RESENHAS

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Simples e pleno

NEUSA DE FÁTIMA MARIANO | ED. 258 | AGOSTO 2017

 

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Pedro Ribeiro
Como a própria cultura caipira, o título do livro assim se revela, simples e pleno: Vida caipira, de Pedro Ribeiro. Resultado de sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), neste livro são encontradas não só palavras que expressam o dia a dia de uma família caipira, a da dona Dita, “seu” Maurílio e seus filhos, mas também imagens fotográficas que revelam a plenitude da vida no campo.

Mas o que há de diferente das demais famílias? O autor surpreende ao elucidar que o conceito de família aqui apresentado envolve lar e patrimônio. Isso significa dizer que há, no interior dessa forma, conteúdos que tomam a dimensão totalizadora da vida. Assim está inserido o seu cotidiano, em diálogo direto com a natureza, não apenas no sentido do conhecimento, do saber fazer, do aproveitamento sustentável dos recursos e respeito a eles, mas de uma consciência de pertencimento e de identidade com a própria natureza: seus ciclos temporais, suas condições físico-espaciais, suas características singulares e ao mesmo tempo simples.

Dona Dita e “seu” Maurílio, em 1998

Diante da narrativa de processos históricos sobre a região de Cunha, no Vale do Paraíba, onde está localizado o sítio da família de “seu” Maurílio, e de conceitos acadêmicos, a comunidade, o sítio, a família, o caipira e o caboclo vão sendo desvendados pelo autor. Mas também o são por meio das fotografias que, apesar de serem cenas estáticas, trazem o movimento do cotidiano perfazendo ou complementando, ou melhor dizendo, reafirmando tais conceitos científicos.

Desta forma, à luz das panelas areadas, as lentes do fotógrafo e etnógrafo captam o olhar longe da mãe, da mulher Benedita, debruçada sobre a janela quadrada que filtra seus pensamentos, embalados pela sonoridade do quintal. O feminino retratado como a fonte da vida, a manutenção da família, o guardião da reprodução, tal qual simbolismo trazido pelo milho colhido, a abundância do alimento. A prosperidade torna-se mais próspera quando a colheita é misturada às crianças de futuro ainda incerto quanto à permanência ou não no sítio, na vida caipira.

Francislene, Pricila e André em meio às espigas de milho no sítio de Ditinho Teixeira, em 1997

No que concerne ao masculino, o trabalho espacializado para além do terreiro da casa, ainda que solitário, muitas vezes se confunde com o ócio. Mas, sobretudo em situações de coletividade como é o mutirão, o trabalho pode ser interpretado pelo leitor desavisado como atividade de pouca dedicação e muita festa. Nesse sentido, nas pegadas do pensamento de Monteiro Lobato, o caipira é visto como preguiçoso e ignorante. Pedro Ribeiro depõe a favor do modo de ser, pensar e agir da família caipira ao narrar o seu cotidiano no sítio e seus afazeres, desde o cantar do galo até o pôr do sol: roçar, carpir, arar, plantar e colher, tratar do pouco gado para o queijo e para a distribuição do leite à comunidade. Nos dias de descanso, “seu” Maurílio dedica-se à manutenção do sítio ora tecendo jacás, ora fazendo pequenos reparos nos cercados e nas ferramentas, no pouco discernimento entre trabalho e diversão. Na entressafra, trabalha por empreitada para outros.

Há que enaltecer também o encontro, a sociabilidade caipira que propicia as trocas (informações, favores, olhares, compromissos e alegrias). A religiosidade revestida de catolicismo popular, tão bem retratada no livro, convida o leitor a entrar no ritmo do moçambique, dançado sob o comando dos mestres, ao som dos bastões e dos chocalhos. E assim as famílias se estendem para fora da casa, do sítio, misturam-se, enriquecem-se e se confundem sob a regência da fé, da devoção e da comunhão: as Festas do Divino, de São José da Boa Vista, do Milho; o tapete de Corpus Christi; a romaria, a missa, e a novena semanal; o aniversário infantil. No ritmo do calendário agrícola-religioso, a “naçãozinha”, como diria Antonio Candido, espalha-se e se reúne na centralidade do bairro rural, na quase vila, na quase ponte para o urbano.

Participantes da festa de São José da Boa Vista dançam ao ritmo do moçambique, em 1999

O autor chama a atenção para a interpretação equivocadamente linear sobre o desenvolvimento da cultura caipira, como se esta estivesse caminhando para o seu fim a partir do processo de urbanização. Há formas diferenciadas de viver, ver e sentir o mundo, sendo que o universo caipira se encontra em constante diálogo com os processos de modernização, anunciando as contradições socioespaciais. As alterações da paisagem mostram isso, em que há uma atenção à pecuária em detrimento da agricultura, em que o terreno da capela é tomado pelos “fuscas”, em que o chapéu de palha cede lugar ao chapéu de cowboy. São transformações que não interferem na estrutura do modo de ser, pensar e agir da família caipira, mas que a colocam no mundo.

Ainda que alguns jovens se vão na aventura urbana, outros tantos (já não mais tão jovens) retornam, talvez como vencedores deste urbano, mas com o coração apertado na busca de suas origens, para revivificar a cumplicidade orgânica com a natureza, naquilo que é simples e pleno.

Neusa de Fátima Mariano é geógrafa e professora do Centro de Ciências Humanas e Biológicas da UFSCar, campus de Sorocaba. É especializada nos temas que envolvem a cultura caipira, a religiosidade popular e a geografia cultural.


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