ARTE

Print Friendly

Sob o manto da invisibilidade

Exposição na Pinacoteca mostra as mulheres pioneiras no campo das artes entre os séculos XIX e XX

MARIA HIRSZMAN | ED. 233 | JULHO 2015

 

Couer meurtri (c. 1913), de Nicota Bayeux (1876-1923). Óleo sobre tela

Coeur meurtri (c. 1913), de Nicota Bayeux (1876-1923). Óleo sobre tela

O protagonismo de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral no modernismo brasileiro é reiteradamente apresentado pela história da arte como a entrada triunfal das mulheres na cena artística nacional. Basta, no entanto, um recuo no tempo para perceber que a presença feminina no campo das artes é anterior, mais rica e bem mais complexa. A exposição Mulheres artistas: as pioneiras (1880-1930), em cartaz na Pinacoteca do Estado até o dia 6 setembro, na capital paulista, mostra uma poderosa, mesmo que marginal, presença feminina no campo das artes na virada do século XIX para o XX.

São cerca de 50 obras, entre as quais desenhos, pinturas e esculturas de 21 artistas, selecionadas em diversas coleções públicas e particulares de forma a apresentar ao público essa produção feminina. Correspondendo aos campos de estudo desenvolvidos pelas curadoras em seus projetos de pesquisa – a presença da mulher na arte brasileira do século XIX, no caso de Ana Paula Cavalcanti Simioni, e o ensino acadêmico, no caso de Elaine Dias –, a seleção contempla duas questões centrais: a incorporação dessas artistas nos mesmos sistemas de aprendizagem da tradição acadêmica e a relação dessa produção com os diversos gêneros da arte.

Estudar a produção das artistas mulheres no Brasil da virada do século XIX para o XX não é tarefa fácil. Além da precariedade material e desinteresse histórico, as poucas artistas que ousaram trilhar o caminho do profissionalismo ficaram ocultas por longo tempo sob um manto de invisibilidade e foram vistas sempre como, na melhor das hipóteses, “amadoras” talentosas. As restrições à entrada de mulheres no campo profissional foram sendo pouco a pouco vencidas por pioneiras como Abigail Andrade, Julieta de França e Georgina de Albuquerque, por meio de uma combinação de esforço pessoal, talento e proximidade de figuras masculinas de grande importância no período, que acabaram lhes franqueando o caminho para o mundo profissional das artes.

Estudo de nu (1921), de Tarsila do Amaral (1886-1973). Óleo sobre cartão

Estudo de nu (1921), de Tarsila do Amaral (1886-1973). Óleo sobre cartão

As mulheres só tiveram acesso à Escola Nacional de Belas Artes a partir de 1892. E o estudo de modelo vivo – essencial para o desenvolvimento de conhecimento em anatomia – era, assim, algo difícil por ser centralizado pela instituição e muitas vezes restrito em sessões separadas dos homens. Quando possível, os modelos masculinos deveriam usar um tapa-sexo, como se pode constatar em desenhos como os de Angelina Agostini, Dinorá de Azevedo e Julieta de França, reunidos na primeira sala da exposição. A segunda e última sala da exposição dedica-se a mostrar a versatilidade de gêneros trabalhados por elas, com paisagens, retratos, naturezas-mortas (sobretudo flores) e até esculturas. A principal ausência é a pintura histórica, o maior de todos os gêneros e praticamente vedado às artistas mulheres. Essa lacuna, segundo as curadoras, se deve à pouca quantidade de obras nessa modalidade realizadas por mulheres no Brasil.

“Pretendemos mostrar o modo com que elas se apropriaram com qualidade, destreza, capacidade das linguagens dos repertórios e métodos acadêmicos”, explica Ana Paula Simioni, professora do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). “É interessante evidenciar o quanto elas correspondem de forma precisa ao que a elas foi negado durante tanto tempo”, complementa Elaine Dias, professora do curso de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo, campus de Guarulhos. Ela propõe uma aproximação entre o estudo de um homem velho, de Julieta de França, e outro de nu masculino feito por Almeida Júnior, que pertence à Pinacoteca e pode ser visto na sala contígua.

Tal comparação exemplifica um dos méritos de Mulheres artistas, sua integração ao acervo do museu, propondo um recorte que vem complementar o projeto museológico e ampliar as possibilidades de leitura da coleção. “Nosso objetivo é abrir caminhos de pesquisa, olhar para o que está sendo produzido em história da arte no Brasil, adensando a narrativa contada pelo acervo da Pinacoteca”, explica Fernanda Pitta, que representa o museu na equipe curatorial.


Matérias relacionadas

MEMÓRIA
Wanda Hanke estudou sozinha indígenas da América do Sul nos anos 1930
ANDRÉ FELIPE CÂNDIDO DA SILVA
Historiador fala da trajetória de 90 anos do Instituto Biológico
PESQUISA BRASIL
Soluções microscópicas, Instituto Biológico e satélite de comunicações