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Arquivos britânicos e o golpe de 1964

WILLIAM TORRES LAUREANO DA ROSA | ED. 218 | ABRIL 2014

 

Documentos do National Archives mostram troca de informações entre ingleses e americanos sobre a intervenção militar no Brasil

Documentos do National Archives mostram troca de informações entre ingleses e americanos sobre a intervenção militar no Brasil

O acesso a documentos oficiais do Reino Unido mudou consideravelmente nos últimos anos. Desde 1958, documentos com mais de 30 anos de existência são selecionados pelo governo para preservação e posterior divulgação. Mais recentemente, o Parlamento Britânico aprovou o Freedom of Information Act, o que permitiu que solicitações individuais desclassificassem e liberassem diversos documentos para acesso antes mesmo de completado o período previsto em lei. Com base nessas informações, tem sido possível, por exemplo, conhecer e analisar a posição do Reino Unido em relação à situação política brasileira, em 1964, e as redes de informação existentes naquela época entre Londres e Washington.

Os documentos indicam que a possibilidade de um golpe de Estado no Brasil não era novidade para a diplomacia britânica. Em carta enviada em janeiro de 1964 ao Departamento Americano do serviço diplomático britânico sobre a possibilidade de golpe de Estado no Brasil, o conselheiro Ronald Burroughs reportou um “surto de rumores e declarações sobre a possibilidade de golpe de Estado”.1 Burroughs afirma que “esses golpes de Estado são previstos vindo de diferentes lados, da direita, da extrema esquerda, e do presidente”.2 De acordo com informações obtidas por intermédio do adido militar dos Estados Unidos, “General Castello Branco […] alertou o ministro da Defesa que ele não poderia contar com o Exército apoiando um golpe do presidente. Se qualquer ato nesse sentido fosse iniciado ele, Castello Branco, chamaria as tropas para se opor a isso”.3

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A leitura dos documentos evidencia que tais informações eram obtidas não só por intermédio de brasileiros próximos da diplomacia britânica – entre os quais o jornalista Ruy Mesquita, de O Estado de S.Paulo – mas também por intermédio de um sistema de cooperação entre o Reino Unido e os Estados Unidos. Tal cooperação consistia em acesso britânico a boletins informativos da CIA (um dos quais sugeriu fortemente a confirmação de Castello Branco no cargo de presidente um dia antes da sua escolha), bem como o intercâmbio de informações com representantes da diplomacia estadunidense, entre os quais John Plank, chefe da seção de América Latina do Bureau of Intelligence and Research, e Ellsworth Bunker, embaixador dos EUA na Organização dos Estados Americanos (OEA).

Golpe_Arq Brit 2_FO 371 173762-1Os documentos não fornecem apenas indicações diretas dos acontecimentos e dos envolvidos, de acordo com os diplomatas da época. O cruzamento das informações obtidas nos documentos britânicos com as existentes nos EUA revela aspectos importantes dessa “parceria”. Nesse período, por exemplo, observa-se que, embora os EUA e o Reino Unido fossem aliados e compartilhassem informações sobre o Brasil, isso não se deu de forma irrestrita. Nos documentos já desclassificados, a participação dos EUA no golpe de Estado foi mantida em segredo pela diplomacia britânica. Em um relatório sobre conversa com Dean Rusk (secretário de Estado dos EUA) sobre essa possível participação dos EUA, datada de 1º de abril de 1964, o embaixador britânico em Washington, Lord Harlech, reportou que em relação à deposição do presidente Goulart os EUA “teriam pouca, se é que alguma, influência nos eventos que estavam prestes a acontecer”.4 A não participação estadunidense no golpe aparece como consensual na correspondência diplomática britânica de 1964, sendo novamente discutida e reafirmada em duas ocasiões diferentes: quando das denúncias de cooperação dos EUA feitas tanto por jornais franceses quanto pelo jornalista brasileiro Bocaiúva Cunha. Ainda há muita novidade a ser descoberta sobre o período, e o acesso a um número maior de documentos em acervos no Brasil, EUA e Reino Unido é certamente uma ferramenta importante para tanto.

William Torres Laureano da Rosa. Doutorando em relações internacionais na University of Sussex e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).

Notas
1. “I am afraid that this present letter must also be rather woolly, but I think you should have it on record that there has been an outbreak of rumours and statements concerning possible coups d’état” (FO 371/173760).\
2. “As usual, these coups d’état are predicted as coming from variously the Right, the extreme Left, and the President” (FO 371/173760)
3. “General Castello Branco […] warned the Minister of War on January 16 that the latter should not count on the Army supporting a coup by the President. If any such move were set on foot he, Castello Branco, would call out troops to oppose it” (FO 371/173760)
4. “The Americans were watching the situation very closely, but they would have little influence, if any, on the course of events” (FO 371/173761, Opinion of Mr Rusk on the situation developing in Brazil: no U.S. influence on course of events)


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