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Um novo modelo para o Alzheimer

Estudo reproduz em macacos alterações da doença humana no cérebro

MARIA GUIMARÃES | Edição Online 9:40 8 de outubro de 2014

 

Oligômeros de beta-amiloide (em vermelho) no córtex cerebral de macacos

Oligômeros de beta-amiloide (em vermelho) no córtex cerebral de macacos

Os pesquisadores tiveram uma surpresa quando injetaram no cérebro de macacos uma substância associada à origem da doença de Alzheimer em seres humanos. As moléculas migraram e se acumularam em áreas relacionadas à formação da memória, produzindo nas células as alterações típicas de estágios avançados desse mal. Foi uma revelação importante sobre o funcionamento da doença, e também um alerta para a necessidade de se usar primatas como modelo para se chegar a uma compreensão mais adequada de como se instala o Alzheimer e testar possíveis tratamentos, segundo a neurocientista Fernanda De Felice, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenadora da pesquisa.

Em parceria com o grupo canadense da Queen’s University liderado pelo neurofisiologista Douglas Muñoz, Fernanda e sua equipe queriam conhecer como a enfermidade se instala em um cérebro saudável. Para isso, injetaram pequenos fragmentos (oligômeros) da proteína beta-amiloide, precursores dos danos celulares, no ventrículo lateral, cavidades naturais do cérebro onde é produzido o líquido cefalorraquidiano, que banha todo o encéfalo. A ideia era justamente não determinar um local para inserir a substância. “Queríamos dar liberdade aos oligômeros”, explica a pesquisadora. Tanto em ratos como em macacos-cinomolgos (Macaca fascicularis), os pesquisadores observaram que esses fragmentos de proteínas se acumulam no córtex frontal, no hipocampo e em várias áreas associadas à memória e a aspectos cognitivos, segundo artigo publicado hoje (8/10) na revista The Journal of Neuroscience, cuja primeira autora é a bióloga Leticia Forny-Germano, do grupo da UFRJ. “As primeiras áreas afetadas na doença refletiram o que acontece em seres humanos”, diz Fernanda. Já se sabia que os oligômeros beta-amiloide são centrais na doença, que causa perda de memória e demência irreversíveis (ver Pesquisa FAPESP nº 194). Mas até agora ninguém tinha conseguido reproduzir no cérebro de primatas os danos que o Alzheimer causa em pessoas.

Por isso, o que ela considera mais importante nos resultados foi observar, nos macacos alojados na universidade canadense, danos semelhantes aos que acontecem no cérebro humano, como perda de conexões (sinapses) entre as células cerebrais e alterações na proteína tau, responsável pela formação de microtúbulos que estabilizam os prolongamentos dos neurônios. Essas proteínas tau alteradas formaram os emaranhados neurofibrilares, uma alteração típica de estágios avançados da doença. Os emaranhados neurofibrilares comuns no cérebro humano e observados agora nos macacos não são observados no cérebro de roedores, em geral usados como modelo para o estudo do Alzheimer. “Não existem estudos mostrando o surgimento dos emaranhados só por ação dos oligômeros em roedores”, comemora a pesquisadora carioca. “Sem mutações, induzimos uma condição que é central na doença.”

Para a neurocientista, os resultados são uma indicação clara de que é importante realizar os estudos de Alzheimer em modelos primatas. Ela continuará a fazer pesquisa com ratos e camundongos para entender detalhes de como a doença altera o cérebro, mas acredita que roedores não podem ajudar com determinados aspectos da pesquisa. “A maior parte de medicamentos testados em camundongos acabam não funcionando para tratamento de doenças do cérebro em seres humanos”, exemplifica, ressaltando as diferenças profundas entre o cérebro desses roedores e o nosso.

Os macacos já começaram a ser treinados para uma segunda fase de estudos, em que os pesquisadores avaliarão alterações comportamentais que podem surgir em consequência da injeção dos oligômeros. Fernanda conta que é necessário treinar os cinomolgos por seis meses para realizarem testes de memória, como reconhecer imagens em um monitor, e para que façam determinado tipo de movimento com os olhos. Quando os macacos envelhecem, a capacidade de realizar esse movimento se deteriora de maneira semelhante ao que acontece em pessoas com o Alzheimer.

Numa fase seguinte, ela espera fazer testes de medicamentos. O primeiro candidato deve ser um remédio contra diabetes que seu grupo já mostrou ser capaz de bloquear alguns danos neuronais observados em modelos animais para a doença de Alzheimer (ver Pesquisa FAPESP nº 215). Além dos resultados promissores para o estabelecimento de um novo modelo animal, Fernanda celebra a parceria com o laboratório canadense. “São dois grupos com expertises complementares”, avalia. Uma receita de sucesso para avanços significativos em ciência.

Artigo científico
FORNY-GERMANO, L. et al. Alzheimer’s disease-like pathology induced by amyloid-oligomers in nonhuman primates. The Journal of Neuroscience, v. 34, n. 41. 8 out. 2014.


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