MEMÓRIA

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Medicina no campo

Atuação do parasitologista Samuel Pessoa ajudou a criar uma tradição intelectual de compromisso da saúde pública com os mais pobres

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 255 | MAIO 2017

 

Trajetória de Samuel Pessoa o consagrou como expoente em parasitologia médica e higiene rural no Brasil

A ocupação das áreas rurais do estado de São Paulo, desencadeada pela expansão da indústria cafeeira em fins do século XIX, contribuiu para a degradação das condições de vida nos campos e eclosão de diversas epidemias. Alguns médicos atribuíam esses problemas ao clima tropical do país, outros, à ausência do poder público nessas regiões. Para o parasitologista Samuel Pessoa, no entanto, a situação nos campos precisava ser interpretada à luz de uma abordagem mais ampla, apoiada em uma visão marxista. A onipresença das doenças nas regiões agrícolas, segundo ele, seria consequência da estrutura econômica rural, sendo o latifúndio elemento central para a compreensão das doenças endêmicas do Brasil agrário.

A atuação de Pessoa como médico, professor e militante comunista contribuiu para a institucionalização do ensino e da pesquisa em parasitologia médica e higiene rural no país, em um período em que as condições de vida da população eram deixadas de lado quando se estudavam as doenças que afligiam os brasileiros nos campos. Os documentos que acumulou ao longo de sua trajetória agora estão disponíveis para consulta pública no Centro de Apoio à Pesquisa em História “Sérgio Buarque de Holanda”, da Universidade de São Paulo (USP). São mais de 2.500 itens, como artigos, cartas, fotos, entre outros, todos organizados e digitalizados pela historiadora Aline Lacerda, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, em colaboração com profissionais da USP.

Samuel Barnsley Pessoa (1898-1976) nasceu em São Paulo. Ingressou em 1916 na recém-criada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, uma das unidades fundadoras da USP, em 1934. A instituição à época negociava com a Fundação Rockefeller recursos para a pesquisa e a criação de um laboratório de higiene na instituição, o que ocorreu a partir de um acordo firmado em 1918. Não por acaso, para obtenção do diploma médico, Pessoa apresentou em 1922 um estudo sobre a ancilostomíase, cujo tratamento e prevenção estavam no centro das preocupações da fundação na América Latina.

Durante pesquisas de campo sobre transmissores de doenças parasitárias (s/d)

No mesmo ano obteve uma bolsa da Rockefeller para trabalhar em postos de saúde no interior de São Paulo e estudar endemias em regiões agrícolas. “Foi quando se aproximou da realidade das populações rurais de São Paulo, verificando os primeiros indícios da relação tácita entre latifúndio, pobreza, fome e endemias rurais”, conta o cientista político Gilberto Hochman, da Fiocruz, que estudou os arquivos do médico antes de eles serem disponibilizados.

Aos 33 anos de idade, Pessoa tornou-se professor de parasitologia médica na Faculdade de Medicina de São Paulo, assumindo uma das principais posições de ensino e pesquisa médica no Brasil. Formou várias gerações de cientistas, entre eles os parasitologistas Luiz Hildebrando Pereira da Silva, morto em 2014, Ruth e Victor Nussensweig e Erney Plessmann de Camargo. “Pessoa sempre exigia envolvimento social de seus colaboradores”, conta Erney Camargo, pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. “Mais de uma vez me provocou por eu estar mais preocupado com a pesquisa básica do que com a aplicada à saúde pública.”

Em 1942, Pessoa tornou-se diretor de Saúde Pública de São Paulo e descentralizou a administração sanitária do estado, permitindo maior autonomia local para o controle das doenças rurais. Ficou no cargo até 1944, quando retornou à USP. Sua trajetória como médico e professor desenvolveu-se em meio a acontecimentos políticos importantes, como a Revolução de 1932, a ditadura do Estado Novo (1937-1945) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Contaminado pela efervescência política da época, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PCB).

Com sua esposta, Jovina Pessoa, em visita à China, em 1952, para análise de denúncia de uso de armas biológicas pelos Estados Unidos

Segundo Hochman, Pessoa ajudou a criar uma área do conhecimento genuinamente nacional. Seus trabalhos sobre as condições sanitárias das populações nordestinas foram fundamentais para a criação do Serviço Nacional de Malária, embrião do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu). “Com seus assistentes, estudou em todo o país os transmissores da doença de Chagas, leishmanioses e esquistossomose”, afirma Camargo. “Em São Paulo, seus estudos ajudaram a orientar o Serviço de Profilaxia da Malária, criado em 1943.” Pessoa publicou 352 trabalhos científicos, mais de 50 artigos em jornais e nove livros, entre os quais Parasitologia médica, de 1946. A obra tornou-se leitura obrigatória em todas as escolas de medicina do país, com edições atualizadas até 1982.

Em 1952, o parasitologista foi convidado para participar da comissão responsável pela investigação do uso de armas biológicas pelos Estados Unidos na Guerra da Coreia. O trabalho da comissão resultou em um documento de 600 páginas, confirmando o uso de armas biológicas pelos norte-americanos. “Pessoa obteve enorme visibilidade pública por sua participação nesse episódio”, explica Hochman. “Isso lhe custou processos, perseguições pela polícia política e desafetos dentro da Rockfeller e da comunidade médica brasileira”, conta. Após se aposentar da USP, em 1956, Pessoa iniciou um período profícuo de incursões pelo país. Ofereceu cursos de graduação e organizou centros de pesquisas em Alagoas, Sergipe, Bahia, Paraíba, entre outros, até meados dos anos 1970.


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