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Descobertas depois de um século

Larvas de insetos induzem planta do Pampa a produzir estruturas que também servem de abrigo para outros invertebrados

MARIA GUIMARÃES | Edição Online 20:13 14 de setembro de 2017

 

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Gilson Moreira
Nos arbustos da aroeirinha (Schinus weinmannifolius), no Pampa gaúcho, bolotas rosadas nem sempre são frutos. Cortadas, revelam uma série de cavidades dispostas em círculo, como se fossem gomos, cada uma contendo uma larva de vespa. Essas galhas, estruturas produzidas pela planta em resposta à ação dos insetos, foram descritas por volta de um século atrás pelo jesuíta português Joaquim da Silva Tavares (1866-1931). Só agora o grupo liderado pelo entomologista Gilson Moreira, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mostrou que a história é bem mais complexa e começa com uma micromariposa até então desconhecida pela ciência.

O inseto ganhou o nome de Cecidonius pampeanus, que remete a galhas (kekídion, em grego) e ao bioma em que vive, conforme artigo publicado em setembro na revista Zookeys. Ele passou despercebido por tanto tempo porque as galhas que contêm suas larvas são verdes, do tamanho de feijões, e caem da planta durante o outono para desenvolver-se no chão. “As larvas ficam dormentes durante o inverno e se desenvolvem na primavera, para depois emergir”, explica Moreira.

“Levamos 10 anos para conseguir criar as larvas e identificar a espécie”, conta. Afinal conseguiram e, por meio de microscopia óptica, eletrônica e análises genéticas identificaram a mariposa com cerca de 1 centímetro (cm) de envergadura das asas acobreadas. A família, Cecidosidae, também tem representantes na Nova Zelândia e África do Sul, além da América do Sul. “Na África, as galhas produzidas por essas mariposas são conhecidas como jumping beans.” O termo, que significa feijões saltadores, se refere à impressão de que os pequenos grãos estão saltitando pelo chão quando as larvas dentro deles se remexem.

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E as bolotas rosadas recheadas de vespas, que se confundem com frutos? Aí a história vai ficando intrincada. As galhas induzidas pelas mariposas podem ser usurpadas por larvas de vespas do gênero Allorhogas, classificadas como inquilinas porque induzem a produção de um tecido diferente, chegando às esferas de 3cm, e matam a larva original. Essas galhas modificadas permanecem presas à planta e por isso são detectadas com mais facilidade.

Outra invasora costumeira é a vespa do gênero Lyrcus, que suga o conteúdo da larva de C. pampeanus e se desenvolve dentro da galha original, que não cai e aos poucos vai secando. Quando termina o desenvolvimento, a vespa abre um furo na ponta e sai.

Depois de vazias, as galhas que não caíram ao chão ainda podem abrigar outras gerações de insetos sucessores como formigas. Recém-descoberto, o sistema restrito aos topos de morro em torno de Porto Alegre corre risco de extinção. Essa área sofre forte impacto por uso humano e a aroeirinha é considerada planta daninha nos pastos, por não ser apreciada pelo gado. Se desaparecerem, suas galhas podem deixar desalojada uma variedade ainda desconhecida de pequenos habitantes dos Pampas.

Artigo científico
MOREIRA, G. R. P. et al. Cecidonius pampeanus, gen. et sp. n.: an overlooked and rare, new gall-inducing micromoth associated with Schinus in southern Brazil (Lepidoptera, Cecidosidae). Zookeys. v. 695, p. 37-74. 4 set. 2017.


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