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Cáries sob controle

Estudos da faculdade de Piracicaba contribuíram para acréscimo de flúor na água da rede de abastecimento

YURI VASCONCELOS | Unicamp 50 anos | SETEMBRO 2016

 

Análise de água com eletrodo especial

Análise de água com eletrodo especial

A Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) foi criada em 1957 – é, portanto, nove anos mais velha do que a Unicamp, instituição a qual foi incorporada em 1967. A escola se destaca pela produção científica de qualidade e pela excelência de sua pós-graduação, implantada em 1962, bem antes da implementação em larga escala dos programas de pós-graduação no país. Em suas quase seis décadas de existência, um dos trabalhos de maior impacto que realizou – e que ajudou a projetá-la no cenário nacional e internacional – foi a defesa da fluoretação da água de abastecimento público, uma das medidas mais eficazes para o controle da cárie dentária. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, o poder preventivo da água fluoretada chega a 70% em crianças e reduz a perda de dentes em adultos em até 60%.

“O Brasil é um dos dois únicos países com uma legislação federal (datada de 1974) que obriga a fluoretação da água pelas estações de tratamento – o outro é a Irlanda”, conta o pesquisador Jaime Aparecido Cury, coordenador do Laboratório de Bioquímica da FOP, referência nessa área. “Esta foi uma decisão fundamental para melhorar a saúde bucal do brasileiro, e nossos pesquisadores participaram intensamente desse processo.” Os estudos realizados na escola a partir dos anos 1970 ajudaram a compreender a importância da adição do flúor na água e os parâmetros para o uso seguro do produto.

A FOP também teve papel marcante na mudança do nível de flúor em cremes dentais. “O primeiro trabalho mostrando que os dentifrícios brasileiros tinham baixa qualidade de flúor foram feitos aqui”, recorda-se Guilherme Elias Pessanha Henriques, atual diretor da faculdade. Até 1988 apenas 25% dos cremes dentais eram fluoretados e não havia regulamentação no país sobre a quantidade a ser acrescida nos produtos. Graças às pesquisas realizadas na FOP, a maioria dos dentifrícios vendidos no país passou a ser fluoretada.

O serviço odontológico oferecido pela escola

O serviço odontológico oferecido pela escola

História
Criada pelo governo paulista em 1957 como Faculdade de Farmácia e Odontologia de Piracicaba, a FOP funcionou como um instituto isolado até 1967, quando passou a fazer parte da Unicamp. A incorporação foi fruto da estratégia de Zeferino Vaz, idealizador e o então reitor da Unicamp, que buscava fortalecer a recém-inaugurada universidade campineira anexando instituições de ensino superior já consolidadas. Nessa empreitada, ele contou com um firme aliado, o professor Carlos Henrique Robertson Liberalli, primeiro diretor da então faculdade piracicabana.

“Para convencer Piracicaba das vantagens da anexação, Liberalli, que fora colega de Zeferino no Conselho Estadual de Educação (CEE), levou-o pela mão a cada gabinete político e a cada clube de servidores onde porventura prosperassem resistências à ideia. Nesses debates, o reitor prometia investimentos em pesquisa e a atração de mais professores para a faculdade”, relata o jornalista Eustáquio Gomes no livro O Mandarim – História da infância da Unicamp (Editora da Unicamp, 2006).

Vocação para pesquisa
Desde o início, a FOP desenvolveu vocação para a pesquisa. “Hoje, respondemos por cerca de 25% da produção científica nacional em odontologia, com trabalhos importantes na pesquisa básica e clínica”, ressalta o professor Edgard Graner, do Departamento de Diagnóstico Oral. A instituição colabora com importantes centros médico-odontológicos do exterior, entre eles o Forsyth Institute, filiado à Harvard Dental School, e o Dana-Farber Cancer Institute, da Harvard Medical School, ambos em Boston, a Universidade de Oulu, na Finlândia, e a Universidade de Sheffield, na Inglaterra.

Um trabalho relevante feito na faculdade e que revela seu caráter inovador envolve uma parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) na prospecção de moléculas ativas em produtos naturais. Liderada na FOP pelo professor Pedro Luiz Rosalen, a pesquisa, iniciada há duas décadas, buscou identificar o potencial bioativo da própolis brasileira, de frutas nativas, como bacupari-mirim, araçá-piranga e cereja-do-rio grande, e de resíduos agroindustriais, como borra de vinho, bagaço de tomate e pele do amendoim. “O foco do trabalho é a saúde bucal e sistêmica. Procuramos moléculas ativas com poder antioxidante, antimicrobiano e anti-inflamatório”, afirma Rosalen. “Os estudos deram origem a cinco patentes e mais de 100 artigos, e agregaram valor econômico e social a certos produtos naturais, como a própolis vermelha.”

Pesquisador no Laboratório de Bioquímica

Pesquisador no Laboratório de Bioquímica

A escola também é reconhecida como um celeiro de dentistas clínicos e pesquisadores em odontologia, tendo formado mais de 3.500 profissionais apenas na graduação. “Nossos ex-alunos compõem o quadro docente de universidades públicas e privadas do Brasil, de países da América Latina e dos Estados Unidos”, destaca o diretor Guilherme Henriques.

Desde a implantação da pós-graduação, em 1962, 1.800 mestres e 1.250 doutores foram titulados na instituição. “Dos sete programas de pós, quatro são considerados de excelência pela Capes, sendo três deles com nota 6 e um com conceito 7; é o único programa no Brasil na área odontológica com essa classificação”, conta Henriques. Este é um dos fatores que fizeram com que a faculdade figurasse no 20º lugar entre as melhores escolas de odontologia no ranking deste ano da QS World University Ranking by Subjects, divulgado pela Quacquarelli Symonds, consultoria britânica especializada no ensino superior. Outro curso da Unicamp, o de engenharia agrícola da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri), também foi listado entre os 50 melhores do mundo na sua área, ocupando a 30ª posição.

Atividades de extensão
Embora o forte da FOP seja a produção científica, ela também se sobressai por programas voltados à comunidade. Por ano, são realizadas na escola 200 mil consultas odontológicas gratuitas. O serviço dentário da instituição é capacitado para o tratamento de portadores de câncer bucal, pacientes com doenças infectocontagiosas e HIV positivos. A atuação da faculdade contribui para que Piracicaba, de 364 mil habitantes, tenha um dos menores níveis de cárie do país.

“Um importante legado da Faculdade é o Centro de Diagnóstico e Tratamento de Doenças Bucais, o Orocentro”, destaca Edgard Graner. Criado nos anos 1980 pelos professores Lourenço Bozzo, já aposentado, e Oslei Paes de Almeida, o centro é referência no país e no exterior no tratamento de lesões de boca. “O Orocentro atende mensalmente mil pacientes portadores de enfermidades, algumas bastante graves, como o câncer bucal, que não costumam ser diagnosticadas em consultórios odontológicos”, diz Graner.


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