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Meio Ambiente

Estudo indica baixa germinação de sementes do cerrado

Pesquisa sobre o comportamento de espécies de plantas ressalta dificuldade em se restaurar o ecossistema

Vegetação de cerrado na Estação Biológica de Santa Barbara, em São Paulo:

Imagem: Flaviana Maluf de Souza Estação Biológica de Santa Barbara, em São Paulo: baixas taxas de germinação de sementes  de plantas do cerrado indicam que restauração do ecossistema pode ser mais difícil do que se pensavaImagem: Flaviana Maluf de Souza

Pesquisadores do Instituto Florestal (IF), da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, estão mais próximos de entender os fatores associados à germinação das espécies de plantas do cerrado, um dos ambientes mais degradados do Brasil. Em estudo publicado em dezembro na revista Bioscience Journal, eles estudaram o comportamento de 15 espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas cultivadas em diferentes condições de luz. Destas, 12 germinaram, sendo três apenas à sombra e quatro apenas sob o sol. Os resultados, segundo eles, podem ajudar a aumentar as chances de sucesso de técnicas de produção de mudas, ampliando o número de espécies usadas na restauração do ecossistema. O cerrado está na lista de áreas no mundo com maior riqueza de espécies, e mais ameaçadas de extinção, devido à conversão de áreas para uso agropecuário.

A germinação é uma etapa considerada crítica no processo de restauração porque depende essencialmente da reintrodução das espécies de tal modo que elas sobrevivam e se estabeleçam no ambiente em que foram reintroduzidas. Entender como cada espécie responde a diferentes condições ambientais pode ajudar a indicar as com maior potencial de uso em ações de restauração. “Sementes de muitas espécies do cerrado têm dificuldade para germinar”, explica a engenheira florestal Flaviana Maluf de Souza, do IF e coordenadora do estudo. “É preciso saber quais são os requisitos para que se concretize a germinação.”

Fimbristylis_autumnalis_germinada

Imagem: Flaviana Maluf de Souza Planta da espécie Fimbristylis autumnalis: germinação quatro vezes maior sob o solImagem: Flaviana Maluf de Souza

No trabalho, os pesquisadores acompanharam 1.500 sementes de 15 espécies de plantas. Em um viveiro, cultivaram as sementes em tubetes postos ao sol e em áreas sombreadas e as avaliaram todos os dias durante nove meses. Das espécies estudadas, três (Andropogon bicornis, Ilex affinis e Psychotria anceps) germinaram apenas à sombra e quatro (Andropogon leucostachyus, Cyrtocymura scorpioides, Gochnatia polymorpha e Ilex brasiliensis) apenas ao sol. De todas as espécies, apenas duas (Gochnatia barrosoae e Miconia ligustroides) não germinaram. Entre os fatores que podem ter atrapalhado a germinação dessas plantas está a dormência das sementes, condição que lhes permite permanecer no solo por muito tempo aguardando as condições mais adequadas para se desenvolverem. Também algumas espécies cultivadas sob sol e sombra germinaram de modo distintos. A germinação da Fimbristylis autumnalis, por exemplo, foi quatro vezes maior ao sol. Já a da Styrax pohlii foi 20 vezes maior à sombra.

No geral, segundo a pesquisadora, a germinação das espécies pesquisadas foi baixa, algo observado também em outros estudos sobre plantas do cerrado. Dentre as 15 espécies analisadas, apenas duas tiveram bastante sucesso, com mais da metade das sementes germinadas. “Isso reforça a dificuldade em se restaurar a vegetação do cerrado”, diz. “Seriam necessárias muitas sementes para que um mínimo de germinação fosse obtido.” Segundo ela, as baixas taxas de germinação levam a crer que multiplicar as espécies do cerrado para restaurar sua vegetação será muito mais difícil do que se imaginava. “Muito mais difícil do que tem sido para restaurar a mata atlântica, por exemplo”, afirma.

Artigo científico
LIMA, Y. B. C.; DURIGAN, G.; SOUZA, F. M. Germination of 15 cerrado plant species under different light conditions. Bioscience Journal. v. 30, n. 6, p 1864-72. dez 2014.