N. C., et al. Weevil x Insecticide: Does ‘Personality’ Matter?. PLoS One. v. 8, n.6, jun 2013.
GUEDES, N. M. P., et al. Flight take-off and walking behavior of insecticide-susceptible and – resistant strains of Sitophilus zeamais exposed to deltamethrin. Bulletin of Entomological Research. (2009).


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