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Ciência lota bares

Festival Pint of Science promoveu encontros entre especialistas e interessados em 22 cidades brasileiras

Edição Online 19:24 19 de maio de 2017

 

Natalia Pasternak, Organizadora nacional do Pint of Science, fala sobre microbioma

Nos dias 15, 16 e 17 de maio bares lotaram – apesar de ser início de semana – por um motivo inusitado: falar sobre ciência. Era o festival Pint of Science, criado em 2013 na Inglaterra, em sua terceira edição brasileira. E vem ficando maior a cada ano, chegando agora a 22 cidades no Brasil todo. Só na capital paulista foram nove bares e restaurantes. “Passamos de 20 mil participantes”, comemora a organizadora nacional Natalia Pasternak Taschner.

A ideia é tirar a ciência de seu reduto habitual e fazer apresentações informais regadas a comes e bebes. Cerveja, principalmente, dado o nome que se refere à medida habitual do chope nos pubs ingleses, de quase meio litro (pint). A própria Natalia, bióloga especializada em bacteriologia molecular, empolgou (e chocou) uma plateia de 240 pessoas na Cervejaria Nacional, em São Paulo, falando sobre a população de bactérias que habita cada pessoa desde a sua passagem pelo canal vaginal durante o parto, com impactos importantes na fisiologia e na saúde. Logo em seguida, o bioantropólogo Walter Neves, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), construiu sua fala em torno de cinco perguntas sugeridas pelo público, enquanto circulava de mão em mão uma ferramenta de pedra lascada feita há 2,5 milhões de anos por um ser humano.

Walter Neves fala sobre evolução humana na Cervejaria Nacional

No bar Tubaína, também em São Paulo, o imunologista Jean Pierre Schatzmann Peron, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, apresentou no dia 16 uma visão geral sobre a epidemia de zika que assola o Brasil e o mundo desde meados de 2013. Ele discutiu o atual estágio de conhecimento sobre a biologia do vírus e as estratégias empregadas para a obtenção de uma vacina contra o microrganismo. Na mesma noite, o biólogo Frederico José Gueiros Filho, do Instituto de Química da USP, falou sobre a quimiotaxia das bactérias, processo pelo qual esses organismos se movimentam ao serem atraídos por algum estímulo químico.

A equipe de Pesquisa FAPESP também participou. No dia 16, a editora de Pesquisa FAPESP On-line Maria Guimarães falou em Sorocaba, interior de São Paulo, sobre os desafios da divulgação científica, utilizando como exemplos assuntos ligados à alimentação – que atraem um grande interesse do público e precisam ser tratados com equilíbrio. O foco se justificava pelo diálogo com o biólogo Eduardo Nilsson, vice-coordenador de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde, que falou sobre iniciativas do governo de detectar problemas alimentares na população brasileira e estratégias para minimizá-los, orientando a dieta com a intenção de combater o aumento da obesidade. O editor especial da revista Carlos Fioravanti participou de uma seção sobre divulgação de ciência no dia 17 na Taverna Medieval, em São Paulo, com outros jornalistas, Roxana Tabakman e Reinaldo José Lopes. A partir de um levantamento que fez de notícias sobre compostos promissores para o desenvolvimento de fármacos, Fioravanti chamou atenção para a necessidade de se tratar do tema sem otimismo excessivo: uma proporção ínfima deu origem a produtos.

Eduardo Nilsson apresentou iniciativas do ministério da saúde, em Sorocaba

O público, sempre disposto a fazer perguntas, era em grande parte universitário. Mas não necessariamente especializado: um biólogo pode ter acesso a uma palestra sobre física, que não costuma encontrar em seu cotidiano. Natalia avalia que a população leiga, minoritária, ainda não se acostumou a ir ao bar para falar de ciência. “Talvez para eles demore mais para criar a cultura de participar desse tipo de acontecimento, que busca justamente aproximar a ciência do público”, avalia. Mas a participação modesta de não universitários está longe de derrotar o propósito da iniciativa. Ela considera certeira a avaliação feita pelo médico Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP, em sua fala na Cervejaria Nacional no último dia do festival. Para ele, a universidade deixou de ser um lugar de discussão. E é exatamente esse encontro interdisciplinar que os jovens foram buscar nos bares.

Por enquanto, 45 cidades já demonstraram interesse em sediar o Pint of Science em 2018. Natalia prevê que uma parte desistirá, em vista do volume de trabalho envolvido na organização, mas é possível que a ciência ocupe cada vez mais espaço nas mesas de bar.


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